Kerouac Vs o Seu Cadáver

Existem dias que são quentes. O ânimo parece maior e mesmo que haja frio lá fora, seu espírito está disposto a enfrentar qualquer situação escrota que impeça o menos bravo de se divertir. Entretanto, há dias que são mais gelados e mesmo ao sol, nada consegue fazer com que a alma se levante e adore a vida. Há décadas – sim, possuo décadas de pensamento sobre meus próprios pensamentos, anos em que cotidianamente e enfadonhamente, analiso minhas ações, sentimentos e construções mentais. Desde cedo essa máquina começou a operar em mim e nunca consegui fugir muito de sua perseguição. Sei que isso também sempre esteve corrompido pelo amor cristão que desde cedo me foi fundido: “a culpa é sempre sua John. Continuar lendo “Kerouac Vs o Seu Cadáver”

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Kerouac Vs O Amadurecimento

O mais interessante dessa vida é poder olhar para atrás e ver como as coisas já não são mais as mesmas. Não é aquela balela simples de falar sobre como que a vida muda, como as pessoas se transformam ou como as coisas eram diferentes quando você tinha vinte e poucos anos. Falo mesmo é de como o meu arranjamento para a própria existência deixou de seguir um ideal que em outro tempo parecia ser a única estrada a perseguir. Não nego esses sentimentos que habitavam em meu espírito no passado – a sensação quente de poder querer compartilhar a vida com qualquer coisa, lugar ou pessoa e dali tirar um proveito momentâneo ou duradouro. Só que no agora, essa operação já não tem mais que ser resolvida. Não cheguei a uma conclusão sobre aquele período, mas acho que, na verdade, o resultado não importa ou pelo menos, nunca se revelará como se espera. Continuar lendo “Kerouac Vs O Amadurecimento”

Kerouac Vs Saturno

Quando comecei a ter ideias próprias, não necessariamente significou ter ideias originais nem mesmo, inovadoras. Passei por algumas fases de pensamento e postura que, mesmo que se enquadrem dentro da lógica capitalista, ocidental, branca, cristã e machista, nunca deixaram de questionar a isso mesmo. Não gosto de ser produto do meio que habito e isso me machuca cotidianamente. Assim, escolhi desde cedo remar contra a maré, mas tomando fôlego na margem do meio. Não consegui sempre, de fato. Representei o papel fenomenológico de uma homem ocidental, mas de alguma forma isso também serviu de aprendizado e não pode ser nem julgado nem condenado, ainda mais por quem possa admitir que nunca, em hipótese alguma, foi contaminado pelo contraditório. Continuar lendo “Kerouac Vs Saturno”

Kerouac vs a Loucura

Hoje, deixo o sanatório. Não aceitaram meu pedido de loucura. Hahaha! Nos últimos dois anos aconteceram tantas mini-histórias que até um velho marujo mentiroso ficaria envergonhado de contar. Tudo começou ainda em Lowell. Lá passa um rio que levou minha alma junto. Sempre pensei em sair do quintal de uma das casas beira-rio e de lá ir para o mundo. Quando era menor, fui o mentor de uma das nossas tentativas de escapar.  Já estávamos cruzando o condado quando o pai do Harry apareceu com as nossos irmãos menores e gente da cidade. Sempre soube que queria viajar pelo mundo sobre o mar. Porquê a vida é o mar! Continuar lendo “Kerouac vs a Loucura”

Kerouac vs a Honra

Seus olhos nunca são os mesmos. A cada dia, a cada despertar, um novo mundo se projeta biologicamente dentro de você e aquilo que enxerga, por mais que seu cérebro de TV, viciado, ache que é o mesmo, que o sorriso e a decepção têm os mesmos tons, não têm. Há uma história de que a angústia viaja amarrada nas costas do viajante. Não adianta sair de um lugar se o que lhe ferra tá dentro e te acompanha até a porta do inferno. Ou seja, por um lado temos um despertar completamente novo todos os dias e, por outro, temos as coisas dentro de nós permanecendo, independente da coordenada em que seu corpo estiver habitando. Assim, somos novos corpos em almas velhas, vagabundas, repetitivas, geralmente, estagnadas. Continuar lendo “Kerouac vs a Honra”

Kerouac Vs o Casamento

Quando tudo deu errado e era fato que viraria comida de minhoca debaixo da terra, uma luz bem lá no finalzinho do túnel resolveu aparecer pra mim. Antes de morrer jovem e senil, entregue a uma cela úmida e tifo, preferiria entrever-me com um outro alguém, mesmo que isso levasse em conta a obrigação e o acúmulo de carma. Por um tempo, justamente por estar necessitado de um manche na vida, pensei que a liberdade era o casamento. Amar e ser amado, não se preocupar muito com o que acontece lá fora e ter um cobertor de orelha todas as noites frias do inverno. Continuar lendo “Kerouac Vs o Casamento”

Kerouac Vs Espinoza

Na mais louca de todas as cidades, encontrei meu esplendor. Minha inquietude se inicia quando me pedem para escrever seu nome em um papel. Digo a eles que a grande cidade são todas, são todas as coordenadas que meus pés e meu espírito habitam no aqui-agora. Lowell, Frisco, NY, LA, Mex. City e centenas de milhas de asfalto e poeira compõem a imensa e inigualável vila que percorro abundantemente há anos. Continuar lendo “Kerouac Vs Espinoza”

Kerouac vs Moriarty

Depois de tudo o que tinha acontecido com Phillip, fiquei um pouco atordoado. Não quis nem saber de Janie ou de ninguém. Voltei para aquela maldita agência e esperei um navio que me levasse o mais longe possível. Queria sair da minha vida mais uma vez. Mas dessa vez com força e solitário. Sou um peregrino em busca de luz, persigo seu rastro cego. Entretanto, havia uma coisa que estava me incomodando muito. Continuar lendo “Kerouac vs Moriarty”

Kerouac Vs o Existencialismo

Ver a vida passar diante do nariz. É isso que a maioria das pessoas costumam fazer em seus cotidianos lentos e melancólicos. No inverno, os rostos e as felicidades são diminuídas pelas necessidade de se ver constantemente e além disso, sempre abrigados em algum lugar que não seja lá fora. Meu Deus!!! A cada segundo eu me imagino terrivelmente longe de qualquer pessoa e no momento seguinte, uma dor silenciosa e cheia de vazios me faz temer a solidão. Olho para o caminho e não vejo absolutamente nada. Há uma luminosidade opaca que impede qualquer coerência em termos de forma ou expressão. Sinto-me obrigado a dar passos a diante, como se estivesse impelido por uma força que vai além da minha própria vontade. É uma espécie de caos que me abraça e roça a noite fria em minhas orelhas. Porém meu pé soluça pela estrada sem muito vigor ou coragem para reagir aos obstáculos. Continuar lendo “Kerouac Vs o Existencialismo”

Kerouac Vs Thoreau

O texto que segue é uma ferrovia. Tentei não subestimar Saturno, mas uni ao menos cinco temporadas da minha vida, mas não de forma CRONOlógica. Comecei o redemoinho caótico quando lia “Walden” e frequentava o colegial em Lowell . Eu e meu saudoso Sampas discutíamos Thoreau no caminho de volta para casa. Por vezes, próximo ao lixão, criávamos pensamento de futuro inspirados no coração forjado de auto-suficiência e sabedoria. Já em Columbia, pensamentos soltos e uma noite inspirada me garantiram 15 anos sem tocar no assunto. Dez anos mais tarde de novo e, agora, em meio a toda essa revolução da “liberdade”, escrevo aqui. Porém, ao invés de um texto subjetivo e cheio de conceitos filosóficos, preferi sustentar minha tese de que a sociedade e o homem não são compatíveis (até esse momento), criando um personagem que sou eu e é vários. A liberdade é criativa e reativa! Continuar lendo “Kerouac Vs Thoreau”

Kerouac vs o Passado

A gente acha que conhece uma mulher pelas palavras que ela diz, pelos olhos que brilham quando você sorri e pelos sussurros na trepada. Mas tudo isso não passa de uma impressão machista e ocidental. Não sei, mas tenho a ideia de que reparam as coisas com um outro olhar, de um outro lugar. A maioria do que achamos ser o que dá tesão, talvez seja detalhe que acrescenta e não necessariamente, decida uma escolha. Continuar lendo “Kerouac vs o Passado”

Kerouac Vs Morrison

A nossa cabeça é completamente caótica, uma enorme pilha de contradições. Tem dia em que acordamos e achamos tudo bonito, sublime, qualquer aporrinhação é relevada com um sorriso, até mesmo os garotos chatos da rua são apenas meninos se divertindo com o gato. Todavia, existem aqueles dias em que parece que Deus pregou uma tacha descendo dentro da nossa cabeça. Os olhos ficam quentes e qualquer distúrbio à individualidade ou vontade é motivo para mandar todo mundo se danar. Até mesmo em ocasiões favoráveis ao sujeito, quem acorda assim acaba arrumando confusão. Continuar lendo “Kerouac Vs Morrison”

Kerouac Vs a Alienação

Em uma aula, há duas décadas, fui constrangido na frente de meus colegas por dois motivos: o primeiro por que era jogador de futebol e por isso, não poderia ter qualquer conteúdo próprio. Depois, por que um maldito professor insistiu para que eu definisse o que era alienação, não da maneira como eu penso que seja, mas segundo algum pensador oficial que estivesse grafado em um livro oficial. Bom, para não seguir o exemplo de meu “mestre”, deixo para que vocês dêem o próprio significado de alienação e para as pessoas que dela se nutrem. Eu só sei que nada sei.

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Kerouac Vs o Ocidente

Cada vez mais fico impressionado com a vida rídicula que tentam forjar para nós. Depois que a televisão invadiu a vidraça de nosso país, ninguém mais quer se encontrar nas ruas, ninguém mais quer pensar por si. Minha mãe chega em casa exausta da maldita fábrica de sapatos e gasta sua vida em mais algumas horas de TV. Eu sempre falo pra ela “Mamãe, o lixo que isso produz na nossa cabeça não compensa esse prazer barato. Eles só querem saber de controlar sua vida!”. Que nada Jean, diz repetidamente, que mal pode fazer um romance, um jogo de adivinhação ou mesmo, as notícias? Afff… ela nunca vai entender. Continuar lendo “Kerouac Vs o Ocidente”

Kerouac Vs Afrodite

E tudo acontecia ao mesmo tempo. Eu do meu lado sendo entorpecido pela vontade de liberdade e todas as outras pessoas pensando em como esquecer o momento seguinte. Entrei no quarto e um casal de Denver se entretinha debaixo do lençol. Procurava uma ferramenta necessária para o ritual de “sacrifício” – iríamos oferecer boas vibrações à Mãe Terra. A Deusa mereceria uma boa devoção com suas donzelas sendo desvirginadas pela décima vez. Tentei falar as palavras mágicas que afastam meus olhos do pecado. Elas são ditas em meu espírito, não em minha boca. O pensamento diz da mesma forma, pois só pensa em gozar em outras cenas desveladas. Ele quer que o tesão continue, mesmo sendo fora das leis. Continuar lendo “Kerouac Vs Afrodite”

Kerouac Vs Dionísio

Sempre achei engraçado que alguns homens se considerassem Deus. Naquela maldita noite eu tinha uma garrafa de vinho barato na minha mão esquerda e os peitos deliciosos de uma negra na direita. Sentia que em minhas veias pulsava o espírito de Dionísio, o deus duplamente fecundado: uma parte no ventre de sua mãe humana, Semele e outra, nas coxas de seu pai, Zeus. – o deus do céu e da terra Continuar lendo “Kerouac Vs Dionísio”

Kerouac Vs Watts

Estávamos de mudança. Deus havia nos permitido encontrar um novo caminho para a nossa vida. Meu pai, combalido e num estágio avançado da doença, conseguiu um empréstimo com um parente e esperávamos o caminhão Ford de Ned Sander parar na frente da nossa casa. Íamos saindo de Lowell, deixando para trás cerca de mais de duzentos anos de história. Entretanto, a pobreza corrói o espírito e transforma o corpo em um lar de desespero. O homem falido deixa os hábitos e a sujeira ocupa suas feições. A barba cresce, os olhos passam a procurar o vazio, a coluna arria. Era outubro e o outono abriu meu coração, jorrando lágrimas de palavras sobre a tábua da vida. Continuar lendo “Kerouac Vs Watts”

Kerouac Vs o Paradoxo

Estava zonzo, meu corpo foi erguido e momentos depois minha cabeça. Quando consegui me apoiar na posição que nos distingue dos demais, ereto, minha mente parecia badalar dentro de meu crânio,  uma dor impressionante e que me ameaçava os movimentos. Era um passo embaixo e uma fisgada em cima. Aihhh, gritei. Claro, a dor aumentou! Concentrei meu pensamento no vazio, convenci-me que não havia o que vomitar e esperei paciente o incômodo da carne deixar meu espírito. Finalmente, consegui me arrastar ao banheiro e lavei meu rosto e mijei meio torto sobre a privada semi descoberta. Olhei meu reflexo no espelho e não parecia me lembrar daquela cara… ha ha ha. Pelo contrário, era a cara que eu encontrava no espelho em todas as manhãs dos últimos tempos. Continuar lendo “Kerouac Vs o Paradoxo”

Kerouac Vs Nietzsche

Quando aprendi a andar, já tinha dado alguns passos nas letras. Nasci falando e escrevendo, mesmo que grunhidos e rabiscos. Meu pai era dono de uma gráfica e por isso, sempre havia papéis em minha casa. Mas neste mês de intensa mudança e verão, não consigo organizar qualquer pensamento minimamente digno de vir à existência. Ora ligo o rádio, depois pego no jornal de ontem, depois abro um livro de literatura, fico culpado e folheio quase com interesse os livros que tenho que ler para a faculdade. Hoje, não posso sair pelo mundo das estrelas incandescentes, tenho minha responsabilidade em casa e fora dela, não há motivos para vagar. Sinceramente, aquela paixão por encontrar a verdade lá fora, em meio a experiências, essa paixão tá calada aqui dentro, assim como minha escrita. E esse silêncio é por demais aterrorizador. Ele me dá medo do daqui para frente. Fui e dei um passo decisivo, mas meu orgulho foi sábio o suficiente para recuar, dar uma pisada atrás e recuar. Consegui sim, reaver algumas relíquias que já esvaiam do cofre de minha alma, mas ainda me sinto desconectado e fragmentado. Com tudo isso, somente queria me conectar com a unidade, com o sentido único e indelével do meu destino, mesmo não sabendo qual o caminho exatamente seguir.

Tenho certa atração por hotéis-formigueiros. Colecionava insetos pequenos e os colocava em vidros. Observava a vida em comunidade e sabia a psique de cada um que habitava as tocas e buracos. De uns tempos para cá, acabei me sentindo como o grilo marrom e velho que visitou minha cidade particular. Encontrei o pequeno ser no terreiro de casa, preso a uma roupa no varal e desconfiado de que sua vida selvagem estava chegando ao fim. Meu irmão tinha medo de encostar em insetos, eu não. Sou fascinado por eles. Suas cores variam do mais sem graça ao verde, vermelho puro, azul royal, cores que só vi em instrumentos e automóveis. Passei as duas mãos sobre a roupa pendurada à corda, cada uma vindo de uma direção e aprisionei meu futuro hóspede com certa elegância, dando espaço para que respirasse, apesar do breu. Coloquei o grilo dentro de meu aquarius insecta e me esqueci da vida vendo todas aquelas formas nem tanto hominídeas se mexendo para lá e para cá.

O lugar era tampado, mas tinha alguns furos para a troca de ar. Colocava também vegetais e larvas para que a população pudesse viver dignamente. Em uma manhã, animado com a variedade de espécies, quis encontrar no mato algum tipo de predador. Daqueles que iriam mexer completamente com o ecossistema e acabaria criando muita confusão. Shiva quando vem, traz a morte, mas traz a transformação! Primeiro pensei em uma lagartixa, depois em algo como um escorpião, por isso rumaria ao mato para encontrá-lo. Estávamos no verão e nessa época eles se aventuram mais. Antes de ir, claro, fui avisar aos cidadãos sobre o novo hóspede. Imaginei algo como se eu tivesse o papel de Deus falando a Moisés, mesmo que esse fosse um besouro de asas azuis. “Insecta maior, quero que avise aos outros que em breve sofrerão uma ameaça, um tipo de situação que nunca permiti que existisse, mas que preciso anunciar e fazer acontecer”. Senti que o pobre e precário ser não questionou minhas sentenças, mas com a compaixão católica no peito, dei a ele o direito de entender o porquê daquela transformação: “Durante muitos dias fiquei angustiado com minha criação. Sei que não fui eu exatamente que os coloquei na natureza, mas também tenho consciência de que pude facilitar as coisas para todos vocês, dando-lhes uma propriedade, uma sociedade e claro, alimentos e diversão! A liberdade não é exagerada, mas todos sabem que o perigo ronda a vida de todo inseto. A qualquer momento um predador pode interromper o sopro em seus corpos, fora a falta de comida e os riscos para consegui-la. Fiquei bastante admirado com a forma como se adaptaram às circunstâncias. Formigas e joaninhas foram os extremos. Enquanto as primeiras conseguiram se organizar, a dupla de joaninhas acabou se deprimindo ao ponto de recusar alimento. Hoje, rasteja e o resto da comunidade não espera a hora de comer o seu exoesqueleto. Imagino que algum parasita já pense em vender suas asas no mercado negro”. Os ganchos do besouro  batiam contra o vidro e pediam para continuar minha explicação. Não neguei ao iminente condenado qualquer palavra de sinceridade. “Amigo, estamos todos fadados à extinção. Essa é uma verdade incontestável. Até Deus, o criador do seu criador, foi morto no século passado. Não há escapatória, a morte é o destino da vida. Por isso, as joaninhas não se alimentam. Sabem da verdade e esperam aliviadas a hora que não tenham mais que sustentar a condição de prisioneiras. São fortes, mas não o suficiente para se verem livres dessa história. Vou colocar o predador mor em seu cativeiro por que sei que assim, todos vocês ficarão mais atentos ao sentido real da vida que possuem e daquela que eu, em minha benevolência, ofereci a todos vocês”.

Dei as costas e fui para o quintal. No caminho, quando já deixavam a garagem, onde viviam meus inquilinos condenados, percebi sobre o carro um ser pequeno, feio e saltitante. Não sei como e, claro, nem por que, o grilo conseguira escapar de nossa cidade. Tentei relembrar todos os passos de sua captura até a redoma e, pelo menos mentalmente, nada falhara. Dei dois passos para trás e com a ira de um pai traído, arranquei de meu pé esquerdo o calçado e com um golpe certeiro, mandei o insetinho para a próxima encarnação. Com todo o cuidado, retirei seus vestígios esmagados de cima do carro e uma ideia magnífica surgiu: oferecerei ao povo de minha terra o último banquete antes de seu destino. Voltei rapidamente ao aquário e com receio para que não houvesse novas e trágicas fugas, coloquei a carcaça sem vida em uma das áreas comuns do viveiro. “Vamos, meus filhos, se deliciem com a carne de um de seus membros e fartos, esperem o dia do demiurgo. Ele está próximo”. Sem qualquer tipo de sadismo, rumei novamente para minha expedição em busca de um inimigo feroz e traiçoeiro para meu mundo. Peguei uma caixa de fósforos, útil se os novos prisioneiros se rebelarem, e uma redinha que minha mãe havia cosido para mim. Não foi difícil capturar o carrasco. Sem qualquer drama ou narrativa especial, coloquei o primeiro escorpião que achei em minha rede. Pelo jeito, já estava sanguinolento o suficiente e sabia que iria aterrorizar nossa vila. Quando cheguei à cidade dos insetos condenados, não hesitei em largar o arauto da morte na parte mais propícia ao caminho de um aniquilador. Coloquei o escorpião na via principal para logo espalhar o medo pela comunidade. Enquanto matava os primeiros que aparecessem, os outros levavam a terrível notícia aos cantos do cativeiro, deixando os demais nervosos e apavorados. Entretanto, para meu espanto, o mesmo grilo que havia sido morto, pulava em um canto de minha criação. “Caralho, como isso é possível, que porra é essa!” Retirei a tampa que fazia a segurança em minha cidade e com toda a inocência de quem tem ódio no coração, arrastei minha mão pela terra em busca de eliminar novamente aquela impossibilidade. Porém, como se não tivesse lido Dostoievski o suficiente, meu mais novo hóspede, sem pestanejar, deferiu certeiro seu ferrão contra meu pulso. E com um golpe de agonia, retirei meu braço chocando-o com a lateral do aquário que, além de cortá-lo, se partiu lançando areia sobre meu corpo semi-aterrorizado, semi-ferido pelo aracnídeo. Derrotado pela esperteza, fui coberto por todos os rebelados. Alguns ainda me cortaram a pele, mas a maioria procurou o ar de sua antiga realidade. E, claro, tiveram aqueles que permaneceram em meio aos destroços. De súbito, tentei recapturá-los, mas a dor insuportável e a vergonha me impediram até de, em um desdém, matá-los a pisadas. Fiquei triste e deprimido pela minha própria inépcia em ser Deus. Ainda no banho fui obrigado a me livrar de alguns insetos que se meteram onde não deviam. Encharcado de dor, fui ver um médico que me receitou remédios e me recomendou ficar fora da vida selvagem por um tempo. Nada mais digno do que para um ser racional e cheio de dentes na boca! E no fim, o grilo feio e marrom ainda era obrigado a continuar pulando, mesmo que isso fosse contra a racionalidade de sua sociedade, mesmo que essa a todo momento, tentasse sufocá-lo e se livrar dele.

Kerouac Vs Foucault

Odeio quando as coisas não saem como planejadas. Essa frase insistia em me perturbar nas últimas duas semanas. Fico com uma espécie de dor de cabeça, quanto sinto que tudo vai dar muito errado. Eu tenho planos e cada passo é um passo calculado, hehehe. Deve ter muita gente fazendo “annn,  mas você não é o cara que sai por aí, à deriva? Que pula do vagão e não sabe o que irá encontrar na próxima esquina ou garrafa?” Sim, sou eu, mas controlo quase todos os meus passos mentalmente, até o caos pode ser mapeado. É só QUERER não ter um destino certo. É pensar racionalmente e esperar a aleatoriedade da vida bater a sua porta dizendo “olá”, pronto. Continuar lendo “Kerouac Vs Foucault”

Kerouac Vs o Feminino

Existe um tipo de sol que cega. Ele é perfeito, flamejante e intenso, claro, muito claro, um luar ensolarado, com seu foco disposto a iludir imagens. As emoções neste tipo de verão tropical estão de garras expostas e laceram qualquer tipo de moral. Minha vida nas últimas três semanas se tornou um verdadeiro barril de pensamentos, atos, sentimentos intensos e vociferados, tímidos e temerosos, um caldeirão profano e cristão, alquimia de paradoxos. Continuar lendo “Kerouac Vs o Feminino”

Kerouac Vs Einstein

Olho para o cinzeiro ao meu lado e fico espantado. Em pouco mais de duas horas, muito do meu pobre pulmão ali exposto cabisbaixo. Estou triste, depressivo. Não sei ao certo como escapar ao “demônio da verdade” – um sentimento louco que dá quando a gente não sabe ao certo por que é necessário continuar vivo. Senti isso várias vezes na “vida”. Em cada cilada quis que tudo se interrompesse. Mas acreditem, foi uma namorada que fez tudo isso ir para o ralo, uma poesia sem graça essa de querer morrer ainda jovem! Continuar lendo “Kerouac Vs Einstein”

Kerouac Vs Francis

É como um estampido de uma bala cravejando o ar antes mesmo do som. A luz é mais rápida, o barulho vem depois. Estar “fisgado” por alguém é poder viver realmente! Do que vale a vida se é secundário viver o prazer? E quando nele se encontra o amor? Por isso que acho que a única coisa que posso realmente amar é escrever. Acho que escrever nem é um dom ou uma arte. É simplesmente um querer. Vejo os rapazes balançando suas pistolas, todos imponentes. Mas são armas de seus pais, uma forma barata e fácil de acabar com qualquer dúvida. Continuar lendo “Kerouac Vs Francis”

Kerouac Vs Camus

camus

Acordo assustado na cabine do navio. Olho pela escotilha e vejo que já estamos próximos ao porto de Tânger. Ao fundo, milhares de construções nos esperam ansiosas pelos nossos desejos do mar. Sinto meu corpo molhado de suor e abandono a imagem do porto, dos bares, das putas e todo o resto. O quarto escuro me traz de volta ao sonho do qual acabara de me acordar. Estou em Lowell, mas meus pais se mudaram para Ozone Park. De repente o telefone toca e do outro lado da linha, meu pai tem uma voz fúnebre. Não me sinto preocupado com o estado emocional de sua fala e apenas o escuto em seu lamento: “ J, sua mãe morreu. O enterro é amanhã. Se puder, venha para cá”. Respondo apenas “sim” e desligo o aparelho. Como estou com muito sono, volto para meu divã e lá adormeço. A noite passa e na manhã seguinte Lucian Carr aparece na porta da minha casa. Ele me cumprimenta com pesar, mas mesmo assim, nada abala minha vontade. Chego a esquecer do porquê daqueles gestos. “É.. ela se foi. As coisas são dessa forma nesse lugar”, digo saindo pela porta. Carr insiste e me interroga sobre o porquê de não estar triste por aquilo. Não consigo dizer, apenas sinto uma total indiferença pelo desaparecimento de “Gabrielle Kerouac”.

Agora – na cabine do navio chegando no Marrocos, ao me lembrar disso, me assustoe acordo. Já não via em meu espírito qualquer vestígio materno, mesmo estando neste momento, fora do sonho, dentro de um navio e sabendo que minha mãe está viva em algum lugar do outro lado do mundo. Todavia as lembranças oníricas prosseguem atormentando a minha vigília. Lucian, qual é mesmo o seu problema? É o puto do árabe, responde. Ele está louco atrás de mim, quer as minhas bolas de qualquer forma e não sei o que fazer. Fique tranquilo, amenizo. Amanhã resolveremos o seu problema.

O sonho prossegue em uma louca viagem na qual deixamos Lowell e rapidamente chegamos a um cemitério em algum lugar de Nova York. Lucian me aponta o sujeito, ele vem em nossa direção. Seus olhos estão marcados pelo ódio, mas parecem ao mesmo tempo, apaixonados. Eu me afasto, os dois conversam em particular. O árabe tenta enfiar a mão nas calças do meu amigo, este evita segurando seus dedis e o golpeia na fronte. Um intenso nevoeiro nos prende em uma redoma. Desespero-me em meio aquela cegueira e tateio o chão tentando encontrar algo para apoiar. Sinto uma arma, um revólver. Empunho a coisa e armo o gatilho. Nas mãos do árabe, uma faca dança no ar. O vento frio corta o meu pensamento e força meu dedo que, sem trégua, acerta o peito do homem. Ele agoniza, mas sinto-me potente o suficiente para despejar-lhe outros quatro disparos. Lucian Carr se aproxima de mim e segura meu braço. Seu toque se torna diferente, mais suave. Sinto um cheiro conhecido, parece um perfume. Olho para o lado, ao invés de Carr, quem me segura é minha mãe. Ela já não está morta, mas seu odor, antes um perfume se transforma em algo altamente podre, como que em decomposição, como se fosse o cheiro do “sim, ela está morta”! Tento me desvencilhar de sua posse, não consigo. Ela mira meus olhos com seus olhos de cadáver e diz com a voz do próprio Lucian Carr: “Sua sentença será de acordo com a indiferença pela morte de sua mãe. Você será condenado ao inferno e assim como este árabe, seguirá sua eternidade agonizando por sua inexpressiva existência”. Lembro que foi exatamente neste instante em que eu acordei completamente assustado com tudo aquilo.

Na manhã seguinte, já em terra firme, tenho um encontro marcado com um agente que pretende publicar meus textos na Europa. Seu nome é Maurice e parece um sujeito interessante que conhece gente em Paris e sabe quem se interessa por aquilo que um quase-francês canadense americano pode trazer daquele país escrotinho da América. Ainda atormentado pelo sonho, não me concentro em nossa conversa. Tenho uma louca vontade em reparar um erro. Ele me convida para uma festa em sua cobertura de frente para o mar. Recuso a oferta e perco a oportunidade de me tornar alguém conhecido no velho continente, deixo para o futuro qualquer julgamento, tanto sobre minha mãe, quanto sobre livros ou assassinatos.