Off-Beat (Beta)

Textos em construção escritos por João Paulo Paes de Oliveira (joaopaulopaes@yahoo.com.br)

A (re)evolução dos bichos

E depois de toda aquela história da arca, em que cada espécie de animal foi salva em duplas de macho e fêmea, o mundo dos bichos de novo precisava de ajuda, mas dessa vez nem Noé poderia resolver a situação. Isso, por que, depois que cada casal foi para o seu devido lugar, as espécies passaram a se isolar e cavalo não falava com porco, nem galinha era amiga de macaco.

A maioria dos animais não mais ficava assim tão livre como antes e tudo passou a ser uma questão de sobrevivência. Depois que as cidades começaram a crescer e os homens passaram a se alimentar dos bichinhos e a se vestir com suas peles, algumas espécies até cresceram um pouco mais, enquanto outras tiveram que se esconder se não quisessem sumir do mapa.

Na Internet tinha até foto de fazenda que parecia plantar boi de tanto gado que havia no pasto. E alguns homens, por esporte, reuniam-se em excursões para caçar espécies ameaçadas. Mas o problema não era só o bicho-homem…

No celeiro, o pai cavalo falava com seus potrinhos e potrancas:

– Meus queridos filhotinhos, fiquei sabendo que vocês foram vistos brincando com um bezerro e um joão-de-barro. Já falei para vocês que não é sadio andar com esse tipo de bicho. Os bezerros tão logo crescem, são abatidos e a sua tristeza pode influenciar vocês. Imaginem se um dia os nossos donos percebem que estão chateados por que seus amigos irão para o prato! Ah, tenho certeza que vão soltar vocês por ai e não vai ter comida pra ninguém, vão passar fome e ficar com o pelo feio e todo mundo vai achar que são pangarés.

– Mas papai, é o joão-de-barro? Por que não podemos falar com ele?

– Aí meu filho, é um problema praticamente igual. Nós vivemos muito, eles logo já chegam na melhor idade, nós trotamos e eles voam. E ai, vocês podem ficar chateados por que de repente, seus amiguinhos desaparecem e se vão!

– Mas papai… – relincharam tristes os filhotes – o joão-de-barro é divertido e ainda conta um monte de histórias do que acontece do lado de fora da cerca…

– Meus filhos, cavalo anda com cavalo e ponto final. Fomos livres em uma época de selvageria. Hoje, nossa função é puxar carga e levar gente no lombo, assim, nossos donos garantem nossa ração e nos dão um celeiro para passar a noite. Esse é o nosso destino!

E o mesmo discurso era ouvido nas árvores, no galinheiro, nas matas e nos rios. Era peixe que não queria que peixinho conversasse com sapo, nem onça queria papo com papagaio. E na cidade era a mesma coisa. Cachorro perseguia gato que tentava pegar pombo que expulsava o pardal do fio. Era ratazana falando mal de hamster e periquito fugindo de papo com o canário.

Mas eis que, no meio de um trânsito infernal, com carros e pessoas nervosas e apressadas, uma família um tanto quanto especial se reunia. Eram bichanos órfãos que desse papo, não se nutriam. Em um beco escuro, bem perto das ruas, um gato muito esperto falava com seus irmãozinhos (que não eram só felinos):

– Olha gente, fiquei sabendo que vivemos na clandestinidade. É, eu sei que todo mundo sabe disso. Nossos pais e mães já não vivem ao nosso lado desde muito tempo e as pessoas chutam nosso traseiro com muito desprezo. Mas agora, além dos homens, são os animais que alimentam o preconceito. Na fazenda e na cidade, cada espécie vive entre si e odeia quem não é igual. Nossa família é diferente. Tem gato, como eu, tem cachorro, lagarta e até um urubu – todos sorriam ao se reconheceram nas palavras do irmão gato. Os bichos ficam isolados dentro de suas cercas a mercê do destino que os homens lhes dão. De tanto tempo confinado esqueceram que a natureza é uma só, sem distinção.

– Como pode isso? Será que nunca a história dos Saltimbancos? Cada um era diferente, mas justamente, por isso, é que conseguiram se dar bem. Cada um com seu jeito e seu conhecimento ajudando ao outro se safar dos perigos dessa vida – disse muito bem o ratinho, o mais novo daquela família.

– Além disso, meu caro gato, não podemos esquecer do exemplo que temos aqui mesmo. O cão Ozório e a gata Esmeralda foram criados na mesma casinha e hoje, vivem como em uma família.

– É isso mesmo! – disse exaltante o casal formado por inimigos históricos, que sorriu orgulhoso e claro, deu um afago de amor, contrariando as teses do homem e agora, dos próprias animais.

– Então meus amigos! Eu tenho um plano. Vamos nos libertar da repressão de nossa própria gente e ainda poder ser um passo para acabar com essa festa que os homens fazem conosco. Não somos só comida, não somos só vestidos! Somos diversão e arte também!

Em todos os quintões e becos, nas matas e no asfalto, a nova geração de animais começou a espalhar a notícia de que um novo dilúvio aconteceria em breve e que dessa vez, não seriam necessários casais de cada espécie, mas sim, uma multidão de animais diversos e amigos. Os mais velhos torceram o nariz, não acreditavam que o mundo que viviam poderia mudar. Confiavam extremamente na força dos humanos, principalmente por que andavam com a cabeça reta e com os dois pés no chão – além, é claro, de cercarem seus domínios, separando cada espécie e não deixando os outros entrarem em seu território.

A repressão aos “independentes”, bichos que rompiam a barreira do preconceito e levavam a vida como se todos fossem iguais em sua natureza, aumentava cada vez mais. Houve até confrontos sangrentos entre os mais conservadores e aqueles que divulgavam a boa nova. Muitos animais foram expulsos de suas tocas e a batalha parecia decididamente perdida.O que queriam não era alertar para o fim do mundo ou pelas águas que poderiam invadir as terras. E sim, para a verdade: enquanto fossem reprimidos e confinados, separados e assassinados, ninguém iria conseguir entender o valor dos animais, ninguém iria se lembrar da riqueza de seus movimentos, da beleza de seus corpos e da alegria de suas vidas. A maioria deles tinham esquecido que era, em princípio, livres. Os frangos, por exexmplo, sem consciência, faziam musculação obrigatória para que crescessem mais rápido e antes da maturidade, já eram sacrificados. Os bois coitados, nem percebiam que logo que cresciam entravam na fila do matadouro e ainda achavam que a mão do homem encapuzado seria para afagar seu focinho. Eles não nasciam para serem adorados ou para dar leite ou para alegrar as crianças e sim, para morrerem antes de se tornarem adultos. Um triste fim anunciado.

Mas é claro, como em toda boa história, novas figuras emergem em meio ao caos e ao desespero para dar, enfim, a luz necessária ao movimento de libertação dos animais: e não é que do nada, um animal um pouco exótico começou a apoiar a causa? Aliás, dois.

Apesar da dificuldade de se comunicar – pois, os pais conservadores e os filhotes sem muita personalidade combatiam qualquer forma de interação entre as espécie, uma dupla um tanto quanto não convencional começou a chamar a atenção. De um lado, Liger, um leão-tigre; de outro, o famoso e enigmático Ornitorrinco. Ambos figuravam em um tipo de classificação que os próprios homens não sabiam como resolver. Diziam que era impossível dois animais de espécies diferente terem filhotes, porém, o Liger estava aí para desmentir essa “verdade”. Já o mamífero com bico e pé de pato que bota ovo é um verdadeiro estranho no ninho. Ninguém sabe de onde veio e nem do que é feito, exatamente. E por isso, encomoda tanto!

E nos troncos das árvores, e nos céus das florestas e nas ruas das metrópoles a notícia de que tão estranhos seres apoiavam a boa nova começou a ecoar. Gruídos, grasnados, pios, latidos, miados, sussurros, cantos e rugidos há tanto tempo latentes na geração do presente se fizeram escutar em meio ao pânico da mudança. E uma nova multidão de animais passou a poder dizer sobre o que pensa, sobre o que sente, sobre o que deseja. E novos arranjamentos passaram a ocupar as cidades, as vilas e as florestas. As garras e patas, as presas e os bicos se colaram em um movimento único que envolvia um número considerado de desejos e necessidades. Predadores e presas se abraçaram pela primeira vez e dançaram uma nova canção, uma música marcada pela aceitação e a liberdade. “Eu me alimento dos seus, mas mesmo assim, não posso deixar de reconhecer de que se não fossem por vocês, não estaria aqui para te abraçar”, disse o leão às cabras. “Eu te amo urubu”, disse emocionada a arara. “Vamos pescar juntos”, comemorou a ave marinha ao lado do golfinho. “Vamos a nossa festa, amigo sapo”, convidou a saracura.

Continua (qualquer dia desses)…

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