Kerouac Vs a Criança

O homem pode esconder do mundo qualquer coisa que se vista – palavras, roupas, discursos, medalhas… mas há nele algo que não tem como fantasiar, mesmo que as memórias lhe sejam favoráveis ou senão falsas, fabricadas dentro de uma lógica. A própria consciência é inegável. Sim, e isso é claro, por mais tenebroso que possa parecer aos olhos dos outros. Hoje, tenho 45 anos e sou um homem triste, solitário e muito amargo. Esse foi o meu caminho e sei que quando estou aqui, diante do papel e da estrada, nada me faltou, nem mesmo minha consciência, minha culpa e minha dor. Só agora percebo que sim, o fundamental ficou abaixo do que pude enxergar.

Continuar lendo “Kerouac Vs a Criança”

Kerouac Vs O Amadurecimento

O mais interessante dessa vida é poder olhar para atrás e ver como as coisas já não são mais as mesmas. Não é aquela balela simples de falar sobre como que a vida muda, como as pessoas se transformam ou como as coisas eram diferentes quando você tinha vinte e poucos anos. Falo mesmo é de como o meu arranjamento para a própria existência deixou de seguir um ideal que em outro tempo parecia ser a única estrada a perseguir. Não nego esses sentimentos que habitavam em meu espírito no passado – a sensação quente de poder querer compartilhar a vida com qualquer coisa, lugar ou pessoa e dali tirar um proveito momentâneo ou duradouro. Só que no agora, essa operação já não tem mais que ser resolvida. Não cheguei a uma conclusão sobre aquele período, mas acho que, na verdade, o resultado não importa ou pelo menos, nunca se revelará como se espera. Continuar lendo “Kerouac Vs O Amadurecimento”

Kerouac VS a Modernidade

Existem momentos na vida em que qualquer vagabundo ou sábio entende que é preciso sair fora. Inclusive da estrada. Havia em mim uma dor que não compartilhava com os executivos de uma empresa, nem com o operário que acorda aborrecido, mas ri no refeitório satisfeito com a ração que pensa que é de graça, mas é paga com o seu suor diário. Muito menos a dona de casa infeliz que espera o marido chegar bêbado de mais de um dia de trânsito e pressão. Só mesmo aqueles que vivem se arrastando pelo asfalto e os ascetas entendem que essa vida de pó preto, sirenes e gente ao redor é algo ilusório, maya. Continuar lendo “Kerouac VS a Modernidade”

Kerouac vs Madalena

Não havia mais muitos motivos para permanecer. Pelo menos naquele momento. Embriagava-me de forma dolorosa com a dura rotina da vida urbana. Pensava em corpos sem qualquer sinal de alma pirando pelas ruas em suas guias de sistema. Sempre haveria uma esquina e nela, sempre haveria alguém indeciso entre atravessar, ir para a esquerda, ir para a direita ou simplesmente dar meia-volta e retornar para seu caminho inicial. Continuar lendo “Kerouac vs Madalena”

Kerouac Vs Linda

Que porra é “hoje”?! Sei que habito um lugar gravado com a inscrição exata de um tempo, mas tão pouco sei onde me encontro nesse exato momento. Decidi pelas estradas porque percebi que a vida parada, onde (não) me encontrava, come minhas entranhas com vigor e sem perdão. Hoje, não desejo mais “isso”, porém quero aquilo que hoje, não será possível. Essa é minha luta, esse é meu desafio: entender que no hoje, qualquer palavra é vã, qualquer argumento não se coloca simplesmente porque passa e passa mesmo, passa diante dos meus olhos e dos olhos dos outros e tudo se torna poeira. As estradas estão cheias e eu estou vazio. Continuar lendo “Kerouac Vs Linda”

Kerouac vs a Loucura

Hoje, deixo o sanatório. Não aceitaram meu pedido de loucura. Hahaha! Nos últimos dois anos aconteceram tantas mini-histórias que até um velho marujo mentiroso ficaria envergonhado de contar. Tudo começou ainda em Lowell. Lá passa um rio que levou minha alma junto. Sempre pensei em sair do quintal de uma das casas beira-rio e de lá ir para o mundo. Quando era menor, fui o mentor de uma das nossas tentativas de escapar.  Já estávamos cruzando o condado quando o pai do Harry apareceu com as nossos irmãos menores e gente da cidade. Sempre soube que queria viajar pelo mundo sobre o mar. Porquê a vida é o mar! Continuar lendo “Kerouac vs a Loucura”

Kerouac vs a Honra

Seus olhos nunca são os mesmos. A cada dia, a cada despertar, um novo mundo se projeta biologicamente dentro de você e aquilo que enxerga, por mais que seu cérebro de TV, viciado, ache que é o mesmo, que o sorriso e a decepção têm os mesmos tons, não têm. Há uma história de que a angústia viaja amarrada nas costas do viajante. Não adianta sair de um lugar se o que lhe ferra tá dentro e te acompanha até a porta do inferno. Ou seja, por um lado temos um despertar completamente novo todos os dias e, por outro, temos as coisas dentro de nós permanecendo, independente da coordenada em que seu corpo estiver habitando. Assim, somos novos corpos em almas velhas, vagabundas, repetitivas, geralmente, estagnadas. Continuar lendo “Kerouac vs a Honra”

Kerouac Vs o Casamento

Quando tudo deu errado e era fato que viraria comida de minhoca debaixo da terra, uma luz bem lá no finalzinho do túnel resolveu aparecer pra mim. Antes de morrer jovem e senil, entregue a uma cela úmida e tifo, preferiria entrever-me com um outro alguém, mesmo que isso levasse em conta a obrigação e o acúmulo de carma. Por um tempo, justamente por estar necessitado de um manche na vida, pensei que a liberdade era o casamento. Amar e ser amado, não se preocupar muito com o que acontece lá fora e ter um cobertor de orelha todas as noites frias do inverno. Continuar lendo “Kerouac Vs o Casamento”

Kerouac Vs Duluoz

Recebo um telefonema de Raphaello Scoth, meu contato no NYTimes. “J. o Gary entrou de férias, cara. Seu livro já era meu camarada. Estou envergonhado, envergonhado… Maldito Gary. Ele tinha me confirmado, na próxima sexta, na próxima sexta“! Filho da puta bastardo, penso. Diga a ele que quando eu for lido por metade da América, sua crítica já não vai adiantar nada. Desliguei o telefone bastante puto. Maria estava com o cigarro em mãos, encostada na cama e me olhando. Continuar lendo “Kerouac Vs Duluoz”

Kerouac vs Moriarty

Depois de tudo o que tinha acontecido com Phillip, fiquei um pouco atordoado. Não quis nem saber de Janie ou de ninguém. Voltei para aquela maldita agência e esperei um navio que me levasse o mais longe possível. Queria sair da minha vida mais uma vez. Mas dessa vez com força e solitário. Sou um peregrino em busca de luz, persigo seu rastro cego. Entretanto, havia uma coisa que estava me incomodando muito. Continuar lendo “Kerouac vs Moriarty”

Kerouac Vs o Existencialismo

Ver a vida passar diante do nariz. É isso que a maioria das pessoas costumam fazer em seus cotidianos lentos e melancólicos. No inverno, os rostos e as felicidades são diminuídas pelas necessidade de se ver constantemente e além disso, sempre abrigados em algum lugar que não seja lá fora. Meu Deus!!! A cada segundo eu me imagino terrivelmente longe de qualquer pessoa e no momento seguinte, uma dor silenciosa e cheia de vazios me faz temer a solidão. Olho para o caminho e não vejo absolutamente nada. Há uma luminosidade opaca que impede qualquer coerência em termos de forma ou expressão. Sinto-me obrigado a dar passos a diante, como se estivesse impelido por uma força que vai além da minha própria vontade. É uma espécie de caos que me abraça e roça a noite fria em minhas orelhas. Porém meu pé soluça pela estrada sem muito vigor ou coragem para reagir aos obstáculos. Continuar lendo “Kerouac Vs o Existencialismo”

Kerouac Vs Camille

Uma imensa dor corrói o meu espírito há cinco longos dias. Ela simplesmente deixou a casa e partiu. Não disse nada, nem antes nem depois. Bateu a porta forte o suficiente para que entendesse que não devia gritar por ela na janela. Torci meu estômago e meu coração alcançou a goela. O ar me escapa aos poucos e fere o pulmão. A mente não consegue se desviar senão pelo seu corpo imaginário e seu sorriso ébrio. Pensei em me enforcar, achei exagerado. Pensei em auto-flagelação, logo logo me arrependeria, nenhuma das duas dores passaria na velocidade de um avião. Estou entregue ao mundo, meus olhos caíram, minha boca murchou, meu pau é uma meia velha, vazia e abandonada. Continuar lendo “Kerouac Vs Camille”

Kerouac Vs o Paradoxo

Estava zonzo, meu corpo foi erguido e momentos depois minha cabeça. Quando consegui me apoiar na posição que nos distingue dos demais, ereto, minha mente parecia badalar dentro de meu crânio,  uma dor impressionante e que me ameaçava os movimentos. Era um passo embaixo e uma fisgada em cima. Aihhh, gritei. Claro, a dor aumentou! Concentrei meu pensamento no vazio, convenci-me que não havia o que vomitar e esperei paciente o incômodo da carne deixar meu espírito. Finalmente, consegui me arrastar ao banheiro e lavei meu rosto e mijei meio torto sobre a privada semi descoberta. Olhei meu reflexo no espelho e não parecia me lembrar daquela cara… ha ha ha. Pelo contrário, era a cara que eu encontrava no espelho em todas as manhãs dos últimos tempos. Continuar lendo “Kerouac Vs o Paradoxo”

Kerouac Vs Nietzsche

Quando aprendi a andar, já tinha dado alguns passos nas letras. Nasci falando e escrevendo, mesmo que grunhidos e rabiscos. Meu pai era dono de uma gráfica e por isso, sempre havia papéis em minha casa. Mas neste mês de intensa mudança e verão, não consigo organizar qualquer pensamento minimamente digno de vir à existência. Ora ligo o rádio, depois pego no jornal de ontem, depois abro um livro de literatura, fico culpado e folheio quase com interesse os livros que tenho que ler para a faculdade. Hoje, não posso sair pelo mundo das estrelas incandescentes, tenho minha responsabilidade em casa e fora dela, não há motivos para vagar. Sinceramente, aquela paixão por encontrar a verdade lá fora, em meio a experiências, essa paixão tá calada aqui dentro, assim como minha escrita. E esse silêncio é por demais aterrorizador. Ele me dá medo do daqui para frente. Fui e dei um passo decisivo, mas meu orgulho foi sábio o suficiente para recuar, dar uma pisada atrás e recuar. Consegui sim, reaver algumas relíquias que já esvaiam do cofre de minha alma, mas ainda me sinto desconectado e fragmentado. Com tudo isso, somente queria me conectar com a unidade, com o sentido único e indelével do meu destino, mesmo não sabendo qual o caminho exatamente seguir.

Tenho certa atração por hotéis-formigueiros. Colecionava insetos pequenos e os colocava em vidros. Observava a vida em comunidade e sabia a psique de cada um que habitava as tocas e buracos. De uns tempos para cá, acabei me sentindo como o grilo marrom e velho que visitou minha cidade particular. Encontrei o pequeno ser no terreiro de casa, preso a uma roupa no varal e desconfiado de que sua vida selvagem estava chegando ao fim. Meu irmão tinha medo de encostar em insetos, eu não. Sou fascinado por eles. Suas cores variam do mais sem graça ao verde, vermelho puro, azul royal, cores que só vi em instrumentos e automóveis. Passei as duas mãos sobre a roupa pendurada à corda, cada uma vindo de uma direção e aprisionei meu futuro hóspede com certa elegância, dando espaço para que respirasse, apesar do breu. Coloquei o grilo dentro de meu aquarius insecta e me esqueci da vida vendo todas aquelas formas nem tanto hominídeas se mexendo para lá e para cá.

O lugar era tampado, mas tinha alguns furos para a troca de ar. Colocava também vegetais e larvas para que a população pudesse viver dignamente. Em uma manhã, animado com a variedade de espécies, quis encontrar no mato algum tipo de predador. Daqueles que iriam mexer completamente com o ecossistema e acabaria criando muita confusão. Shiva quando vem, traz a morte, mas traz a transformação! Primeiro pensei em uma lagartixa, depois em algo como um escorpião, por isso rumaria ao mato para encontrá-lo. Estávamos no verão e nessa época eles se aventuram mais. Antes de ir, claro, fui avisar aos cidadãos sobre o novo hóspede. Imaginei algo como se eu tivesse o papel de Deus falando a Moisés, mesmo que esse fosse um besouro de asas azuis. “Insecta maior, quero que avise aos outros que em breve sofrerão uma ameaça, um tipo de situação que nunca permiti que existisse, mas que preciso anunciar e fazer acontecer”. Senti que o pobre e precário ser não questionou minhas sentenças, mas com a compaixão católica no peito, dei a ele o direito de entender o porquê daquela transformação: “Durante muitos dias fiquei angustiado com minha criação. Sei que não fui eu exatamente que os coloquei na natureza, mas também tenho consciência de que pude facilitar as coisas para todos vocês, dando-lhes uma propriedade, uma sociedade e claro, alimentos e diversão! A liberdade não é exagerada, mas todos sabem que o perigo ronda a vida de todo inseto. A qualquer momento um predador pode interromper o sopro em seus corpos, fora a falta de comida e os riscos para consegui-la. Fiquei bastante admirado com a forma como se adaptaram às circunstâncias. Formigas e joaninhas foram os extremos. Enquanto as primeiras conseguiram se organizar, a dupla de joaninhas acabou se deprimindo ao ponto de recusar alimento. Hoje, rasteja e o resto da comunidade não espera a hora de comer o seu exoesqueleto. Imagino que algum parasita já pense em vender suas asas no mercado negro”. Os ganchos do besouro  batiam contra o vidro e pediam para continuar minha explicação. Não neguei ao iminente condenado qualquer palavra de sinceridade. “Amigo, estamos todos fadados à extinção. Essa é uma verdade incontestável. Até Deus, o criador do seu criador, foi morto no século passado. Não há escapatória, a morte é o destino da vida. Por isso, as joaninhas não se alimentam. Sabem da verdade e esperam aliviadas a hora que não tenham mais que sustentar a condição de prisioneiras. São fortes, mas não o suficiente para se verem livres dessa história. Vou colocar o predador mor em seu cativeiro por que sei que assim, todos vocês ficarão mais atentos ao sentido real da vida que possuem e daquela que eu, em minha benevolência, ofereci a todos vocês”.

Dei as costas e fui para o quintal. No caminho, quando já deixavam a garagem, onde viviam meus inquilinos condenados, percebi sobre o carro um ser pequeno, feio e saltitante. Não sei como e, claro, nem por que, o grilo conseguira escapar de nossa cidade. Tentei relembrar todos os passos de sua captura até a redoma e, pelo menos mentalmente, nada falhara. Dei dois passos para trás e com a ira de um pai traído, arranquei de meu pé esquerdo o calçado e com um golpe certeiro, mandei o insetinho para a próxima encarnação. Com todo o cuidado, retirei seus vestígios esmagados de cima do carro e uma ideia magnífica surgiu: oferecerei ao povo de minha terra o último banquete antes de seu destino. Voltei rapidamente ao aquário e com receio para que não houvesse novas e trágicas fugas, coloquei a carcaça sem vida em uma das áreas comuns do viveiro. “Vamos, meus filhos, se deliciem com a carne de um de seus membros e fartos, esperem o dia do demiurgo. Ele está próximo”. Sem qualquer tipo de sadismo, rumei novamente para minha expedição em busca de um inimigo feroz e traiçoeiro para meu mundo. Peguei uma caixa de fósforos, útil se os novos prisioneiros se rebelarem, e uma redinha que minha mãe havia cosido para mim. Não foi difícil capturar o carrasco. Sem qualquer drama ou narrativa especial, coloquei o primeiro escorpião que achei em minha rede. Pelo jeito, já estava sanguinolento o suficiente e sabia que iria aterrorizar nossa vila. Quando cheguei à cidade dos insetos condenados, não hesitei em largar o arauto da morte na parte mais propícia ao caminho de um aniquilador. Coloquei o escorpião na via principal para logo espalhar o medo pela comunidade. Enquanto matava os primeiros que aparecessem, os outros levavam a terrível notícia aos cantos do cativeiro, deixando os demais nervosos e apavorados. Entretanto, para meu espanto, o mesmo grilo que havia sido morto, pulava em um canto de minha criação. “Caralho, como isso é possível, que porra é essa!” Retirei a tampa que fazia a segurança em minha cidade e com toda a inocência de quem tem ódio no coração, arrastei minha mão pela terra em busca de eliminar novamente aquela impossibilidade. Porém, como se não tivesse lido Dostoievski o suficiente, meu mais novo hóspede, sem pestanejar, deferiu certeiro seu ferrão contra meu pulso. E com um golpe de agonia, retirei meu braço chocando-o com a lateral do aquário que, além de cortá-lo, se partiu lançando areia sobre meu corpo semi-aterrorizado, semi-ferido pelo aracnídeo. Derrotado pela esperteza, fui coberto por todos os rebelados. Alguns ainda me cortaram a pele, mas a maioria procurou o ar de sua antiga realidade. E, claro, tiveram aqueles que permaneceram em meio aos destroços. De súbito, tentei recapturá-los, mas a dor insuportável e a vergonha me impediram até de, em um desdém, matá-los a pisadas. Fiquei triste e deprimido pela minha própria inépcia em ser Deus. Ainda no banho fui obrigado a me livrar de alguns insetos que se meteram onde não deviam. Encharcado de dor, fui ver um médico que me receitou remédios e me recomendou ficar fora da vida selvagem por um tempo. Nada mais digno do que para um ser racional e cheio de dentes na boca! E no fim, o grilo feio e marrom ainda era obrigado a continuar pulando, mesmo que isso fosse contra a racionalidade de sua sociedade, mesmo que essa a todo momento, tentasse sufocá-lo e se livrar dele.

Kerouac Vs Einstein

Olho para o cinzeiro ao meu lado e fico espantado. Em pouco mais de duas horas, muito do meu pobre pulmão ali exposto cabisbaixo. Estou triste, depressivo. Não sei ao certo como escapar ao “demônio da verdade” – um sentimento louco que dá quando a gente não sabe ao certo por que é necessário continuar vivo. Senti isso várias vezes na “vida”. Em cada cilada quis que tudo se interrompesse. Mas acreditem, foi uma namorada que fez tudo isso ir para o ralo, uma poesia sem graça essa de querer morrer ainda jovem! Continuar lendo “Kerouac Vs Einstein”