Kerouac  Vs McCarth

Ok. Não gosto muito de comunistas. O que me intriga nesse tipo de pessoa é que são os mais crentes no homem, têm mais fé do que qualquer fiel e ainda assim conservam no discurso e na atuação a busca de uma salvação pelo literal, pelo o que os olhos enxergam e a mente pensa. Já perderam o sentido de comunidade que tem no nome e na herança primitiva. Repartir, compartilhar e desapego é tão complexo que fazer isso num discurso não impede do puto agir de forma contrária. Diz que não liga, mas é agarrado no dinheiro, diz que tá nem aí e tá aí pra caralho.

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Kerouac Vs O Amadurecimento

O mais interessante dessa vida é poder olhar para atrás e ver como as coisas já não são mais as mesmas. Não é aquela balela simples de falar sobre como que a vida muda, como as pessoas se transformam ou como as coisas eram diferentes quando você tinha vinte e poucos anos. Falo mesmo é de como o meu arranjamento para a própria existência deixou de seguir um ideal que em outro tempo parecia ser a única estrada a perseguir. Não nego esses sentimentos que habitavam em meu espírito no passado – a sensação quente de poder querer compartilhar a vida com qualquer coisa, lugar ou pessoa e dali tirar um proveito momentâneo ou duradouro. Só que no agora, essa operação já não tem mais que ser resolvida. Não cheguei a uma conclusão sobre aquele período, mas acho que, na verdade, o resultado não importa ou pelo menos, nunca se revelará como se espera. Continuar lendo “Kerouac Vs O Amadurecimento”

Kerouac Vs Mr. President

Acho muito estranho quando a gente passa do limite de solitário vagabundo para alvo de um brilho frouxo para os jornais e a TV e, necessariamente, para aqueles que seguem cegamente esses tipos de gurus. Sinto-me sendo sugado cotidianamente por câmeras e lápis e blocos rabiscados. Minha alma sai de mim e vai direto para a confusão que esses caras fazem a respeito do que escrevi ou falei. É difícil ter em uma resposta, ainda mais uma que seja exatamente como aquela que se encaixa naquilo que esses ursos que controlam tipos e botões querem que você diga. Porra, se já têm resposta, por que tantas perguntas tolas? Continuar lendo “Kerouac Vs Mr. President”

Kerouac Vs U.S. ARMY

Mais uma vez me encontro inerte. Queria muito poder trazer das vísceras uma história, visão ou qualquer coisa que pudesse cuspir meu espírito. Ando muito atento, produzindo pensamentos e falando muito. Porém, o grande Babuíno não me visita a não ser que seja em metalinguagem, somente nesta hora, quando estou, justamente, reclamando a mim mesmo a falta de inspiração para juntar letras e depois, espalhar palavras. Continuar lendo “Kerouac Vs U.S. ARMY”

Kerouac Vs Espinoza

Na mais louca de todas as cidades, encontrei meu esplendor. Minha inquietude se inicia quando me pedem para escrever seu nome em um papel. Digo a eles que a grande cidade são todas, são todas as coordenadas que meus pés e meu espírito habitam no aqui-agora. Lowell, Frisco, NY, LA, Mex. City e centenas de milhas de asfalto e poeira compõem a imensa e inigualável vila que percorro abundantemente há anos. Continuar lendo “Kerouac Vs Espinoza”

Kerouac Vs o Existencialismo

Ver a vida passar diante do nariz. É isso que a maioria das pessoas costumam fazer em seus cotidianos lentos e melancólicos. No inverno, os rostos e as felicidades são diminuídas pelas necessidade de se ver constantemente e além disso, sempre abrigados em algum lugar que não seja lá fora. Meu Deus!!! A cada segundo eu me imagino terrivelmente longe de qualquer pessoa e no momento seguinte, uma dor silenciosa e cheia de vazios me faz temer a solidão. Olho para o caminho e não vejo absolutamente nada. Há uma luminosidade opaca que impede qualquer coerência em termos de forma ou expressão. Sinto-me obrigado a dar passos a diante, como se estivesse impelido por uma força que vai além da minha própria vontade. É uma espécie de caos que me abraça e roça a noite fria em minhas orelhas. Porém meu pé soluça pela estrada sem muito vigor ou coragem para reagir aos obstáculos. Continuar lendo “Kerouac Vs o Existencialismo”

Kerouac Vs Thoreau

O texto que segue é uma ferrovia. Tentei não subestimar Saturno, mas uni ao menos cinco temporadas da minha vida, mas não de forma CRONOlógica. Comecei o redemoinho caótico quando lia “Walden” e frequentava o colegial em Lowell . Eu e meu saudoso Sampas discutíamos Thoreau no caminho de volta para casa. Por vezes, próximo ao lixão, criávamos pensamento de futuro inspirados no coração forjado de auto-suficiência e sabedoria. Já em Columbia, pensamentos soltos e uma noite inspirada me garantiram 15 anos sem tocar no assunto. Dez anos mais tarde de novo e, agora, em meio a toda essa revolução da “liberdade”, escrevo aqui. Porém, ao invés de um texto subjetivo e cheio de conceitos filosóficos, preferi sustentar minha tese de que a sociedade e o homem não são compatíveis (até esse momento), criando um personagem que sou eu e é vários. A liberdade é criativa e reativa! Continuar lendo “Kerouac Vs Thoreau”

Kerouac Vs o Ocidente

Cada vez mais fico impressionado com a vida rídicula que tentam forjar para nós. Depois que a televisão invadiu a vidraça de nosso país, ninguém mais quer se encontrar nas ruas, ninguém mais quer pensar por si. Minha mãe chega em casa exausta da maldita fábrica de sapatos e gasta sua vida em mais algumas horas de TV. Eu sempre falo pra ela “Mamãe, o lixo que isso produz na nossa cabeça não compensa esse prazer barato. Eles só querem saber de controlar sua vida!”. Que nada Jean, diz repetidamente, que mal pode fazer um romance, um jogo de adivinhação ou mesmo, as notícias? Afff… ela nunca vai entender. Continuar lendo “Kerouac Vs o Ocidente”

Kerouac Vs King Jr.

Eis que um negro forte vem andando em minha direção e parece furioso. Suas passadas são largas, ele está a mais de cem metros da mesa que eu ocupo. Vem concentrado, cabeça baixa e o tempo toda sendo jogada para um lado e para outro, grandes passadas, pisadas fortes. E vem dizendo consigo mesmo algumas palavras, frases, salmos em voz baixa e focada. Eu estou bêbado e solitário em um canto do Brooklin, um buraco freqüentado por negros e latinos, o lugar ideal para quem ainda curte a parada de verdade. A vida por aqui não é mais beatífica como antes, precisamos ficar descobrindo momentos como esse, lugares como o Moe´s ou pardieiros ainda mais obscuros, onde a luz não penetra confortavelmente – eis a busca beat, flor de lótus no lamaçal. Continuar lendo “Kerouac Vs King Jr.”

Kerouac Vs América

Noites insólitas, noites corrosivas, noites e mais noites de perdição. Meu mau hábito de amar a madrugada levou metade da minha vida à ruína. A outra, quem pegou foi o diabo. A queda não é tão dolorosa quando a gente consegue cair de pé. O mal nem sempre pisa sobre nossa cabeça, mas nos serve um banquete antes do fim. Estou em Frisco e é o outono de 1964.  Nosso presidente havia sido assassinado há menos de um ano e muito gente andava perdendo a cabeça por pensar diferente. Continuar lendo “Kerouac Vs América”

Kerouac Vs Watts

Estávamos de mudança. Deus havia nos permitido encontrar um novo caminho para a nossa vida. Meu pai, combalido e num estágio avançado da doença, conseguiu um empréstimo com um parente e esperávamos o caminhão Ford de Ned Sander parar na frente da nossa casa. Íamos saindo de Lowell, deixando para trás cerca de mais de duzentos anos de história. Entretanto, a pobreza corrói o espírito e transforma o corpo em um lar de desespero. O homem falido deixa os hábitos e a sujeira ocupa suas feições. A barba cresce, os olhos passam a procurar o vazio, a coluna arria. Era outubro e o outono abriu meu coração, jorrando lágrimas de palavras sobre a tábua da vida. Continuar lendo “Kerouac Vs Watts”

Kerouac Vs Simone

Já estava de saco cheio daquilo tudo – família reunida, todo mundo fingindo ser feliz, parentes que não se cumprimentam, agora se olham como se nada tivesse ocorrido (na verdade, são tios que olham as pernas das sobrinhas e primos que combinam sacanagens com seus sorrisos), uma verdadeira depressão de natal. Na minha casa sempre foi diferente, somos católicos onde a maioria sempre foi protestante ou judeu. Para nós, o natal simbolizava a desgraça que nossa sociedade havia feito consigo mesma ao matar o Escolhido. Ficávamos ouvindo o Papa rezar do Vaticano e torcendo logo pela volta do Cordeiro, não aguentávamos mais esse mundo de perversões e maldades. Continuar lendo “Kerouac Vs Simone”

Kerouac Vs Hemingway

Sou o filho maldito de uma geração perdida, cheia de riquezas plásticas e efêmeras. Enquanto todos se importavam, ela não estava nem aí. Enquanto todos queriam a paz, os fodidos sonhavam com a desordem e a guerra. Mas não sou eu o anticristo, aquele que irá devastar, destruir, ruir, dissolver. Não faria esse tipo de benfeitoria. Quero que todos sofram pela própria fé. Eu também. O sofrimento são nossas escolhas, o pavor e o descontrole que nos sufocam nossas escolhas. A ignorância também. É ela uma víbora pronta para ser esmagada pelo explorador. Continuar lendo “Kerouac Vs Hemingway”

Kerouac Vs Foucault

Odeio quando as coisas não saem como planejadas. Essa frase insistia em me perturbar nas últimas duas semanas. Fico com uma espécie de dor de cabeça, quanto sinto que tudo vai dar muito errado. Eu tenho planos e cada passo é um passo calculado, hehehe. Deve ter muita gente fazendo “annn,  mas você não é o cara que sai por aí, à deriva? Que pula do vagão e não sabe o que irá encontrar na próxima esquina ou garrafa?” Sim, sou eu, mas controlo quase todos os meus passos mentalmente, até o caos pode ser mapeado. É só QUERER não ter um destino certo. É pensar racionalmente e esperar a aleatoriedade da vida bater a sua porta dizendo “olá”, pronto. Continuar lendo “Kerouac Vs Foucault”

Kerouac Vs Rosa

rosa

            Bill ficou muito vidrado no que viu abaixo do Equador. Ele me mandou cartas e mais cartas da América do Sul. Umas bem sacanas, com cenas que só ele poderia ter sido personagem. De certa forma, eu tenho uma consideração a fazer a essa parte do globo: algo ali me excita de verdade, é um paraíso amaldiçoado, um lugar de perdição ingênua, mas letal. Uma coisa que me fascina no sul é o sincretismo de tudo e qualquer coisa. Parece o ponto de união de todas as almas já fabricadas nesse mundo. Há também, certa devoção que também sempre tive ao Cristo – isso me conforta. Há uma tristeza no rosto da índia que imagina seu Jesus cabloco, mas de olho azul. Bill conta que nós, os norte-americanos, somos parâmetro para qualquer coisa. Nos engoliram junto com os aspectos da sociedade espanhola decadente das capitais – as rádios e os magazines misturam a aristocracia merengue e o consumo novayorquino. E uma parte deles nos adora como ídolos. Os mais abastados tentam ser como a gente – ou como imaginam o nosso modo de vida. É a finalidade de suas existências riquinhas. Nem imaginam que a sua roupa foi forjada por uma história de lutas injustas regadas a sangue nativo e muita ostentação e estupros. A maioria dos caras da alta nunca souberam o que seus tios, avós e outros ancestrais fizeram ao povo que ali florescera bem antes dos navios aportarem. Queriam sugar da terra e dela fizeram sua morada, explorando o povo original, obrigando-o a cultivar sua igreja e suas leis – geralmente desfavoráveis aos proprietários por natureza.

Todavia nem é tanto desta parte da América Latina que “algo mais” toca o meu espírito. Tenho medo, pavor, horror, pânico de pensar estar solto em meio às terras quentes do Brasil. Por sorte, houve uma alma que resolveu acalmar meus tremores. E fez mais: pensar nele me fez recordar um episódio que havia gerado pensamentos impactantes na minha vida logo após O Livro. Vi que o beat, realmente, é uma poesia da vida e que vai, devagar, mais vai fazendo metáfora na cara de muita gente que não consegue se desvencilhar de uma honradez forjada. Como dar títulos ou dizer verdades a um povo em que a unidade é como um todo e não hierarquia? A nobreza é uma falácia acreditada. O que atesta alguém rico ou alguém pobre? Capaz ou incapaz… de quê?! Há sim um mundo lá fora, desconhecido, mas de um caminho que se repete na viga estranha em que se equilibra. São nas terras e pelas veredas que se encontra o mistério, ele não se esconde, quer ser achado. Porém, o que o homem que conta a história quer é que se acredite que só ele pode ou tem autorização para dizer do livro da vida o que as pessoas devem, atentas, ouvir.

Era verão e ainda não havia se passado nem um ano desde a fatídica resenha no NYT. O mundo havia girado no fundo de várias garrafas e eu, a cada semana, me transformava cada vez mais em um traste. Acho que o erro sempre foi não ter percebido que eu já estava velho para aquilo tudo. Pois bem, eu só queria que o tempo passasse de forma suave e intensa, um paradoxo perfeito para quando a fama abocanha o seu rabo. E você sabe que o brilho que sai, cega também as pessoas. Naquelas últimas três noites eu, All e os rapazes ficamos nos dividindo entre vários pulgueiros de Nova York. Em uma das manhãs, alguém apareceu com uma Kodak e congelou na história o momento em que os beatniks foram pegos a luz do dia. Mal sabiam eles que o sol era tão artificial quanto a lua naquele momento. Exatamente naquela hora, qualquer coisa era contínua com a noite, nada além disso. A luz seria uma alegoria para a verdade obscura.

Mal sabia distinguir qual era o direito ou o esquerdo. Mesmo assim, fui amparado por anjos até o portão de casa. Deitei na mola como se entrasse num saco de feno confortável. As nuvens foram transformando o ambiente e logo ocupava a divisão onírica da vida.

Obviamente, meu estado mental ainda andava intoxicado e as cenas do sonho não foram outras quantas as que narravam o martírio do próprio Cristo. Minha culpa por deteriorar a carcaça agraciada por Deus ao meu espírito, me trouxe um resultado dos mais angustiantes dentro do sensorial mundo de Morpheus. Queria logo que a epopéia desconsertada dos meus erros marchassem pela cabeça. Porém, ao invés dos tanques do abutre, meu mundo de sofrimentos foi acossado por um moleque atirando pedras em minha vidraça. Acordei gritando “filho da puta”, mas antes de terminar minha oração, Deus puniu meu ser enviando uma dor de cabeça aguda e profunda. Fui ver o que era com o gosto do sangue na boca, queria canibalizar quem me tornara tão pesado naquela noite. “Senhor Jack, Jack…” VAI EMBORA FILHO DUMA … ai ai Aihhhh!!! “Esta acontecendo alguma coisa ai, senhor Jack”, insistia o pentelho, agora preocupado com a minha saúde. “Senhor Jack quer que eu chame uma ambulância?”. Não, não, disse. O que você quer? ”

Estou indo embora para minha casa amanhã. Sou de muito longe e li o seu livro nestas férias. Não poderia voltar para São Paulo sem ver a sua cara”. Então, controlei a respiração e disse: você bateu na minha janela, está gritando na porta da minha casa só para ver a porra dos meus olhos azuis. Você é uma bicha, sai do meu quintal! “Calma, pelo menos autografa o meu livro… quer dizer, o seu?” Ok, vou descer, disse já com a mão pressionando um dos lados da têmpora na tentativa inútil de diminuir a dor.

E ai acabou que ficamos conversando e ainda eram 9 da noite. Meus ânimos pareciam ter voltado e agora eu já queria levar o rapaz para uma noite especial na capital do mundo. Ele me disse que seu nome era Guilherme e havia vindo à NY visitar um parente. No dia seguinte, voltaria para o Brasil, onde cursa algo parecido com a High School. Guilherme estava bastante apreensivo, falava o tempo todo em uma partida de futebol dos ingleses. “Jack, amanhã é a final do campeonato mundial. O Brasil tem um time formado por gente de toda cor, muitos são misturadíssimos. E o pior é que as principais estrelas, as que estão despontando nos jogos são negras. E sabe aonde está sendo a Copa do Mundo, como é chamada?” Não, respondi desinteressado. “Na Suécia, Jack!” Ele tinha razão, como que pretos poderiam de novo superar os branquelões. Isso já tinha sido motivo para uma guerra!!!! Hitler não agüentou quando o negro fudido Jesse Owens venceu com folga os alvos da raça perfeita ariana e o Führer descontou a humilhação em Berlim, balançando seu pintinho para outros países.

Guilherme me convidou para ouvir a partida pelo rádio em uma estação da colônia italiana em Newark. Partimos para a cidade perdida e chegamos a uma espécie de rádio-pizzaria. Já eram 11 da manhã quando a bola rolou em Estocolmo. A narração era em um inglês britânico dos mais afrescurados, mas que incrivelmente dava muita emoção quando entendíamos que algo estava acontecendo. O estádio parecia vir a baixo e o locutor elevava o tom. No final das contas, Guilherme e os italianos comemoraram mais vezes do que xingaram o aparelho. O Brasil dos pretos ganhou o campeonato mundial e vi pessoas de outras partes do mundo deitarem lágrimas sobre o solo da América.

Depois daquele momento isolado, entendi que o beat da África havia sido explorado pela ignorância do homem. Entretanto, algo de mágico existe não só nesse povo, mas em suas relações com os novos mundos em que são enviados, buscados. Os Estados Unidos e o Brasil representam no macro a possibilidade da união em torno da alma, do beat. Há aqui e lá uma força que poetiza a existência. Não há cores nem hierarquias, somos um conjunto de almas e livres para a criatividade estimulante. Um cobiça e aprende com o outro e deste, surge mais vários em uma corrente infinita de mescla e divisão.  Por causa desta experiência, dois anos mais tarde, não fiquei assustado quando o senhor de óculos me perguntou se eu conhecia alguma coisa de “soccer”, como os americanos chamavam o esporte. Apesar de não ter ligado o nome ao esporte, pelo sotaque carregado, logo vi de que esporte se tratava. Falei em francês (acho que aceitaria mais a minha fala assim): Como não, até ouvi o título mundial do Brasil em 58.

Caí nas graças do sujeito. Alguém muito importante e interessante, diga-se de passagem. Tinha sido diplomata e agora, como eu, jazia na anti-sala de um programa de TV francês. Nos apresentamos, ele me reconheceu, me parabenizando por Vagabundos e disse gostar bastante do ritmo de minha escrita. Fiquei curioso para saber como era a sua misteriosa e cativante terra, o Brasil – país que tinha certo receio, sem saber ao certo porquê. Explicou-me que poucos recursos chegam ao país e que por isso, como o povo era bastante criativo, algumas alternativas foram sendo construídas. Por exemplo, algumas cidades são em torno de florestas e por isso, um meio de transporte usual é o cipó. Dizia ele: “o pessoal sai do morro e vai para o centro descendo por cipós firmes, recolocados pela prefeitura em caso de qualquer defeito”. Contou que por lá, existia uma bebida mágica que transformava gente em um felino selvagem chamado “Onça”.

É interessante como os nossos caminhos se cruzaram. O meu, a longa estrada empoeirada em sua margem; ele, um poeta, um embaixador de um cultura desconhecida e aberta, profeta reconhecido pela diplomacia e proposições completamente caóticas e Zen. O tal senhor Rosa escreveu sobre uma terceira margem, um terceiro lugar na travessia do rio. Na hora vi o velho jangadeiro de Sidarta, o fluxo em trânsito pelo meio, sem apoio nas margens, mas consistente em sua paciência e leveza sobre o rio. Um delírio sobre a própria angústia de viver a deriva entre os macacos falantes.

Cada um entrou no estúdio a sua hora. O momento de Rosa foi após o meu, mas como fui interpelado por algumas leitoras histéricas e beats da França, pudemos nos encontrar novamente no saguão da emissora. Ele me desejou o melhor possível em minha jornada literária e me convidou para passar alguns dias em sua aldeia. “Tem uma linda praia”, disse apaixonado, sem antes diminuir a voz e falar das sereias que chegam à margem dos riachos e fazem o melhor oral da selva. OK, disse entusiasmado, irei quando as coisas se estabilizarem, quem sabe quando eu mudar de vida e não precisar mais do mar alucinante da América, eu topo passar por lá. “Hmm, América? Você, meu jovem, ainda não conheceu o que é a América, ela não se limita a essa sociedade que te criou mimado e crente de ser o portador da verdade”. Nos despedimos, concordei com seu raciocínio, todavia refleti como seria  me transformar num gato selvagem, num tigre americano.