Kerouac Vs Linda

Que porra é “hoje”?! Sei que habito um lugar gravado com a inscrição exata de um tempo, mas tão pouco sei onde me encontro nesse exato momento. Decidi pelas estradas porque percebi que a vida parada, onde (não) me encontrava, come minhas entranhas com vigor e sem perdão. Hoje, não desejo mais “isso”, porém quero aquilo que hoje, não será possível. Essa é minha luta, esse é meu desafio: entender que no hoje, qualquer palavra é vã, qualquer argumento não se coloca simplesmente porque passa e passa mesmo, passa diante dos meus olhos e dos olhos dos outros e tudo se torna poeira. As estradas estão cheias e eu estou vazio. Continuar lendo “Kerouac Vs Linda”

Kerouac Vs Duluoz

Recebo um telefonema de Raphaello Scoth, meu contato no NYTimes. “J. o Gary entrou de férias, cara. Seu livro já era meu camarada. Estou envergonhado, envergonhado… Maldito Gary. Ele tinha me confirmado, na próxima sexta, na próxima sexta“! Filho da puta bastardo, penso. Diga a ele que quando eu for lido por metade da América, sua crítica já não vai adiantar nada. Desliguei o telefone bastante puto. Maria estava com o cigarro em mãos, encostada na cama e me olhando. Continuar lendo “Kerouac Vs Duluoz”

Kerouac vs Moriarty

Depois de tudo o que tinha acontecido com Phillip, fiquei um pouco atordoado. Não quis nem saber de Janie ou de ninguém. Voltei para aquela maldita agência e esperei um navio que me levasse o mais longe possível. Queria sair da minha vida mais uma vez. Mas dessa vez com força e solitário. Sou um peregrino em busca de luz, persigo seu rastro cego. Entretanto, havia uma coisa que estava me incomodando muito. Continuar lendo “Kerouac vs Moriarty”

Kerouac Vs Corso

Dezembro tomava Ozone Park melancolicamente. As árvores já apresentavam a habitual solidão esbranquiçada, seca e gelada do bairro de operários. As pessoas já não se cumprimentavam, afinal o inverno estava tão rigoroso e o vento tão impertinente que era preciso vestir seis, sete peças grossas de roupa para não preferir estar morto e enterrado. No caminho de volta ao meu apartamento, passando em frente ao All´s, vi acompanhado de uma garrafa de vodka, Gregory Corso. O homem sujo dos Bálcãs tinha uma cara um pouco desgostosa e num piscar de olhos, em uma abertura dada pelo meu olhar, ele começou seu discurso infinito sobre a liberdade humana: Continuar lendo “Kerouac Vs Corso”

Kerouac Vs Bukowski

Na América, quando você acha que é o único que está percebendo alguma coisa, se sente como se fosse um rei. As mulheres deixam de ser misteriosas, as ruas são iluminadas por cada passada que damos e qualquer fodão que aparece na sua frente se transforma num verdadeiro otário. Todavia, quando você descobre que tem um monte de maluco pensando da mesma forma, de duas uma, ou você pira de vez e se entrega ao deserto, ou então se alia a eles. Continuar lendo “Kerouac Vs Bukowski”

Kerouac Vs Hemingway

Sou o filho maldito de uma geração perdida, cheia de riquezas plásticas e efêmeras. Enquanto todos se importavam, ela não estava nem aí. Enquanto todos queriam a paz, os fodidos sonhavam com a desordem e a guerra. Mas não sou eu o anticristo, aquele que irá devastar, destruir, ruir, dissolver. Não faria esse tipo de benfeitoria. Quero que todos sofram pela própria fé. Eu também. O sofrimento são nossas escolhas, o pavor e o descontrole que nos sufocam nossas escolhas. A ignorância também. É ela uma víbora pronta para ser esmagada pelo explorador. Continuar lendo “Kerouac Vs Hemingway”

Kerouac Vs Burroughs

Querido Bill,

Nos últimos tempos venho evitando qualquer contato que me remeta a você. Não estou nem um pouco possesso e ainda há amor nas minhas veias congeladas. O que me afasta é a consciência de que tudo que vem acontecendo simplesmente não tem uma resposta. Somos como arqueiros que miram o infinito da noite, mas não podem alçar voo junto com suas setas. Estamos presos Bill, estamos fincados nesse maldito planeta que insiste em ficar quente e gelado, claro e escuro, amável e odioso. Sei que sua fuga desesperada da realidade é ultramente sincera e objetiva. Continuar lendo “Kerouac Vs Burroughs”

Kerouac Vs Cody

Desconhecer as pessoas parece ser a mais importante das artes atualmente. É muito fácil aqueles banudões da música, cheio de notas sufocadas na calça, chegarem e te pedirem algo. Mas quando é você que reclama uma mão aberta, te escondem, fingem que você é ridículo, pasteurizado.  Eu fui pedir uma chance para um amigo que está passando por problemas de entendimento profissional e tudo o que ouvi foi “o problema é dele, só dele”. É difícil falar alguma coisa para alguém que se engana constantemente com o próprio desejo. A confusão do querer faz com que viva a metade das coisas e quando não é o dinheiro, é o pau a desculpa. Cody era assim. Se sua vida não estava péssima por conta da falta de grana o era pelo excesso de virilidade e barbárie em seus métodos.

Roxane Charlene foi a única mulher que vi fazer Cody cair por terra – literalmente a última. E olha que nem era das mais impuras, muito pelo contrário, o cara sabia que ela não era uma daquelas que convence o diabo de desfilar de cueca na avenida. Era simples, não queria impressionar e nem botar banca. Os dois haviam se conhecido na frente do bar em que o pai da garota trabalhava. Cody apareceu de repente. Quis pedir informação sobre onde poderia levar a banda para comer alguma coisa. Ela que estava na esquina fumando um cigarro, demorou um pouco pra responder, mas indicou com a cabeça o bar onde seu pai trabalhava. Cody ficou assustado com o olhar severo e amazônico da garota. Era como se repudiasse a presença de qualquer homem a sua frente. Sua boca se continha produzindo um biquinho ainda mais oportuno para as fantasias de Cody. “Mas me diz, você também não está com fome, quem sabe poderia escolher nosso cardápio, apresentar alguma coisa gostosa e quente para estarmos fortes para a estrada amanhã!?”

– Você é um viajante?

– Não, nós somos! Apontou para o ônibus parada a alguns metros na rua.

– Ann.. legal, mas não tenho fome, não te conheço e não tô muito a fim de viajar.

– Você vai vir comigo – Cody terminou a frase com o olhar de sempre, como se entrasse dentro da alma da pessoa e dali puxasse qualquer possibilidade de resistência a sua vontade.

– Nunca!

A banda passava por problemas e Cody aproveitou para ficar uns dias sossegado. Parte da banda seguiu para o oeste, na direção da Califórnia. Ele e mais alguns decidiram viver novamente uma experiência real em algum lugar. Sabia que a qualquer momento iriam voltar para levá-lo – ele era O motorista. Alguns canalhas já tinham marcado o Novo México para dali alguns meses e Cody iria aproveitar a chance para descer um pouco mais e chegar sim, ao verdadeiro México. Sua diversão, quando conseguia se livrar das obrigações em sua casa – na cidade vivia também sua mulher e seus três amados filhos, era poder voltar ao velhos lugares de sua juventude e ver como tudo tinha mudado e nada mais lhe interessava verdadeiramente. Nem sua mulher, nem o caminho de sempre, nem sua vida. Mas havia prometido ao seu próprio deus que honraria a família que não pôde ter. Ainda assim, não se esforçava muito para não se apaixonar – paixões lhe roubava dias. Numa noite, viu os cabelos curtos de Rox e lembrou da força de sua autonomia. Ficou vidrado e com muitas sensações de promessas e realizações. Repetiu como um mantra: “É ela”

Rox ia para o estabelecimento onde seu pai trabalhava todos os dias em que o boteco abria na semana – de 3ª a sábado o Fate´s ficava de porta aberta das 3 da tarde às 3 da manhã.  Ela se sentava no balcão enquanto o pai, o barman, servia aos fregueses. Os dois começaram a conversar todos os dias. Aos poucos, ela acabou cedendo aos gracejos do velho garanhão. Ainda assim, desconfiava de que tipo era aquele, por mais que seus pensamentos lhe tomassem de assalto a razão. Num certo dia, ela não apareceu, no outro também, no seguinte e no seguinte. O pai, Jonathan, tinha lá suas dúvidas se havia qualquer problema – devia ser uma fase, afinal sua filha sempre estava em casa dormindo quando chegava do bar. Deixou de acompanhar o pai para acompanhar Cody. A garota, apesar do ímpeto de balzaquiana, era na verdade, uma neófita, uma ninfeta à flor da pele e bastante inteligente. Passou a infância na biblioteca e nas rodas de meninos. Inverteu o papel, dominou e abandou quando quis. Nunca aceitou a posição que lhe conferiram na sociedade enquanto fêmea. Sua mãe morreu ainda cedo e seu pai passou a ser o único alicerce cabível, por isso a maturidade precoce. Seu espírito era desbravador e nobre, entretanto, a dúvida do que seria realmente o prazer e o tempo presente, a levou a algumas bifurcações na vida. Dores e sacodes que lhe conferiram reconhecer a cretinice estampada na cara dos homens.

E assim, ela pensou, repensou, sentiu e resolveu partir, desgarrar de seu velho e amoroso pai. Pegou carona no ego de meu amigo e seguiu viagem em sua companhia pela América. A banda já voltara de Los Angeles e agora, estava carregada de ácidos e todo o tipo de subjetividade. Foram no caminho para o Novo México. Cody teve seu salário reduzido a metade por levar mais um na excursão. Em sua busca por ascender, Cody acabou descuidando da própria mente da garota. Ela se sentiu seduzida pelos músicos endiabrados e safados que estavam na parte de trás. Sua vontade era de abraçar a todos como se fossem uma só coisa. O barato já estava acontecendo e a visita ao Novo México não era um sucesso. Haviam avisado que a polícia queria saber o que tinham no ônibus. A cada bandeirinha, Cody cuspia no chão. Quando percebeu que a menina estava nas mãos de boa parte do grupo, freou bruscamente o veículo e vários saíram batendo pelos bancos e instrumentos. Pegou a garota pelas mãos e saiu com ela do ônibus. Não conseguia pensar no presente, mas sim em como situar as coleções de imagens que apareciam em sua cabeça e vibravam em sua vista. Desceram e saíram no deserto. Ao lado, na esquerda, uma linha de trem e mais deserto. Ele levou a garota até o início dos trilhos. Pegou um dos dedos de Rox e passou em seus lábios. Molhou o anelar e desceu com a mão até a cintura da jovem. Ela segurou e ergueu a mão de Cody antes dele chegar lá. “Não precisa”. Não estavam em um quarto confortável nem ela sentiu necessidade dele. As ondas iam e voltavam neste tipo de insanidade sexual, motora e robótica. Rox já estava de saco cheio disso tudo.

Conseguiram se descolar do grupo e encontraram um casal de velhos amigos perto de El Paso. Eles moravam em uma instância no México. Esqueceram completamente a barbárie que poderiam ter vivido se continuassem em trânsito com os músicos e se esbaldaram no LSD e na juventude do amor. Ela tinha 19, ele 41.

“Vinte anos de vida em alta velocidade: não resta mais muito e meus filhos estão todos fodidos. Não faça o que eu fiz”, foi o Cody disse a Rox em uma das noites de brandura – de repente, Cody, o falador, calou-se e se expremeu. O homem em seu final acumula em suas decisões a persistência do silêncio. Seu corpo não reflete seu olhar que é fraco ao seu andar. Cody deixou a garota e seguiu pelos trilhos. Um ano depois, sem a menina e de volta ao México, visitou um casamento, provocou a ira do noivo e foi embora novamente pelos trilhos. Na chuva e na angústia, andou por muito tempo. No outro dia, acharam seu bagaço, estava em uma conta absurda, balbuciava – quando conseguia, o número “64.928”. Morreu no dia seguinte, faltando quatro dias para seu aniversário.

Kerouac Vs Borges

Sempre gostei muito do termo marginal. Identifico minha alma com aqueles que insistem em andar sobre o fino meio fio do estabelecido. A cada momento penso mais e mais em abandonar qualquer simpatia pela rude e opressora tradição. Já estamos em 65, porra, e até agora a guerra ainda não acabou. Os bastardos que assumiram a negociação tentam impor uma racionalidade impossível de ser exercida. Continuar lendo “Kerouac Vs Borges”

Kerouac Vs Huxley

Era um típico cair da noite em Santa Mônica. Tinha acabado de deixar Frisco e iria encontrar Allen em uma conferência sobre literatura do pós-guerra. Naquela época a costa oeste inteira queria saber se existiria ou não uma nova geração de escritores americanos que poderia substituir a altura, caras como London, Hemingway e Wolfe. Antes de ir correndo para o hotel – os Reds Sox seriam transmitidos ao vivo pela TV, passei em um supermercado para comprar uma garrafa e algumas latas de conserva. De repente olho para o lado e dou de cara com um homem de seus 60 anos observando admirado a reação de algumas pessoas. Era um pouco surreal ver aquele coroa com seus olhos de coruja mirando e anotando mentalmente suas considerações a partir das ações os que ali estavam consumindo. Ele pareceu não dar conta de que, além de observador, estava sendo observado. Achei aquilo bastante engraçado e sai pela porta rindo. Ainda tive no pensamento que aquele sujeito parecia chapado, como se tivesse tomado alguma coisa e estava se divertindo naquele zoológico. Continuar lendo “Kerouac Vs Huxley”

Kerouac Vs Camus

camus

Acordo assustado na cabine do navio. Olho pela escotilha e vejo que já estamos próximos ao porto de Tânger. Ao fundo, milhares de construções nos esperam ansiosas pelos nossos desejos do mar. Sinto meu corpo molhado de suor e abandono a imagem do porto, dos bares, das putas e todo o resto. O quarto escuro me traz de volta ao sonho do qual acabara de me acordar. Estou em Lowell, mas meus pais se mudaram para Ozone Park. De repente o telefone toca e do outro lado da linha, meu pai tem uma voz fúnebre. Não me sinto preocupado com o estado emocional de sua fala e apenas o escuto em seu lamento: “ J, sua mãe morreu. O enterro é amanhã. Se puder, venha para cá”. Respondo apenas “sim” e desligo o aparelho. Como estou com muito sono, volto para meu divã e lá adormeço. A noite passa e na manhã seguinte Lucian Carr aparece na porta da minha casa. Ele me cumprimenta com pesar, mas mesmo assim, nada abala minha vontade. Chego a esquecer do porquê daqueles gestos. “É.. ela se foi. As coisas são dessa forma nesse lugar”, digo saindo pela porta. Carr insiste e me interroga sobre o porquê de não estar triste por aquilo. Não consigo dizer, apenas sinto uma total indiferença pelo desaparecimento de “Gabrielle Kerouac”.

Agora – na cabine do navio chegando no Marrocos, ao me lembrar disso, me assustoe acordo. Já não via em meu espírito qualquer vestígio materno, mesmo estando neste momento, fora do sonho, dentro de um navio e sabendo que minha mãe está viva em algum lugar do outro lado do mundo. Todavia as lembranças oníricas prosseguem atormentando a minha vigília. Lucian, qual é mesmo o seu problema? É o puto do árabe, responde. Ele está louco atrás de mim, quer as minhas bolas de qualquer forma e não sei o que fazer. Fique tranquilo, amenizo. Amanhã resolveremos o seu problema.

O sonho prossegue em uma louca viagem na qual deixamos Lowell e rapidamente chegamos a um cemitério em algum lugar de Nova York. Lucian me aponta o sujeito, ele vem em nossa direção. Seus olhos estão marcados pelo ódio, mas parecem ao mesmo tempo, apaixonados. Eu me afasto, os dois conversam em particular. O árabe tenta enfiar a mão nas calças do meu amigo, este evita segurando seus dedis e o golpeia na fronte. Um intenso nevoeiro nos prende em uma redoma. Desespero-me em meio aquela cegueira e tateio o chão tentando encontrar algo para apoiar. Sinto uma arma, um revólver. Empunho a coisa e armo o gatilho. Nas mãos do árabe, uma faca dança no ar. O vento frio corta o meu pensamento e força meu dedo que, sem trégua, acerta o peito do homem. Ele agoniza, mas sinto-me potente o suficiente para despejar-lhe outros quatro disparos. Lucian Carr se aproxima de mim e segura meu braço. Seu toque se torna diferente, mais suave. Sinto um cheiro conhecido, parece um perfume. Olho para o lado, ao invés de Carr, quem me segura é minha mãe. Ela já não está morta, mas seu odor, antes um perfume se transforma em algo altamente podre, como que em decomposição, como se fosse o cheiro do “sim, ela está morta”! Tento me desvencilhar de sua posse, não consigo. Ela mira meus olhos com seus olhos de cadáver e diz com a voz do próprio Lucian Carr: “Sua sentença será de acordo com a indiferença pela morte de sua mãe. Você será condenado ao inferno e assim como este árabe, seguirá sua eternidade agonizando por sua inexpressiva existência”. Lembro que foi exatamente neste instante em que eu acordei completamente assustado com tudo aquilo.

Na manhã seguinte, já em terra firme, tenho um encontro marcado com um agente que pretende publicar meus textos na Europa. Seu nome é Maurice e parece um sujeito interessante que conhece gente em Paris e sabe quem se interessa por aquilo que um quase-francês canadense americano pode trazer daquele país escrotinho da América. Ainda atormentado pelo sonho, não me concentro em nossa conversa. Tenho uma louca vontade em reparar um erro. Ele me convida para uma festa em sua cobertura de frente para o mar. Recuso a oferta e perco a oportunidade de me tornar alguém conhecido no velho continente, deixo para o futuro qualquer julgamento, tanto sobre minha mãe, quanto sobre livros ou assassinatos.

Kerouac Vs Rosa

rosa

            Bill ficou muito vidrado no que viu abaixo do Equador. Ele me mandou cartas e mais cartas da América do Sul. Umas bem sacanas, com cenas que só ele poderia ter sido personagem. De certa forma, eu tenho uma consideração a fazer a essa parte do globo: algo ali me excita de verdade, é um paraíso amaldiçoado, um lugar de perdição ingênua, mas letal. Uma coisa que me fascina no sul é o sincretismo de tudo e qualquer coisa. Parece o ponto de união de todas as almas já fabricadas nesse mundo. Há também, certa devoção que também sempre tive ao Cristo – isso me conforta. Há uma tristeza no rosto da índia que imagina seu Jesus cabloco, mas de olho azul. Bill conta que nós, os norte-americanos, somos parâmetro para qualquer coisa. Nos engoliram junto com os aspectos da sociedade espanhola decadente das capitais – as rádios e os magazines misturam a aristocracia merengue e o consumo novayorquino. E uma parte deles nos adora como ídolos. Os mais abastados tentam ser como a gente – ou como imaginam o nosso modo de vida. É a finalidade de suas existências riquinhas. Nem imaginam que a sua roupa foi forjada por uma história de lutas injustas regadas a sangue nativo e muita ostentação e estupros. A maioria dos caras da alta nunca souberam o que seus tios, avós e outros ancestrais fizeram ao povo que ali florescera bem antes dos navios aportarem. Queriam sugar da terra e dela fizeram sua morada, explorando o povo original, obrigando-o a cultivar sua igreja e suas leis – geralmente desfavoráveis aos proprietários por natureza.

Todavia nem é tanto desta parte da América Latina que “algo mais” toca o meu espírito. Tenho medo, pavor, horror, pânico de pensar estar solto em meio às terras quentes do Brasil. Por sorte, houve uma alma que resolveu acalmar meus tremores. E fez mais: pensar nele me fez recordar um episódio que havia gerado pensamentos impactantes na minha vida logo após O Livro. Vi que o beat, realmente, é uma poesia da vida e que vai, devagar, mais vai fazendo metáfora na cara de muita gente que não consegue se desvencilhar de uma honradez forjada. Como dar títulos ou dizer verdades a um povo em que a unidade é como um todo e não hierarquia? A nobreza é uma falácia acreditada. O que atesta alguém rico ou alguém pobre? Capaz ou incapaz… de quê?! Há sim um mundo lá fora, desconhecido, mas de um caminho que se repete na viga estranha em que se equilibra. São nas terras e pelas veredas que se encontra o mistério, ele não se esconde, quer ser achado. Porém, o que o homem que conta a história quer é que se acredite que só ele pode ou tem autorização para dizer do livro da vida o que as pessoas devem, atentas, ouvir.

Era verão e ainda não havia se passado nem um ano desde a fatídica resenha no NYT. O mundo havia girado no fundo de várias garrafas e eu, a cada semana, me transformava cada vez mais em um traste. Acho que o erro sempre foi não ter percebido que eu já estava velho para aquilo tudo. Pois bem, eu só queria que o tempo passasse de forma suave e intensa, um paradoxo perfeito para quando a fama abocanha o seu rabo. E você sabe que o brilho que sai, cega também as pessoas. Naquelas últimas três noites eu, All e os rapazes ficamos nos dividindo entre vários pulgueiros de Nova York. Em uma das manhãs, alguém apareceu com uma Kodak e congelou na história o momento em que os beatniks foram pegos a luz do dia. Mal sabiam eles que o sol era tão artificial quanto a lua naquele momento. Exatamente naquela hora, qualquer coisa era contínua com a noite, nada além disso. A luz seria uma alegoria para a verdade obscura.

Mal sabia distinguir qual era o direito ou o esquerdo. Mesmo assim, fui amparado por anjos até o portão de casa. Deitei na mola como se entrasse num saco de feno confortável. As nuvens foram transformando o ambiente e logo ocupava a divisão onírica da vida.

Obviamente, meu estado mental ainda andava intoxicado e as cenas do sonho não foram outras quantas as que narravam o martírio do próprio Cristo. Minha culpa por deteriorar a carcaça agraciada por Deus ao meu espírito, me trouxe um resultado dos mais angustiantes dentro do sensorial mundo de Morpheus. Queria logo que a epopéia desconsertada dos meus erros marchassem pela cabeça. Porém, ao invés dos tanques do abutre, meu mundo de sofrimentos foi acossado por um moleque atirando pedras em minha vidraça. Acordei gritando “filho da puta”, mas antes de terminar minha oração, Deus puniu meu ser enviando uma dor de cabeça aguda e profunda. Fui ver o que era com o gosto do sangue na boca, queria canibalizar quem me tornara tão pesado naquela noite. “Senhor Jack, Jack…” VAI EMBORA FILHO DUMA … ai ai Aihhhh!!! “Esta acontecendo alguma coisa ai, senhor Jack”, insistia o pentelho, agora preocupado com a minha saúde. “Senhor Jack quer que eu chame uma ambulância?”. Não, não, disse. O que você quer? ”

Estou indo embora para minha casa amanhã. Sou de muito longe e li o seu livro nestas férias. Não poderia voltar para São Paulo sem ver a sua cara”. Então, controlei a respiração e disse: você bateu na minha janela, está gritando na porta da minha casa só para ver a porra dos meus olhos azuis. Você é uma bicha, sai do meu quintal! “Calma, pelo menos autografa o meu livro… quer dizer, o seu?” Ok, vou descer, disse já com a mão pressionando um dos lados da têmpora na tentativa inútil de diminuir a dor.

E ai acabou que ficamos conversando e ainda eram 9 da noite. Meus ânimos pareciam ter voltado e agora eu já queria levar o rapaz para uma noite especial na capital do mundo. Ele me disse que seu nome era Guilherme e havia vindo à NY visitar um parente. No dia seguinte, voltaria para o Brasil, onde cursa algo parecido com a High School. Guilherme estava bastante apreensivo, falava o tempo todo em uma partida de futebol dos ingleses. “Jack, amanhã é a final do campeonato mundial. O Brasil tem um time formado por gente de toda cor, muitos são misturadíssimos. E o pior é que as principais estrelas, as que estão despontando nos jogos são negras. E sabe aonde está sendo a Copa do Mundo, como é chamada?” Não, respondi desinteressado. “Na Suécia, Jack!” Ele tinha razão, como que pretos poderiam de novo superar os branquelões. Isso já tinha sido motivo para uma guerra!!!! Hitler não agüentou quando o negro fudido Jesse Owens venceu com folga os alvos da raça perfeita ariana e o Führer descontou a humilhação em Berlim, balançando seu pintinho para outros países.

Guilherme me convidou para ouvir a partida pelo rádio em uma estação da colônia italiana em Newark. Partimos para a cidade perdida e chegamos a uma espécie de rádio-pizzaria. Já eram 11 da manhã quando a bola rolou em Estocolmo. A narração era em um inglês britânico dos mais afrescurados, mas que incrivelmente dava muita emoção quando entendíamos que algo estava acontecendo. O estádio parecia vir a baixo e o locutor elevava o tom. No final das contas, Guilherme e os italianos comemoraram mais vezes do que xingaram o aparelho. O Brasil dos pretos ganhou o campeonato mundial e vi pessoas de outras partes do mundo deitarem lágrimas sobre o solo da América.

Depois daquele momento isolado, entendi que o beat da África havia sido explorado pela ignorância do homem. Entretanto, algo de mágico existe não só nesse povo, mas em suas relações com os novos mundos em que são enviados, buscados. Os Estados Unidos e o Brasil representam no macro a possibilidade da união em torno da alma, do beat. Há aqui e lá uma força que poetiza a existência. Não há cores nem hierarquias, somos um conjunto de almas e livres para a criatividade estimulante. Um cobiça e aprende com o outro e deste, surge mais vários em uma corrente infinita de mescla e divisão.  Por causa desta experiência, dois anos mais tarde, não fiquei assustado quando o senhor de óculos me perguntou se eu conhecia alguma coisa de “soccer”, como os americanos chamavam o esporte. Apesar de não ter ligado o nome ao esporte, pelo sotaque carregado, logo vi de que esporte se tratava. Falei em francês (acho que aceitaria mais a minha fala assim): Como não, até ouvi o título mundial do Brasil em 58.

Caí nas graças do sujeito. Alguém muito importante e interessante, diga-se de passagem. Tinha sido diplomata e agora, como eu, jazia na anti-sala de um programa de TV francês. Nos apresentamos, ele me reconheceu, me parabenizando por Vagabundos e disse gostar bastante do ritmo de minha escrita. Fiquei curioso para saber como era a sua misteriosa e cativante terra, o Brasil – país que tinha certo receio, sem saber ao certo porquê. Explicou-me que poucos recursos chegam ao país e que por isso, como o povo era bastante criativo, algumas alternativas foram sendo construídas. Por exemplo, algumas cidades são em torno de florestas e por isso, um meio de transporte usual é o cipó. Dizia ele: “o pessoal sai do morro e vai para o centro descendo por cipós firmes, recolocados pela prefeitura em caso de qualquer defeito”. Contou que por lá, existia uma bebida mágica que transformava gente em um felino selvagem chamado “Onça”.

É interessante como os nossos caminhos se cruzaram. O meu, a longa estrada empoeirada em sua margem; ele, um poeta, um embaixador de um cultura desconhecida e aberta, profeta reconhecido pela diplomacia e proposições completamente caóticas e Zen. O tal senhor Rosa escreveu sobre uma terceira margem, um terceiro lugar na travessia do rio. Na hora vi o velho jangadeiro de Sidarta, o fluxo em trânsito pelo meio, sem apoio nas margens, mas consistente em sua paciência e leveza sobre o rio. Um delírio sobre a própria angústia de viver a deriva entre os macacos falantes.

Cada um entrou no estúdio a sua hora. O momento de Rosa foi após o meu, mas como fui interpelado por algumas leitoras histéricas e beats da França, pudemos nos encontrar novamente no saguão da emissora. Ele me desejou o melhor possível em minha jornada literária e me convidou para passar alguns dias em sua aldeia. “Tem uma linda praia”, disse apaixonado, sem antes diminuir a voz e falar das sereias que chegam à margem dos riachos e fazem o melhor oral da selva. OK, disse entusiasmado, irei quando as coisas se estabilizarem, quem sabe quando eu mudar de vida e não precisar mais do mar alucinante da América, eu topo passar por lá. “Hmm, América? Você, meu jovem, ainda não conheceu o que é a América, ela não se limita a essa sociedade que te criou mimado e crente de ser o portador da verdade”. Nos despedimos, concordei com seu raciocínio, todavia refleti como seria  me transformar num gato selvagem, num tigre americano.