Kerouac vs o Fim

Daqui sete dias chego ao ponto em que já me sinto honrado de ter alcançado nesta vida. Não preciso mais do que 33 anos. Sei que deixo obra ainda fragmentada, incipiente e que valeu muito mais de aprendizado para mim mesmo do que para os outros. Ao meu ver, uma falha do bodhisattva. Espero que aqueles que correram comigo possam dizer aos que ficam e para aqueles que a memória não consegue recordar, que meu sopro para essa morada foi uma ideia de como as coisas poderiam ser pensadas. Não acredito na miséria humana nem que somos marujos de primeira viagem. Essa vida é quase uma piada. Levá-la como sempre se levou, é uma forma de ruína.

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Kerouac Vs a Criança

O homem pode esconder do mundo qualquer coisa que se vista – palavras, roupas, discursos, medalhas… mas há nele algo que não tem como fantasiar, mesmo que as memórias lhe sejam favoráveis ou senão falsas, fabricadas dentro de uma lógica. A própria consciência é inegável. Sim, e isso é claro, por mais tenebroso que possa parecer aos olhos dos outros. Hoje, tenho 45 anos e sou um homem triste, solitário e muito amargo. Esse foi o meu caminho e sei que quando estou aqui, diante do papel e da estrada, nada me faltou, nem mesmo minha consciência, minha culpa e minha dor. Só agora percebo que sim, o fundamental ficou abaixo do que pude enxergar.

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Kerouac Vs o Seu Cadáver

Existem dias que são quentes. O ânimo parece maior e mesmo que haja frio lá fora, seu espírito está disposto a enfrentar qualquer situação escrota que impeça o menos bravo de se divertir. Entretanto, há dias que são mais gelados e mesmo ao sol, nada consegue fazer com que a alma se levante e adore a vida. Há décadas – sim, possuo décadas de pensamento sobre meus próprios pensamentos, anos em que cotidianamente e enfadonhamente, analiso minhas ações, sentimentos e construções mentais. Desde cedo essa máquina começou a operar em mim e nunca consegui fugir muito de sua perseguição. Sei que isso também sempre esteve corrompido pelo amor cristão que desde cedo me foi fundido: “a culpa é sempre sua John. Continuar lendo “Kerouac Vs o Seu Cadáver”

Kerouac Vs Saturno

Quando comecei a ter ideias próprias, não necessariamente significou ter ideias originais nem mesmo, inovadoras. Passei por algumas fases de pensamento e postura que, mesmo que se enquadrem dentro da lógica capitalista, ocidental, branca, cristã e machista, nunca deixaram de questionar a isso mesmo. Não gosto de ser produto do meio que habito e isso me machuca cotidianamente. Assim, escolhi desde cedo remar contra a maré, mas tomando fôlego na margem do meio. Não consegui sempre, de fato. Representei o papel fenomenológico de uma homem ocidental, mas de alguma forma isso também serviu de aprendizado e não pode ser nem julgado nem condenado, ainda mais por quem possa admitir que nunca, em hipótese alguma, foi contaminado pelo contraditório. Continuar lendo “Kerouac Vs Saturno”

Kerouac vs a Loucura

Hoje, deixo o sanatório. Não aceitaram meu pedido de loucura. Hahaha! Nos últimos dois anos aconteceram tantas mini-histórias que até um velho marujo mentiroso ficaria envergonhado de contar. Tudo começou ainda em Lowell. Lá passa um rio que levou minha alma junto. Sempre pensei em sair do quintal de uma das casas beira-rio e de lá ir para o mundo. Quando era menor, fui o mentor de uma das nossas tentativas de escapar.  Já estávamos cruzando o condado quando o pai do Harry apareceu com as nossos irmãos menores e gente da cidade. Sempre soube que queria viajar pelo mundo sobre o mar. Porquê a vida é o mar! Continuar lendo “Kerouac vs a Loucura”

Kerouac Vs U.S. ARMY

Mais uma vez me encontro inerte. Queria muito poder trazer das vísceras uma história, visão ou qualquer coisa que pudesse cuspir meu espírito. Ando muito atento, produzindo pensamentos e falando muito. Porém, o grande Babuíno não me visita a não ser que seja em metalinguagem, somente nesta hora, quando estou, justamente, reclamando a mim mesmo a falta de inspiração para juntar letras e depois, espalhar palavras. Continuar lendo “Kerouac Vs U.S. ARMY”

Kerouac Vs Duluoz

Recebo um telefonema de Raphaello Scoth, meu contato no NYTimes. “J. o Gary entrou de férias, cara. Seu livro já era meu camarada. Estou envergonhado, envergonhado… Maldito Gary. Ele tinha me confirmado, na próxima sexta, na próxima sexta“! Filho da puta bastardo, penso. Diga a ele que quando eu for lido por metade da América, sua crítica já não vai adiantar nada. Desliguei o telefone bastante puto. Maria estava com o cigarro em mãos, encostada na cama e me olhando. Continuar lendo “Kerouac Vs Duluoz”

Kerouac Vs Rothko

Nos anos 50 o mundo estava mudando e nem todo mundo sabia disso. Era o jazz explodindo em novas formações, o consumo se tornando lei, a TV e tudo mais transformando a vidinha fácil do interior em uma rotina de trabalho e fumaça. Os carros ficavam cada vez mais barulhentos e as garotas cada vez mais espertas e, por isso, faziam as coisas alucinarem na frente de qualquer um. Ser reconhecido se tornou condição para se existir na América e eu queria muito ser alguém. Lutei contra as minhas angústias depressivas e passei um bom tempo batendo com a cara na parede. Continuar lendo “Kerouac Vs Rothko”

Kerouac Vs King Jr.

Eis que um negro forte vem andando em minha direção e parece furioso. Suas passadas são largas, ele está a mais de cem metros da mesa que eu ocupo. Vem concentrado, cabeça baixa e o tempo toda sendo jogada para um lado e para outro, grandes passadas, pisadas fortes. E vem dizendo consigo mesmo algumas palavras, frases, salmos em voz baixa e focada. Eu estou bêbado e solitário em um canto do Brooklin, um buraco freqüentado por negros e latinos, o lugar ideal para quem ainda curte a parada de verdade. A vida por aqui não é mais beatífica como antes, precisamos ficar descobrindo momentos como esse, lugares como o Moe´s ou pardieiros ainda mais obscuros, onde a luz não penetra confortavelmente – eis a busca beat, flor de lótus no lamaçal. Continuar lendo “Kerouac Vs King Jr.”

Kerouac Vs Hemingway

Sou o filho maldito de uma geração perdida, cheia de riquezas plásticas e efêmeras. Enquanto todos se importavam, ela não estava nem aí. Enquanto todos queriam a paz, os fodidos sonhavam com a desordem e a guerra. Mas não sou eu o anticristo, aquele que irá devastar, destruir, ruir, dissolver. Não faria esse tipo de benfeitoria. Quero que todos sofram pela própria fé. Eu também. O sofrimento são nossas escolhas, o pavor e o descontrole que nos sufocam nossas escolhas. A ignorância também. É ela uma víbora pronta para ser esmagada pelo explorador. Continuar lendo “Kerouac Vs Hemingway”

Kerouac Vs o Paradoxo

Estava zonzo, meu corpo foi erguido e momentos depois minha cabeça. Quando consegui me apoiar na posição que nos distingue dos demais, ereto, minha mente parecia badalar dentro de meu crânio,  uma dor impressionante e que me ameaçava os movimentos. Era um passo embaixo e uma fisgada em cima. Aihhh, gritei. Claro, a dor aumentou! Concentrei meu pensamento no vazio, convenci-me que não havia o que vomitar e esperei paciente o incômodo da carne deixar meu espírito. Finalmente, consegui me arrastar ao banheiro e lavei meu rosto e mijei meio torto sobre a privada semi descoberta. Olhei meu reflexo no espelho e não parecia me lembrar daquela cara… ha ha ha. Pelo contrário, era a cara que eu encontrava no espelho em todas as manhãs dos últimos tempos. Continuar lendo “Kerouac Vs o Paradoxo”

Kerouac Vs Kahlo

Fui visitar Old Bull mais uma vez. Ele ainda morava nos arredores de México D.F. Na verdade, vivia em uma cidadezinha colada à capital chamada Coyoacán – um pouco menos urbana que o restante do distrito federal mexicano. Quando cheguei à rua do velho safado, percebi um clima bastante fúnebre. Algo havia acontecido que deixara uma angústia visível nas pessoas. O rosto de cada um que cruzava o meu caminho me deixava ainda mais curioso para saber o que tinha acabado com a alegria daquela gente. Nunca presenciara a vizinhança de Old Bull tão silenciosa. Continuar lendo “Kerouac Vs Kahlo”

Kerouac Vs Camus

camus

Acordo assustado na cabine do navio. Olho pela escotilha e vejo que já estamos próximos ao porto de Tânger. Ao fundo, milhares de construções nos esperam ansiosas pelos nossos desejos do mar. Sinto meu corpo molhado de suor e abandono a imagem do porto, dos bares, das putas e todo o resto. O quarto escuro me traz de volta ao sonho do qual acabara de me acordar. Estou em Lowell, mas meus pais se mudaram para Ozone Park. De repente o telefone toca e do outro lado da linha, meu pai tem uma voz fúnebre. Não me sinto preocupado com o estado emocional de sua fala e apenas o escuto em seu lamento: “ J, sua mãe morreu. O enterro é amanhã. Se puder, venha para cá”. Respondo apenas “sim” e desligo o aparelho. Como estou com muito sono, volto para meu divã e lá adormeço. A noite passa e na manhã seguinte Lucian Carr aparece na porta da minha casa. Ele me cumprimenta com pesar, mas mesmo assim, nada abala minha vontade. Chego a esquecer do porquê daqueles gestos. “É.. ela se foi. As coisas são dessa forma nesse lugar”, digo saindo pela porta. Carr insiste e me interroga sobre o porquê de não estar triste por aquilo. Não consigo dizer, apenas sinto uma total indiferença pelo desaparecimento de “Gabrielle Kerouac”.

Agora – na cabine do navio chegando no Marrocos, ao me lembrar disso, me assustoe acordo. Já não via em meu espírito qualquer vestígio materno, mesmo estando neste momento, fora do sonho, dentro de um navio e sabendo que minha mãe está viva em algum lugar do outro lado do mundo. Todavia as lembranças oníricas prosseguem atormentando a minha vigília. Lucian, qual é mesmo o seu problema? É o puto do árabe, responde. Ele está louco atrás de mim, quer as minhas bolas de qualquer forma e não sei o que fazer. Fique tranquilo, amenizo. Amanhã resolveremos o seu problema.

O sonho prossegue em uma louca viagem na qual deixamos Lowell e rapidamente chegamos a um cemitério em algum lugar de Nova York. Lucian me aponta o sujeito, ele vem em nossa direção. Seus olhos estão marcados pelo ódio, mas parecem ao mesmo tempo, apaixonados. Eu me afasto, os dois conversam em particular. O árabe tenta enfiar a mão nas calças do meu amigo, este evita segurando seus dedis e o golpeia na fronte. Um intenso nevoeiro nos prende em uma redoma. Desespero-me em meio aquela cegueira e tateio o chão tentando encontrar algo para apoiar. Sinto uma arma, um revólver. Empunho a coisa e armo o gatilho. Nas mãos do árabe, uma faca dança no ar. O vento frio corta o meu pensamento e força meu dedo que, sem trégua, acerta o peito do homem. Ele agoniza, mas sinto-me potente o suficiente para despejar-lhe outros quatro disparos. Lucian Carr se aproxima de mim e segura meu braço. Seu toque se torna diferente, mais suave. Sinto um cheiro conhecido, parece um perfume. Olho para o lado, ao invés de Carr, quem me segura é minha mãe. Ela já não está morta, mas seu odor, antes um perfume se transforma em algo altamente podre, como que em decomposição, como se fosse o cheiro do “sim, ela está morta”! Tento me desvencilhar de sua posse, não consigo. Ela mira meus olhos com seus olhos de cadáver e diz com a voz do próprio Lucian Carr: “Sua sentença será de acordo com a indiferença pela morte de sua mãe. Você será condenado ao inferno e assim como este árabe, seguirá sua eternidade agonizando por sua inexpressiva existência”. Lembro que foi exatamente neste instante em que eu acordei completamente assustado com tudo aquilo.

Na manhã seguinte, já em terra firme, tenho um encontro marcado com um agente que pretende publicar meus textos na Europa. Seu nome é Maurice e parece um sujeito interessante que conhece gente em Paris e sabe quem se interessa por aquilo que um quase-francês canadense americano pode trazer daquele país escrotinho da América. Ainda atormentado pelo sonho, não me concentro em nossa conversa. Tenho uma louca vontade em reparar um erro. Ele me convida para uma festa em sua cobertura de frente para o mar. Recuso a oferta e perco a oportunidade de me tornar alguém conhecido no velho continente, deixo para o futuro qualquer julgamento, tanto sobre minha mãe, quanto sobre livros ou assassinatos.

Kerouac Vs Parker

Charlie-Parker-Indies

A primeira vez em que encontrei com Bird foi quando Ana Lee Morison estava entregue numa cama vagabunda de hospital. Quando cheguei para visitá-la, um negro em um sofá, usava chapéu e com uma expressão deprimida olhava profundamente para o corpo surrado de Ana Lee. Ele percebeu meu volume se aproximando e como se esperasse qualquer um, me disse: “rapaz, essa garota enlouqueceu a minha vida. Ela estragou mais o meu coração que qualquer droga fodida”. Olhei em seus olhos, cabisbaixos e viciados, mas não parei para respondê-los. Segui adiante. Ele parecia não se incomodar com o cheiro do lugar. Sempre me importo em classificar os bons e maus odores. Geralmente, onde há corpos doentes, há o pior cheiro possível. A doença sai de dentro igual merda, impregna tudo com sua sujeira interna.

Na época eu ainda tinha um lance bem místico, curandeiro. Passei a palma da minha mão direita sobre o corpo de Lee, enquanto a outra, pus na sua fronte. Fechei meus olhos e tentei me conectar com a divindade da saúde, queria que renovasse suas forças, que suas células fossem restabelecidas o quanto antes. Mas no momento de pensar sobre isso em termos de palavras mentais quase audíveis, um outro tipo de ideia invadiu minha mente: “porra, se lá é melhor do que aqui, por que Ele iria querer que permaneça desse jeito aqui! Quando será que se libertaria dessa maldita doença se minha reza funcionar? Se Ele estiver nos ouvino, Ele iria intervir, deixando ela sofrer mais com esse corpo moribundo”?

Desconectei meu espírito dessa verdade e insistia em concentrar energias positivas. O homem sentado, vendo meus trejeitos esparramou sobre mim algo que nunca mais saiu da cabeça. “ei cara, Ana Lee não quer mais saber desse seu Deus que faz sofrer aqui nessa terra. Ela quer ir embora, quer voltar para onde seus ancestrais nunca saíram. Deixa ela em paz, cara. Reza pra quem ficou aqui amigo. Ela já ficou numa boa”. Desconcertado, me afastei da cama. Já o reconhecendo, disse ao sujeito,”Ei Charlie, já te vi tocar o suficiente para saber o quão demoníaco é o seu espírito. Se bobear, você quer que ela vá para você se livrar dessa culpa!” Bird não se surpreendeu com meu texto, mas triscou sua língua nos dentes. “Ei moço, eu não te conheço, mas acho que não devia falar essas coisas na frente da Lee. Ela ainda tem o direito de morrer sem que dois homens se matem na sua frente”.

Alguém já havia me contado uma lenda do submundo em que vários caras se esfaquearam pelo amor de Ana Lee Morison e que muitas vinganças tinha sido realizadas e que muito sangue havia corrido em seu nome. Ana Lee Morison foi embora para algum lugar no dia seguinte à nossa visita. Depois disso, ainda encontraria com Bird algumas vezes e em todas ele passou a me olhar como se fossemos velhos confidentes.