Kerouac vs Madalena

Não havia mais muitos motivos para permanecer. Pelo menos naquele momento. Embriagava-me de forma dolorosa com a dura rotina da vida urbana. Pensava em corpos sem qualquer sinal de alma pirando pelas ruas em suas guias de sistema. Sempre haveria uma esquina e nela, sempre haveria alguém indeciso entre atravessar, ir para a esquerda, ir para a direita ou simplesmente dar meia-volta e retornar para seu caminho inicial. Continuar lendo “Kerouac vs Madalena”

Kerouac Vs Linda

Que porra é “hoje”?! Sei que habito um lugar gravado com a inscrição exata de um tempo, mas tão pouco sei onde me encontro nesse exato momento. Decidi pelas estradas porque percebi que a vida parada, onde (não) me encontrava, come minhas entranhas com vigor e sem perdão. Hoje, não desejo mais “isso”, porém quero aquilo que hoje, não será possível. Essa é minha luta, esse é meu desafio: entender que no hoje, qualquer palavra é vã, qualquer argumento não se coloca simplesmente porque passa e passa mesmo, passa diante dos meus olhos e dos olhos dos outros e tudo se torna poeira. As estradas estão cheias e eu estou vazio. Continuar lendo “Kerouac Vs Linda”

Kerouac vs a Honra

Seus olhos nunca são os mesmos. A cada dia, a cada despertar, um novo mundo se projeta biologicamente dentro de você e aquilo que enxerga, por mais que seu cérebro de TV, viciado, ache que é o mesmo, que o sorriso e a decepção têm os mesmos tons, não têm. Há uma história de que a angústia viaja amarrada nas costas do viajante. Não adianta sair de um lugar se o que lhe ferra tá dentro e te acompanha até a porta do inferno. Ou seja, por um lado temos um despertar completamente novo todos os dias e, por outro, temos as coisas dentro de nós permanecendo, independente da coordenada em que seu corpo estiver habitando. Assim, somos novos corpos em almas velhas, vagabundas, repetitivas, geralmente, estagnadas. Continuar lendo “Kerouac vs a Honra”

Kerouac Vs o Casamento

Quando tudo deu errado e era fato que viraria comida de minhoca debaixo da terra, uma luz bem lá no finalzinho do túnel resolveu aparecer pra mim. Antes de morrer jovem e senil, entregue a uma cela úmida e tifo, preferiria entrever-me com um outro alguém, mesmo que isso levasse em conta a obrigação e o acúmulo de carma. Por um tempo, justamente por estar necessitado de um manche na vida, pensei que a liberdade era o casamento. Amar e ser amado, não se preocupar muito com o que acontece lá fora e ter um cobertor de orelha todas as noites frias do inverno. Continuar lendo “Kerouac Vs o Casamento”

Kerouac Vs Camille

Uma imensa dor corrói o meu espírito há cinco longos dias. Ela simplesmente deixou a casa e partiu. Não disse nada, nem antes nem depois. Bateu a porta forte o suficiente para que entendesse que não devia gritar por ela na janela. Torci meu estômago e meu coração alcançou a goela. O ar me escapa aos poucos e fere o pulmão. A mente não consegue se desviar senão pelo seu corpo imaginário e seu sorriso ébrio. Pensei em me enforcar, achei exagerado. Pensei em auto-flagelação, logo logo me arrependeria, nenhuma das duas dores passaria na velocidade de um avião. Estou entregue ao mundo, meus olhos caíram, minha boca murchou, meu pau é uma meia velha, vazia e abandonada. Continuar lendo “Kerouac Vs Camille”

Kerouac Vs Monroe

Durante a guerra, muitas esposas ficaram expostas aos garanhões alheios. Na Califórnia, centenas de comunidades tinham na força feminina a principal potência de trabalho. Neal não tinha muito critério para escolher suas vítimas, era um verdadeiro safado que adorava se lambuzar com louras, pretas, branquelas e tudo mais que aparecesse na frente do seu tesão. Todavia a maior de todas, ou melhor, a mais deslunbrante e encantadora de todas esfacelou o coraçãozinho do rapaz e ainda veio correndo para o meu lado. Continuar lendo “Kerouac Vs Monroe”

Kerouac Vs Afrodite

E tudo acontecia ao mesmo tempo. Eu do meu lado sendo entorpecido pela vontade de liberdade e todas as outras pessoas pensando em como esquecer o momento seguinte. Entrei no quarto e um casal de Denver se entretinha debaixo do lençol. Procurava uma ferramenta necessária para o ritual de “sacrifício” – iríamos oferecer boas vibrações à Mãe Terra. A Deusa mereceria uma boa devoção com suas donzelas sendo desvirginadas pela décima vez. Tentei falar as palavras mágicas que afastam meus olhos do pecado. Elas são ditas em meu espírito, não em minha boca. O pensamento diz da mesma forma, pois só pensa em gozar em outras cenas desveladas. Ele quer que o tesão continue, mesmo sendo fora das leis. Continuar lendo “Kerouac Vs Afrodite”

Kerouac Vs Dionísio

Sempre achei engraçado que alguns homens se considerassem Deus. Naquela maldita noite eu tinha uma garrafa de vinho barato na minha mão esquerda e os peitos deliciosos de uma negra na direita. Sentia que em minhas veias pulsava o espírito de Dionísio, o deus duplamente fecundado: uma parte no ventre de sua mãe humana, Semele e outra, nas coxas de seu pai, Zeus. – o deus do céu e da terra Continuar lendo “Kerouac Vs Dionísio”

Kerouac Vs Simone

Já estava de saco cheio daquilo tudo – família reunida, todo mundo fingindo ser feliz, parentes que não se cumprimentam, agora se olham como se nada tivesse ocorrido (na verdade, são tios que olham as pernas das sobrinhas e primos que combinam sacanagens com seus sorrisos), uma verdadeira depressão de natal. Na minha casa sempre foi diferente, somos católicos onde a maioria sempre foi protestante ou judeu. Para nós, o natal simbolizava a desgraça que nossa sociedade havia feito consigo mesma ao matar o Escolhido. Ficávamos ouvindo o Papa rezar do Vaticano e torcendo logo pela volta do Cordeiro, não aguentávamos mais esse mundo de perversões e maldades. Continuar lendo “Kerouac Vs Simone”

Kerouac Vs Kahlo

Fui visitar Old Bull mais uma vez. Ele ainda morava nos arredores de México D.F. Na verdade, vivia em uma cidadezinha colada à capital chamada Coyoacán – um pouco menos urbana que o restante do distrito federal mexicano. Quando cheguei à rua do velho safado, percebi um clima bastante fúnebre. Algo havia acontecido que deixara uma angústia visível nas pessoas. O rosto de cada um que cruzava o meu caminho me deixava ainda mais curioso para saber o que tinha acabado com a alegria daquela gente. Nunca presenciara a vizinhança de Old Bull tão silenciosa. Continuar lendo “Kerouac Vs Kahlo”

Kerouac Vs o Feminino

Existe um tipo de sol que cega. Ele é perfeito, flamejante e intenso, claro, muito claro, um luar ensolarado, com seu foco disposto a iludir imagens. As emoções neste tipo de verão tropical estão de garras expostas e laceram qualquer tipo de moral. Minha vida nas últimas três semanas se tornou um verdadeiro barril de pensamentos, atos, sentimentos intensos e vociferados, tímidos e temerosos, um caldeirão profano e cristão, alquimia de paradoxos. Continuar lendo “Kerouac Vs o Feminino”

Kerouac Vs Parker

Charlie-Parker-Indies

A primeira vez em que encontrei com Bird foi quando Ana Lee Morison estava entregue numa cama vagabunda de hospital. Quando cheguei para visitá-la, um negro em um sofá, usava chapéu e com uma expressão deprimida olhava profundamente para o corpo surrado de Ana Lee. Ele percebeu meu volume se aproximando e como se esperasse qualquer um, me disse: “rapaz, essa garota enlouqueceu a minha vida. Ela estragou mais o meu coração que qualquer droga fodida”. Olhei em seus olhos, cabisbaixos e viciados, mas não parei para respondê-los. Segui adiante. Ele parecia não se incomodar com o cheiro do lugar. Sempre me importo em classificar os bons e maus odores. Geralmente, onde há corpos doentes, há o pior cheiro possível. A doença sai de dentro igual merda, impregna tudo com sua sujeira interna.

Na época eu ainda tinha um lance bem místico, curandeiro. Passei a palma da minha mão direita sobre o corpo de Lee, enquanto a outra, pus na sua fronte. Fechei meus olhos e tentei me conectar com a divindade da saúde, queria que renovasse suas forças, que suas células fossem restabelecidas o quanto antes. Mas no momento de pensar sobre isso em termos de palavras mentais quase audíveis, um outro tipo de ideia invadiu minha mente: “porra, se lá é melhor do que aqui, por que Ele iria querer que permaneça desse jeito aqui! Quando será que se libertaria dessa maldita doença se minha reza funcionar? Se Ele estiver nos ouvino, Ele iria intervir, deixando ela sofrer mais com esse corpo moribundo”?

Desconectei meu espírito dessa verdade e insistia em concentrar energias positivas. O homem sentado, vendo meus trejeitos esparramou sobre mim algo que nunca mais saiu da cabeça. “ei cara, Ana Lee não quer mais saber desse seu Deus que faz sofrer aqui nessa terra. Ela quer ir embora, quer voltar para onde seus ancestrais nunca saíram. Deixa ela em paz, cara. Reza pra quem ficou aqui amigo. Ela já ficou numa boa”. Desconcertado, me afastei da cama. Já o reconhecendo, disse ao sujeito,”Ei Charlie, já te vi tocar o suficiente para saber o quão demoníaco é o seu espírito. Se bobear, você quer que ela vá para você se livrar dessa culpa!” Bird não se surpreendeu com meu texto, mas triscou sua língua nos dentes. “Ei moço, eu não te conheço, mas acho que não devia falar essas coisas na frente da Lee. Ela ainda tem o direito de morrer sem que dois homens se matem na sua frente”.

Alguém já havia me contado uma lenda do submundo em que vários caras se esfaquearam pelo amor de Ana Lee Morison e que muitas vinganças tinha sido realizadas e que muito sangue havia corrido em seu nome. Ana Lee Morison foi embora para algum lugar no dia seguinte à nossa visita. Depois disso, ainda encontraria com Bird algumas vezes e em todas ele passou a me olhar como se fossemos velhos confidentes.