Kerouac Vs O agora

Vivo em mim a todo o instante passando pela relação ora ordinária, ora caótica da minha própria existência e co-existência nesse mundo que gira e nessa vida no chão regado de asfalto. Escrever seria como patinar com segurança num gelo fino, tocar um instrumento com a leveza de um sentimento, bater ao pano da esperança de se sobressair à própria miséria e à habilidade de se fazer miseráveis. Não existe um dia em que não sinto necessidade de mandar à vala uma quantidade enorme de julgamentos. A todo momento penso e em seguida, vem um valor, um juízo, uma sentença, um ponto de vista ou até mesmo uma “visão das coisas” invadindo o meu universo intimista e me faz ficar literalmente agarrado tentando sair dessa embaraçosa coisa que é dar conceitos e ter certeza racional para todas as coisas que podem existir no aqui e no agora. Por isso, escrever deveria ser como um jazz, não uma ciência, uma razão, uma peça da vaidade. Tathāgata! Tathāgata! Tathāgata!

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Kerouac Vs a Criança

O homem pode esconder do mundo qualquer coisa que se vista – palavras, roupas, discursos, medalhas… mas há nele algo que não tem como fantasiar, mesmo que as memórias lhe sejam favoráveis ou senão falsas, fabricadas dentro de uma lógica. A própria consciência é inegável. Sim, e isso é claro, por mais tenebroso que possa parecer aos olhos dos outros. Hoje, tenho 45 anos e sou um homem triste, solitário e muito amargo. Esse foi o meu caminho e sei que quando estou aqui, diante do papel e da estrada, nada me faltou, nem mesmo minha consciência, minha culpa e minha dor. Só agora percebo que sim, o fundamental ficou abaixo do que pude enxergar.

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Kerouac Vs o Seu Cadáver

Existem dias que são quentes. O ânimo parece maior e mesmo que haja frio lá fora, seu espírito está disposto a enfrentar qualquer situação escrota que impeça o menos bravo de se divertir. Entretanto, há dias que são mais gelados e mesmo ao sol, nada consegue fazer com que a alma se levante e adore a vida. Há décadas – sim, possuo décadas de pensamento sobre meus próprios pensamentos, anos em que cotidianamente e enfadonhamente, analiso minhas ações, sentimentos e construções mentais. Desde cedo essa máquina começou a operar em mim e nunca consegui fugir muito de sua perseguição. Sei que isso também sempre esteve corrompido pelo amor cristão que desde cedo me foi fundido: “a culpa é sempre sua John. Continuar lendo “Kerouac Vs o Seu Cadáver”

Kerouac Vs O Amadurecimento

O mais interessante dessa vida é poder olhar para atrás e ver como as coisas já não são mais as mesmas. Não é aquela balela simples de falar sobre como que a vida muda, como as pessoas se transformam ou como as coisas eram diferentes quando você tinha vinte e poucos anos. Falo mesmo é de como o meu arranjamento para a própria existência deixou de seguir um ideal que em outro tempo parecia ser a única estrada a perseguir. Não nego esses sentimentos que habitavam em meu espírito no passado – a sensação quente de poder querer compartilhar a vida com qualquer coisa, lugar ou pessoa e dali tirar um proveito momentâneo ou duradouro. Só que no agora, essa operação já não tem mais que ser resolvida. Não cheguei a uma conclusão sobre aquele período, mas acho que, na verdade, o resultado não importa ou pelo menos, nunca se revelará como se espera. Continuar lendo “Kerouac Vs O Amadurecimento”

Kerouac vs o Meio

Tenho certa dificuldade com a mecânica da escrita à máquina. Gosto mais de estar livre com o carbono de um lápis, não só pelo meu tempo, mas também pelos meus garranchos e desenhos que saem de palavras e letras que se formam a partir de desenhos. Mas se escolhi escrever a vida, não tenho como fugir dessa interrupção de papéis. Trocando o usado, não velho, o que ainda virá a ser, mesmo que já tenha sido, pelo novo, em branco, aquilo que ainda não foi e logo se tornará, também, algo usado com alguma coisa que virá a ser. Continuar lendo “Kerouac vs o Meio”

Kerouac Vs Ananda

Claro, sempre me interessei pelos tortos. Não só porque gosto do cheiro de espontaneidade, muito menos pela selvageria dos argumentos fantásticos. Mas porque sendo atípicos, suas ações sempre são respeitadas como a de um. O homem são não deve sair desse caminho, pois para o povo, um furo praticado pelo que é padrão, estremece as bases da conduta guiada pelo fora -“fora de si”, a maioria das pessoas é conduzida na vida pelas ideias que existem, que falam pra ela que exalam feito perfume de cinema. Esquecem de produzir a própria vida, ideia, criação e muitas vezes julga e vê naqueles que riscam com sangue e paixão a trilha do independente, como indignos da própria convivência e se tanto, com escárnio, punição, rancor. Continuar lendo “Kerouac Vs Ananda”

Kerouac vs a Loucura

Hoje, deixo o sanatório. Não aceitaram meu pedido de loucura. Hahaha! Nos últimos dois anos aconteceram tantas mini-histórias que até um velho marujo mentiroso ficaria envergonhado de contar. Tudo começou ainda em Lowell. Lá passa um rio que levou minha alma junto. Sempre pensei em sair do quintal de uma das casas beira-rio e de lá ir para o mundo. Quando era menor, fui o mentor de uma das nossas tentativas de escapar.  Já estávamos cruzando o condado quando o pai do Harry apareceu com as nossos irmãos menores e gente da cidade. Sempre soube que queria viajar pelo mundo sobre o mar. Porquê a vida é o mar! Continuar lendo “Kerouac vs a Loucura”

Kerouac Vs Duluoz

Recebo um telefonema de Raphaello Scoth, meu contato no NYTimes. “J. o Gary entrou de férias, cara. Seu livro já era meu camarada. Estou envergonhado, envergonhado… Maldito Gary. Ele tinha me confirmado, na próxima sexta, na próxima sexta“! Filho da puta bastardo, penso. Diga a ele que quando eu for lido por metade da América, sua crítica já não vai adiantar nada. Desliguei o telefone bastante puto. Maria estava com o cigarro em mãos, encostada na cama e me olhando. Continuar lendo “Kerouac Vs Duluoz”

Kerouac Vs o Karma

Uma vez sonhei com uma chuva que nunca parava. De tanta água caindo sobre a América, me restava apenas ir para o telhado de nosso apartamento em Ozone Park, Nova York. Porém, meu corpo abatido pelo abuso, pesava sobre a cama e sobre meu sonho. Fiquei com tanta preguiça que esperei ela chegar na beira da janela. Joguei-me pelo sofá e sai nadando por Manhattan. Continuar lendo “Kerouac Vs o Karma”

Kerouac vs o Passado

A gente acha que conhece uma mulher pelas palavras que ela diz, pelos olhos que brilham quando você sorri e pelos sussurros na trepada. Mas tudo isso não passa de uma impressão machista e ocidental. Não sei, mas tenho a ideia de que reparam as coisas com um outro olhar, de um outro lugar. A maioria do que achamos ser o que dá tesão, talvez seja detalhe que acrescenta e não necessariamente, decida uma escolha. Continuar lendo “Kerouac vs o Passado”

Kerouac Vs Camille

Uma imensa dor corrói o meu espírito há cinco longos dias. Ela simplesmente deixou a casa e partiu. Não disse nada, nem antes nem depois. Bateu a porta forte o suficiente para que entendesse que não devia gritar por ela na janela. Torci meu estômago e meu coração alcançou a goela. O ar me escapa aos poucos e fere o pulmão. A mente não consegue se desviar senão pelo seu corpo imaginário e seu sorriso ébrio. Pensei em me enforcar, achei exagerado. Pensei em auto-flagelação, logo logo me arrependeria, nenhuma das duas dores passaria na velocidade de um avião. Estou entregue ao mundo, meus olhos caíram, minha boca murchou, meu pau é uma meia velha, vazia e abandonada. Continuar lendo “Kerouac Vs Camille”

Kerouac Vs a Alienação

Em uma aula, há duas décadas, fui constrangido na frente de meus colegas por dois motivos: o primeiro por que era jogador de futebol e por isso, não poderia ter qualquer conteúdo próprio. Depois, por que um maldito professor insistiu para que eu definisse o que era alienação, não da maneira como eu penso que seja, mas segundo algum pensador oficial que estivesse grafado em um livro oficial. Bom, para não seguir o exemplo de meu “mestre”, deixo para que vocês dêem o próprio significado de alienação e para as pessoas que dela se nutrem. Eu só sei que nada sei.

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Kerouac Vs Watts

Estávamos de mudança. Deus havia nos permitido encontrar um novo caminho para a nossa vida. Meu pai, combalido e num estágio avançado da doença, conseguiu um empréstimo com um parente e esperávamos o caminhão Ford de Ned Sander parar na frente da nossa casa. Íamos saindo de Lowell, deixando para trás cerca de mais de duzentos anos de história. Entretanto, a pobreza corrói o espírito e transforma o corpo em um lar de desespero. O homem falido deixa os hábitos e a sujeira ocupa suas feições. A barba cresce, os olhos passam a procurar o vazio, a coluna arria. Era outubro e o outono abriu meu coração, jorrando lágrimas de palavras sobre a tábua da vida. Continuar lendo “Kerouac Vs Watts”

Kerouac Vs o Paradoxo

Estava zonzo, meu corpo foi erguido e momentos depois minha cabeça. Quando consegui me apoiar na posição que nos distingue dos demais, ereto, minha mente parecia badalar dentro de meu crânio,  uma dor impressionante e que me ameaçava os movimentos. Era um passo embaixo e uma fisgada em cima. Aihhh, gritei. Claro, a dor aumentou! Concentrei meu pensamento no vazio, convenci-me que não havia o que vomitar e esperei paciente o incômodo da carne deixar meu espírito. Finalmente, consegui me arrastar ao banheiro e lavei meu rosto e mijei meio torto sobre a privada semi descoberta. Olhei meu reflexo no espelho e não parecia me lembrar daquela cara… ha ha ha. Pelo contrário, era a cara que eu encontrava no espelho em todas as manhãs dos últimos tempos. Continuar lendo “Kerouac Vs o Paradoxo”

Kerouac Vs o Feminino

Existe um tipo de sol que cega. Ele é perfeito, flamejante e intenso, claro, muito claro, um luar ensolarado, com seu foco disposto a iludir imagens. As emoções neste tipo de verão tropical estão de garras expostas e laceram qualquer tipo de moral. Minha vida nas últimas três semanas se tornou um verdadeiro barril de pensamentos, atos, sentimentos intensos e vociferados, tímidos e temerosos, um caldeirão profano e cristão, alquimia de paradoxos. Continuar lendo “Kerouac Vs o Feminino”

Kerouac Vs Francis

É como um estampido de uma bala cravejando o ar antes mesmo do som. A luz é mais rápida, o barulho vem depois. Estar “fisgado” por alguém é poder viver realmente! Do que vale a vida se é secundário viver o prazer? E quando nele se encontra o amor? Por isso que acho que a única coisa que posso realmente amar é escrever. Acho que escrever nem é um dom ou uma arte. É simplesmente um querer. Vejo os rapazes balançando suas pistolas, todos imponentes. Mas são armas de seus pais, uma forma barata e fácil de acabar com qualquer dúvida. Continuar lendo “Kerouac Vs Francis”