Geração Beat

Texto retirado do blog DISSONÂNCIA.COM
 

Beat: um breve histórico de um geração enlouquecida

Jack Kerouac, Allen Ginsberg e William Burroughs

Por Daniel Silva
Imagens: Reprodução

Muito antes dos hippies, flower power, cabelão e toda aquela coisa de paz e amor houve algo chamado geração beat. Dentro da palavra beat cabem nomes como Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs, Neal Cassady, Gregory Corso, Lawrence Ferlinghetti, Gary Snyder, Carl Solomon e outros tantos.

Beat: o ritmo do jazz bop de Charlie Parker e Thelonious Monk em contraponto com o som frenético do bater das teclas da máquina de escrever. A camiseta e a calça jeans. O alcool em suas mais variadas formas. São as bolinhas para “expansão” da mente. O barulho dos trens. O cheiro de gasolina. Comportamento e transgressão. BEAT. Solitárias vozes dos anos 50, verdadeiros outsiders semeadores / disseminadores da contracultura norte-americana que explodiu na década de 60, do movimento à favor da liberdade de expressão e das passeatas contra o conservadorismo do ensino universitário, o pacifismo em conseqüência da guerra do Vietnã etc.

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O termo beat veio de uma expressão que Herbert Huncke, um marginal e traficante chegado da turma, usava com frequência: “I’m beat” – algo do tipo estou fodido, quebrado, duro. Jack Kerouac gostou, adotou em seus escritos e à partir de então beat serviu para designar uma geração envolvida com um novo movimento literário e comportamental, que retratava as experiências de vida, as aventuras e desventuras, as viagens – tanto as literais quanto as  ocasionadas por aditivos – de caras comuns, como você e eu, de uma maneira divertida,  realista e quase sempre autobiográfica.

Tudo começou em 1944 , quando Kerouac, Ginsberg e Burroughs encontraram-se pela pela primeira vez em Nova York, mais precisamente na Universidade Columbia. Ambos ávidos leitores e com um interesse em comum: ser escritor. Desde então, nada mais seria do mesmo jeito. Com exceção de William Burroughs, jovens universitários (até então) que se entupiam de anfetaminas e se expressavam em público, lendo suas poesias em coffee shops e bares que tocavam jazz.

Jack Kerouac e Cassady

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Entre uma leitura e outra, perambulando pelas calçadas da efervescente Nova York sempre com seus livros embaixo do braço, fumavam quilos de maconha e observavam, de acordo com Allen Ginsberg, o “fenômeno” das luzes vermelhas acima dos prédios (provavelmente aquelas lâmpadas que ficam acesas durante a noite acima dos edifícios mais altos para auxiliar na sinalização).

Jack Kerouac havia ingressado na universidade com o intuito de seguir a carreira de jogador de futebol (americano), mas não agüentou ficar mofando no banco dos reservas da equipe e logo percebeu que essa não era a sua praia e, graças ao envolvimento com o bagaceiro Huncke, ele e Ginsberg foram expulsos da faculdade por  mal comportamento e acusados de “baderna”. Influenciado por Burroughs, começou a ter maior interesse pela literatura clássica americana e por europeus como Kafka e Rimbaud. Conheceu seu grande amigo, parceiro de trips e personagem de seus livros Neal Cassady em 1946. Escreveu em três (!!) semanas nos idos dos anos 50 sua obra prima On the Road (do qual Cassady é a verdadeira personificação), rapidamente e literalmente na estrada, como o próprio título sugere, datilografando tudo em um grande rolo de papel – Kerouac justificava o fato de escrever no peculiar rolo de papel dizendo que: “…quando escrevo narrativas e quero mudar minha linha de pensamento, eu não preciso parar…”  Aliás, ele costumava dizer que toda sua obra fazia parte de um grande livro, em constante crescimento e que seus livros editados não passavam de capítulos desse enorme livro que, no futuro, já velho, gostaria de reeditá-los como um todo.

Há um trecho em On the Road que na minha opinião sintetiza e muito bem tanto o livro em si quanto toda ideologia beat: “Nossas malas estão na calçada de novo. As estradas eram mais longas, mas não importava. A estrada é a vida”. Inspirado é pouco para descrever isso.

Jack Kerouac escreveu ainda diversos livros, entre eles Os Subterrâneos, Big Sur (estes editados no Brasil mas há muito esgotados), The Dharma Bums, O Livro dos Sonhos entre tantos outros, sempre envolvendo personagens da cultura beat em suas histórias. Veio à falecer no ano de 1969, no mesmo dia do aniversário do músico jazzista Dizzy Gillepsie, devido à uma hemorragia causada por uma perfuração no estômago, proveniente dos excessos com a bebida, principalmente o vinho, deixando um legado cultural inquestionável.

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   Allen Ginsberg

Allen Ginsberg, poeta, judeu, budista, homossexual, puxador de fumo da pesada, rebelde, anarquista. Entre suas obras estão Kadish, América, e talvez seu maior feito: o poema Uivo, dedicada ao poeta, amigo e companheiro de hospício Carl Solomon, ao qual conheceu quando de sua “temporada” Instituto    Psiquiátrico   de Columbia entre os anos de 1948 e 1949.

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Uivo foi originalmente publicado em 1956 e em seguida apreendido pela polícia de São Francisco sob a alegação de tratar-se de uma obra de cunho obsceno. O também poeta, editor e dono da livraria City Lights (reduto beat de São Francisco), Lawrence Ferlinghetti sofreu um processo por ter lançado tal obra “pornográfica”, mas Uivo logo foi liberado pela suprema corte americana e tornou-se um best seller, fazendo com que os olhos se voltassem para a (agora) famosa geração beat. Acompanhado de Kerouac, tentou encontrar a verdade e o sentido da vida, por mais piegas que isso pode soar. De acordo com o próprio: “Não tentávamos (ele e Kerouac) fazer uma revolução social, só tentávamos propor nossa alma à nós mesmos”.

Claudio Willer, poeta, tradutor e especialista no movimento beat diz que …”Ginsberg, ao escrever poemas ao quais estão diretamente ligados movimentos e mudanças sociais, mostrou que a poesia, mesmo em uma sociedade complexa, aberta e fragmentada como a nossa, ainda tem esse papel criador. Continua capaz de se projetar no tempo, e de fazer história.” Allen Ginsberg, foi, junto com Gary Snyder (poeta, antropólogo, defensor da ecologia e da cultura indígena – inclusive a do Brasil – e também agricultor), o elo de ligação entre a cultura beatnik e o nascimento do movimento hippie nos anos 60, participando de manifestações estudantis pacifistas. Antes de morrer em abril de 1997, disse “Achei que teria medo, mas estou animado”. Por er vivido intensamente e chegado (quase) no limite, não é de se espantar o fato de estas terem sido algumas de sua últimas palavras. “Eu vi os expoentes da minha geração, destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus, arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca de uma dose violenta de qualquer coisa…” (trecho de Uivo).

“Não serás um bosta se não sabes que é um “. A frase é de Mr. William Burroughs, poeta, exterminador de ratos, cínico, pintor, homossexual, praticante de tiro e com certeza aquele que foi mais fundo nas drogas, relatando suas experiências de uma forma um tanto realista e peculiar em seu atormentado Junkie, no qual descreve todo o submundo da Nova York dos anos 50, seu pesado envolvimento com a morfina e a heroína, drogas das quais foi um inveterado “adepto” (viciado) por vários anos de sua atribulada vida de escritor e “pesquisador” de substâncias ilícitas e alucinógenas.

William Burroughs

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Ao final do livro, Burroughs nos dá pistas do que estaria por vir ao escrever: “Andei lendo sobre uma droga chamada Yage ( na verdade um cipó), usada pelos índios da cabeceira do Amazonas. Dizem que ela aumenta a sensibilidade telepática. Portanto, resolvi me mandar pra Colômbia em busca do puro barato que expande a mente, ao contrário do junk, que a estreita. Talvez eu descubra no Yage o que andava pro curando no junk, na maconha, na coca. Yage talvez me dê o barato definitivo”. E foi o quê ele fez. Se mandou para a América do Sul em busca do Yage, ou se preferirem, o famoso “santo daime” – como ficou conhecido por aqui em meados da década de oitenta. Em Cartas do Yage, Burroughs narra com detalhes através de cartas para o amigo Allen Ginsberg suas aventuras e desventuras pela Colômbia, Equador e Peru. Entre um lugarejo e outro no meio de selvas e às voltas com brujos (curandeiros) que preparam o Yage, ele narra com detalhes todas as suas “viagens” proporcionadas pelo Preparado. Em uma passagem de Cartas do Yage, o autor escreve: “Fiquei sentado lá (após ter bebido uma dose do chá), esperando o efeito, e quase imediatamente tive o impulso de dizer: ‘não foi suficiente, preciso mais”. Anos depois, influenciado pelos relatos do amigo, é Ginsberg quem resolve ir em busca da alucinação do Yage, descrevendo a mesma como sendo uma “droga telepática-alucinógena-expansora-da-mente” e enviando cartas à Burroughs pedindo conselhos sobre como “proceder”.

Após Cartas do Yage, William Burroughs escreve sua obra mais audaciosa: Naked Lunch ( o título foi sugerido por Jack Kerouac e posteriormente virou um  filme), concebido em sua última fase de drogado, no ano de 1958, quando estava em Tânger, no Marrocos. Uma eloqüente denúncia da sociedade, enxergada por Burroughs de modo cético e invariavelmente delirante e foi finalizado com o auxílio do método do cut-up ou da colagem, técnica essa que consistia em juntar histórias ou trechos das mesmas para criar uma outra. Com o auxílio de tesoura e um gravador,  eram cortadas (daí o cut-up) partes dos mais diversos escritos e até diálogos de filmes. Feito isso, esses trechos cortados eram reordenados junto aos seus e em seguida re-escritos, tornando o resultante texto em algo descontínuo e como não poderia deixar de ser, confuso mas muito interessante. Burroughs escreveu Expresso Nova, O Ticket que Explodiu e ainda A Máquina Macia totalmente com o uso do cut-up, que posteriormente (anos 70) foi sendo abandonado pelo autor. Assim como seus colegas Ginsberg e Kerouac, produziu muito e seu legado continua gerando curiosidade por parte de interessados em saber o quê foi a geração beat e qual sua contribuição para gerações futuras e do nosso presente.

Após 83 anos das mais variadas maluquices, Mr. Burroughs partiu desta para uma melhor em agosto de 1997, 4 meses após seu grande camarada Allen Ginsberg ter partido e 28 anos depois de Kerouac. Imaginem vocês o que esses caras não andam aprontando lá por cima!

THE BEAT GOES ON!!!!!!!!

3 comentários sobre “Geração Beat

  1. enfim informações verídicas, de que kerouac tenha vindo a falecer de problemas do estômago, como seu pai, leo kerouac, deve ter sido congenia, além do vinho tomado “na escala dos garrafões” (cláudio willer no encarte “jam” da revista “chiclete com banana”, algum lugar dos 80’s)

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