Kerouac Vs O Jazz

Tu-de-dum-pak-tu-de-dum-pam- tum-tum-pra-ca-tum – as noites começam de dia. Há todo um ar que envolve o espírito compulsivo a já acordar sabendo como irá deitar. Mesmo que não tivesse lido em um jornal ou passado em frente ao Village, sabia bem o que iria encontrar aos sábados naquele pequeno pedaço do paraíso financiado pelo demônio. A calma do ambiente em uma frase de sax traz uma impressão cinematográfica do que poderá acontecer: sonhos lúcidos, mulheres incríveis e seus corpos da perfeição, uma conversa beatífica com um negro do subúrbio mais sábio do que qualquer um de vocês. Alguma coisa acontece com meu centro gravitacional e os membros do meu corpo que quando escuto os acordes eles ao mesmo tempo comandam partes oblíquas do boneco que me leva, bem como sobem e descem uma sensação infantil de que a vida se resume ao ritmo, ao som e ao que o olho pode ver, mesmo que permaneça a maior parte do tempo fechado.

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Kerouac Vs Lennon

Em 62, fazia uma viagem pela Europa, mais especificamente por Hamburgo, na Alemanha Ocidental. Numa noite “daquelas”, encontrei um sujeito que iria se tornar muito famoso pouco tempo depois. Ele tinha uma dessas bandas que perverteram o bebop. Só guitarra, só guitarra. Apesar dessa tristeza, minha dor podia reconhecer que aquele mundo infeliz dos anos 60 precisava mesmo daquele tipo de imbecilidade estridente. Tomamos nossas coisas e ficamos alto. Disse a ele que todo mundo que fizesse sucesso nestes anos de transformação iria perecer, que tudo acabaria num piscar de olhos. Continuar lendo “Kerouac Vs Lennon”

Kerouac Vs Morrison

A nossa cabeça é completamente caótica, uma enorme pilha de contradições. Tem dia em que acordamos e achamos tudo bonito, sublime, qualquer aporrinhação é relevada com um sorriso, até mesmo os garotos chatos da rua são apenas meninos se divertindo com o gato. Todavia, existem aqueles dias em que parece que Deus pregou uma tacha descendo dentro da nossa cabeça. Os olhos ficam quentes e qualquer distúrbio à individualidade ou vontade é motivo para mandar todo mundo se danar. Até mesmo em ocasiões favoráveis ao sujeito, quem acorda assim acaba arrumando confusão. Continuar lendo “Kerouac Vs Morrison”

Kerouac Vs Simone

Já estava de saco cheio daquilo tudo – família reunida, todo mundo fingindo ser feliz, parentes que não se cumprimentam, agora se olham como se nada tivesse ocorrido (na verdade, são tios que olham as pernas das sobrinhas e primos que combinam sacanagens com seus sorrisos), uma verdadeira depressão de natal. Na minha casa sempre foi diferente, somos católicos onde a maioria sempre foi protestante ou judeu. Para nós, o natal simbolizava a desgraça que nossa sociedade havia feito consigo mesma ao matar o Escolhido. Ficávamos ouvindo o Papa rezar do Vaticano e torcendo logo pela volta do Cordeiro, não aguentávamos mais esse mundo de perversões e maldades. Continuar lendo “Kerouac Vs Simone”

Kerouac Vs Baker

Chet, Chet, Chet… mil vezes Chet! Nunca vi algo tão louco portar tão bem a porra de um trompete alucinado feito um deus no topo da montanha mais alta da imaginação sonora. Seu cool jazz me fazia alucinar, suas frases enlouquecidas me tiravam do cérebro. Um puta mentiroso esse maldito! Um grande beatificado esse cadavérico artista das estrelas. Sua música inundou Nova York de inveja, ninguém acreditava que um branquelo banguela poderia comandar tão bem o ofício da negaiada. Davis até tentou esconder seu espanto, mas ninguém mais do que ele mesmo foi capaz de reverenciar o diabo louro do oeste. Continuar lendo “Kerouac Vs Baker”

Kerouac Vs Coltrane

Acabo de chegar em casa e estou levemente entorpecido pelo paraíso. Nova York vive um verão intenso, tudo é suor e loucura, as mulheres, os bêbados e os poetas se confraternizam pela madrugada alucinada da grande maçã, dançando o beebop, escutando os anjos entortarem a realidade em suas harpas de sopro. Minhas mãos não compreendem adequadamente os pensamentos que emergem do vale sombrio, eles escapam e voltam e dizem ao meu ouvido como se não fossem meus e, por isso, sinto-me tímido e não me importo em desenhar suas letras mortas no papel deste diário desgastado e febril.

Mas o paraíso não é marrom, nem branco ou colorido. É abstrato, efêmero e forte. Contempla a paisagem do meu espírito como se viesse do próprio atman. Laurien dorme chapada ao meu lado e o sol insiste em querer acabar com este dia que nunca deve deixar de existir. Enquanto houver saliva em minha alma irei lembrar de quando vi as trombetas celestiais entoando cânticos em favor da humanidade, em favor dos loucos que vivem fora dos hospícios oficiais e convivem com a insanidade da sociedade perfeitamente imperfeita que pintam todos os dias na TV e nos jornais, principalmente, nos jornais. Sendo mais objetivo, antes mesmo que eu me perca em devaneios, hoje, por sorte, apertei a mão de um iluminado e minha alma se tornou completa.

Laurien andava meio encucada estes dias, imagino que esteja insegura quanto a minha proposta de firmar a vida depois do Livro ser publicado – a previsão é que no máximo no outono ele já esteja nas livrarias e agora mesmo, daqui uma semana saia o prelo. Não quero ser mais um perdido apenas, quero poder sentir cócegas nos pés e respirar um saboroso café da manhã preparado por alguém que tenha dormido ao meu lado a noite inteira. Se não me ater aos motivos deste depoimento, irei esquecê-lo por completo quando acordar e meus olhos insistem em me trair. Para poder cortejá-la de uma maneira mais nobre e poética, vesti minha melhor camisa de botões e a convidei para um jantar romântico no antro da burguesia – Coach House. Gastei várias saídas em menos de 2 horas de uma vida que, no fundo ou no raso, não penso em ter. Foi bom, mas Laurien não me disse nada. Fomos embora pela Times Square felizes e vagabundeando sobre o mundo e as coisas que poderíamos fazer quando fosse um escritor de sucesso. De repente, enquanto falávamos sobre nomes eslavos para os nossos possíveis filhos, escuto meu sobrenome ser gritado no meio do trânsito leve do início da madrugada. “Hey K, venha conosco, Monk irá começar agora o show no Five Spot”. Eram Allen, Corso e mais um sujeito que provavelmente estava se metendo com eles.

Não pensamos muito e entramos logo no Buick 49. Sempre enchia muito o saco de todos dizendo que Thelonious  é o maior, o mais sincero e sensível de toda essa geração de deuses do jazz. Todavia não esperava chegar à conclusão nesta noite de que Monk não passa de um súdito na hierarquia musico-celestial. Um negrinho de olhos esbugalhados e cheio de raça comandava a adaga divina que amordaçou por mais de duas horas o meu enfermo e carente coração indisciplinado. Coltrane, John Coltrane este é o seu nome. Sei que já havia ouvido falar dele como integrante de alguns outros projetos, porém foi difícil acreditar que a perfeição não está no centro, mas ao lado. O som que enobrece seu sax tenor é destemperado e perfeito, breca, mas ainda assim emite melodias, é o paraíso que qualquer droga não pode me dar. Imagino que ele nunca irá lembrar do branquelo que fez questão de compará-lo a um deus egípcio, que insistiu em apertar sua mão divina. Estava em êxtase o sujeito, olhava nos meus olhos, mas enxergava de fato os próprios pensamentos e sensações – uma dádiva que tento alcançar, porém os demônios do meu karma impedem que o nirvana chegue nestas bandas. Ao menos me alegro e tento me animar para o resto com esta dose de harmonia e perfeição. Não vejo a hora de procurá-lo nas lojas de vinil. Peço a Deus e a Morpheus que me embale em sonhos suaves e contínuos, em imagens alucinadas e descontínuas da perfeição.

Bom dia, paraíso!

Kerouac Vs Parker

Charlie-Parker-Indies

A primeira vez em que encontrei com Bird foi quando Ana Lee Morison estava entregue numa cama vagabunda de hospital. Quando cheguei para visitá-la, um negro em um sofá, usava chapéu e com uma expressão deprimida olhava profundamente para o corpo surrado de Ana Lee. Ele percebeu meu volume se aproximando e como se esperasse qualquer um, me disse: “rapaz, essa garota enlouqueceu a minha vida. Ela estragou mais o meu coração que qualquer droga fodida”. Olhei em seus olhos, cabisbaixos e viciados, mas não parei para respondê-los. Segui adiante. Ele parecia não se incomodar com o cheiro do lugar. Sempre me importo em classificar os bons e maus odores. Geralmente, onde há corpos doentes, há o pior cheiro possível. A doença sai de dentro igual merda, impregna tudo com sua sujeira interna.

Na época eu ainda tinha um lance bem místico, curandeiro. Passei a palma da minha mão direita sobre o corpo de Lee, enquanto a outra, pus na sua fronte. Fechei meus olhos e tentei me conectar com a divindade da saúde, queria que renovasse suas forças, que suas células fossem restabelecidas o quanto antes. Mas no momento de pensar sobre isso em termos de palavras mentais quase audíveis, um outro tipo de ideia invadiu minha mente: “porra, se lá é melhor do que aqui, por que Ele iria querer que permaneça desse jeito aqui! Quando será que se libertaria dessa maldita doença se minha reza funcionar? Se Ele estiver nos ouvino, Ele iria intervir, deixando ela sofrer mais com esse corpo moribundo”?

Desconectei meu espírito dessa verdade e insistia em concentrar energias positivas. O homem sentado, vendo meus trejeitos esparramou sobre mim algo que nunca mais saiu da cabeça. “ei cara, Ana Lee não quer mais saber desse seu Deus que faz sofrer aqui nessa terra. Ela quer ir embora, quer voltar para onde seus ancestrais nunca saíram. Deixa ela em paz, cara. Reza pra quem ficou aqui amigo. Ela já ficou numa boa”. Desconcertado, me afastei da cama. Já o reconhecendo, disse ao sujeito,”Ei Charlie, já te vi tocar o suficiente para saber o quão demoníaco é o seu espírito. Se bobear, você quer que ela vá para você se livrar dessa culpa!” Bird não se surpreendeu com meu texto, mas triscou sua língua nos dentes. “Ei moço, eu não te conheço, mas acho que não devia falar essas coisas na frente da Lee. Ela ainda tem o direito de morrer sem que dois homens se matem na sua frente”.

Alguém já havia me contado uma lenda do submundo em que vários caras se esfaquearam pelo amor de Ana Lee Morison e que muitas vinganças tinha sido realizadas e que muito sangue havia corrido em seu nome. Ana Lee Morison foi embora para algum lugar no dia seguinte à nossa visita. Depois disso, ainda encontraria com Bird algumas vezes e em todas ele passou a me olhar como se fossemos velhos confidentes.