Kerouac  Vs McCarth

Ok. Não gosto muito de comunistas. O que me intriga nesse tipo de pessoa é que são os mais crentes no homem, têm mais fé do que qualquer fiel e ainda assim conservam no discurso e na atuação a busca de uma salvação pelo literal, pelo o que os olhos enxergam e a mente pensa. Já perderam o sentido de comunidade que tem no nome e na herança primitiva. Repartir, compartilhar e desapego é tão complexo que fazer isso num discurso não impede do puto agir de forma contrária. Diz que não liga, mas é agarrado no dinheiro, diz que tá nem aí e tá aí pra caralho.

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Kerouac Vs O Jazz

Tu-de-dum-pak-tu-de-dum-pam- tum-tum-pra-ca-tum – as noites começam de dia. Há todo um ar que envolve o espírito compulsivo a já acordar sabendo como irá deitar. Mesmo que não tivesse lido em um jornal ou passado em frente ao Village, sabia bem o que iria encontrar aos sábados naquele pequeno pedaço do paraíso financiado pelo demônio. A calma do ambiente em uma frase de sax traz uma impressão cinematográfica do que poderá acontecer: sonhos lúcidos, mulheres incríveis e seus corpos da perfeição, uma conversa beatífica com um negro do subúrbio mais sábio do que qualquer um de vocês. Alguma coisa acontece com meu centro gravitacional e os membros do meu corpo que quando escuto os acordes eles ao mesmo tempo comandam partes oblíquas do boneco que me leva, bem como sobem e descem uma sensação infantil de que a vida se resume ao ritmo, ao som e ao que o olho pode ver, mesmo que permaneça a maior parte do tempo fechado.

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Kerouac VS a Modernidade

Existem momentos na vida em que qualquer vagabundo ou sábio entende que é preciso sair fora. Inclusive da estrada. Havia em mim uma dor que não compartilhava com os executivos de uma empresa, nem com o operário que acorda aborrecido, mas ri no refeitório satisfeito com a ração que pensa que é de graça, mas é paga com o seu suor diário. Muito menos a dona de casa infeliz que espera o marido chegar bêbado de mais de um dia de trânsito e pressão. Só mesmo aqueles que vivem se arrastando pelo asfalto e os ascetas entendem que essa vida de pó preto, sirenes e gente ao redor é algo ilusório, maya. Continuar lendo “Kerouac VS a Modernidade”

Kerouac Vs Mr. President

Acho muito estranho quando a gente passa do limite de solitário vagabundo para alvo de um brilho frouxo para os jornais e a TV e, necessariamente, para aqueles que seguem cegamente esses tipos de gurus. Sinto-me sendo sugado cotidianamente por câmeras e lápis e blocos rabiscados. Minha alma sai de mim e vai direto para a confusão que esses caras fazem a respeito do que escrevi ou falei. É difícil ter em uma resposta, ainda mais uma que seja exatamente como aquela que se encaixa naquilo que esses ursos que controlam tipos e botões querem que você diga. Porra, se já têm resposta, por que tantas perguntas tolas? Continuar lendo “Kerouac Vs Mr. President”

Kerouac Vs U.S. ARMY

Mais uma vez me encontro inerte. Queria muito poder trazer das vísceras uma história, visão ou qualquer coisa que pudesse cuspir meu espírito. Ando muito atento, produzindo pensamentos e falando muito. Porém, o grande Babuíno não me visita a não ser que seja em metalinguagem, somente nesta hora, quando estou, justamente, reclamando a mim mesmo a falta de inspiração para juntar letras e depois, espalhar palavras. Continuar lendo “Kerouac Vs U.S. ARMY”

Kerouac Vs Duluoz

Recebo um telefonema de Raphaello Scoth, meu contato no NYTimes. “J. o Gary entrou de férias, cara. Seu livro já era meu camarada. Estou envergonhado, envergonhado… Maldito Gary. Ele tinha me confirmado, na próxima sexta, na próxima sexta“! Filho da puta bastardo, penso. Diga a ele que quando eu for lido por metade da América, sua crítica já não vai adiantar nada. Desliguei o telefone bastante puto. Maria estava com o cigarro em mãos, encostada na cama e me olhando. Continuar lendo “Kerouac Vs Duluoz”

Kerouac Vs Rothko

Nos anos 50 o mundo estava mudando e nem todo mundo sabia disso. Era o jazz explodindo em novas formações, o consumo se tornando lei, a TV e tudo mais transformando a vidinha fácil do interior em uma rotina de trabalho e fumaça. Os carros ficavam cada vez mais barulhentos e as garotas cada vez mais espertas e, por isso, faziam as coisas alucinarem na frente de qualquer um. Ser reconhecido se tornou condição para se existir na América e eu queria muito ser alguém. Lutei contra as minhas angústias depressivas e passei um bom tempo batendo com a cara na parede. Continuar lendo “Kerouac Vs Rothko”

Kerouac vs Moriarty

Depois de tudo o que tinha acontecido com Phillip, fiquei um pouco atordoado. Não quis nem saber de Janie ou de ninguém. Voltei para aquela maldita agência e esperei um navio que me levasse o mais longe possível. Queria sair da minha vida mais uma vez. Mas dessa vez com força e solitário. Sou um peregrino em busca de luz, persigo seu rastro cego. Entretanto, havia uma coisa que estava me incomodando muito. Continuar lendo “Kerouac vs Moriarty”

Kerouac Vs Thoreau

O texto que segue é uma ferrovia. Tentei não subestimar Saturno, mas uni ao menos cinco temporadas da minha vida, mas não de forma CRONOlógica. Comecei o redemoinho caótico quando lia “Walden” e frequentava o colegial em Lowell . Eu e meu saudoso Sampas discutíamos Thoreau no caminho de volta para casa. Por vezes, próximo ao lixão, criávamos pensamento de futuro inspirados no coração forjado de auto-suficiência e sabedoria. Já em Columbia, pensamentos soltos e uma noite inspirada me garantiram 15 anos sem tocar no assunto. Dez anos mais tarde de novo e, agora, em meio a toda essa revolução da “liberdade”, escrevo aqui. Porém, ao invés de um texto subjetivo e cheio de conceitos filosóficos, preferi sustentar minha tese de que a sociedade e o homem não são compatíveis (até esse momento), criando um personagem que sou eu e é vários. A liberdade é criativa e reativa! Continuar lendo “Kerouac Vs Thoreau”

Kerouac Vs Camille

Uma imensa dor corrói o meu espírito há cinco longos dias. Ela simplesmente deixou a casa e partiu. Não disse nada, nem antes nem depois. Bateu a porta forte o suficiente para que entendesse que não devia gritar por ela na janela. Torci meu estômago e meu coração alcançou a goela. O ar me escapa aos poucos e fere o pulmão. A mente não consegue se desviar senão pelo seu corpo imaginário e seu sorriso ébrio. Pensei em me enforcar, achei exagerado. Pensei em auto-flagelação, logo logo me arrependeria, nenhuma das duas dores passaria na velocidade de um avião. Estou entregue ao mundo, meus olhos caíram, minha boca murchou, meu pau é uma meia velha, vazia e abandonada. Continuar lendo “Kerouac Vs Camille”

Kerouac Vs Corso

Dezembro tomava Ozone Park melancolicamente. As árvores já apresentavam a habitual solidão esbranquiçada, seca e gelada do bairro de operários. As pessoas já não se cumprimentavam, afinal o inverno estava tão rigoroso e o vento tão impertinente que era preciso vestir seis, sete peças grossas de roupa para não preferir estar morto e enterrado. No caminho de volta ao meu apartamento, passando em frente ao All´s, vi acompanhado de uma garrafa de vodka, Gregory Corso. O homem sujo dos Bálcãs tinha uma cara um pouco desgostosa e num piscar de olhos, em uma abertura dada pelo meu olhar, ele começou seu discurso infinito sobre a liberdade humana: Continuar lendo “Kerouac Vs Corso”

Kerouac Vs Monroe

Durante a guerra, muitas esposas ficaram expostas aos garanhões alheios. Na Califórnia, centenas de comunidades tinham na força feminina a principal potência de trabalho. Neal não tinha muito critério para escolher suas vítimas, era um verdadeiro safado que adorava se lambuzar com louras, pretas, branquelas e tudo mais que aparecesse na frente do seu tesão. Todavia a maior de todas, ou melhor, a mais deslunbrante e encantadora de todas esfacelou o coraçãozinho do rapaz e ainda veio correndo para o meu lado. Continuar lendo “Kerouac Vs Monroe”

Kerouac Vs Pollock

Já era tarde da noite e Lee insistia para que continuássemos em nossa bebedeira alucinada de três dias. Eu não conseguia mais distinguir entre o que era verdade e o que não era mentira, minha cabeça estava intoxicada demais para querer conceber a realidade das coisas e por isso, meu corpo era guiado por um pavio curto de energia que não me deixava capotar. Jackson parece ter percebido a minha confusão e prometeu contar uma historinha para me fazer dormir tranquilo. Continuar lendo “Kerouac Vs Pollock”

Kerouac Vs Morrison

A nossa cabeça é completamente caótica, uma enorme pilha de contradições. Tem dia em que acordamos e achamos tudo bonito, sublime, qualquer aporrinhação é relevada com um sorriso, até mesmo os garotos chatos da rua são apenas meninos se divertindo com o gato. Todavia, existem aqueles dias em que parece que Deus pregou uma tacha descendo dentro da nossa cabeça. Os olhos ficam quentes e qualquer distúrbio à individualidade ou vontade é motivo para mandar todo mundo se danar. Até mesmo em ocasiões favoráveis ao sujeito, quem acorda assim acaba arrumando confusão. Continuar lendo “Kerouac Vs Morrison”

Kerouac Vs Bukowski

Na América, quando você acha que é o único que está percebendo alguma coisa, se sente como se fosse um rei. As mulheres deixam de ser misteriosas, as ruas são iluminadas por cada passada que damos e qualquer fodão que aparece na sua frente se transforma num verdadeiro otário. Todavia, quando você descobre que tem um monte de maluco pensando da mesma forma, de duas uma, ou você pira de vez e se entrega ao deserto, ou então se alia a eles. Continuar lendo “Kerouac Vs Bukowski”

Kerouac Vs King Jr.

Eis que um negro forte vem andando em minha direção e parece furioso. Suas passadas são largas, ele está a mais de cem metros da mesa que eu ocupo. Vem concentrado, cabeça baixa e o tempo toda sendo jogada para um lado e para outro, grandes passadas, pisadas fortes. E vem dizendo consigo mesmo algumas palavras, frases, salmos em voz baixa e focada. Eu estou bêbado e solitário em um canto do Brooklin, um buraco freqüentado por negros e latinos, o lugar ideal para quem ainda curte a parada de verdade. A vida por aqui não é mais beatífica como antes, precisamos ficar descobrindo momentos como esse, lugares como o Moe´s ou pardieiros ainda mais obscuros, onde a luz não penetra confortavelmente – eis a busca beat, flor de lótus no lamaçal. Continuar lendo “Kerouac Vs King Jr.”

Kerouac Vs América

Noites insólitas, noites corrosivas, noites e mais noites de perdição. Meu mau hábito de amar a madrugada levou metade da minha vida à ruína. A outra, quem pegou foi o diabo. A queda não é tão dolorosa quando a gente consegue cair de pé. O mal nem sempre pisa sobre nossa cabeça, mas nos serve um banquete antes do fim. Estou em Frisco e é o outono de 1964.  Nosso presidente havia sido assassinado há menos de um ano e muito gente andava perdendo a cabeça por pensar diferente. Continuar lendo “Kerouac Vs América”

Kerouac Vs Simone

Já estava de saco cheio daquilo tudo – família reunida, todo mundo fingindo ser feliz, parentes que não se cumprimentam, agora se olham como se nada tivesse ocorrido (na verdade, são tios que olham as pernas das sobrinhas e primos que combinam sacanagens com seus sorrisos), uma verdadeira depressão de natal. Na minha casa sempre foi diferente, somos católicos onde a maioria sempre foi protestante ou judeu. Para nós, o natal simbolizava a desgraça que nossa sociedade havia feito consigo mesma ao matar o Escolhido. Ficávamos ouvindo o Papa rezar do Vaticano e torcendo logo pela volta do Cordeiro, não aguentávamos mais esse mundo de perversões e maldades. Continuar lendo “Kerouac Vs Simone”

Kerouac Vs Cody

Desconhecer as pessoas parece ser a mais importante das artes atualmente. É muito fácil aqueles banudões da música, cheio de notas sufocadas na calça, chegarem e te pedirem algo. Mas quando é você que reclama uma mão aberta, te escondem, fingem que você é ridículo, pasteurizado.  Eu fui pedir uma chance para um amigo que está passando por problemas de entendimento profissional e tudo o que ouvi foi “o problema é dele, só dele”. É difícil falar alguma coisa para alguém que se engana constantemente com o próprio desejo. A confusão do querer faz com que viva a metade das coisas e quando não é o dinheiro, é o pau a desculpa. Cody era assim. Se sua vida não estava péssima por conta da falta de grana o era pelo excesso de virilidade e barbárie em seus métodos.

Roxane Charlene foi a única mulher que vi fazer Cody cair por terra – literalmente a última. E olha que nem era das mais impuras, muito pelo contrário, o cara sabia que ela não era uma daquelas que convence o diabo de desfilar de cueca na avenida. Era simples, não queria impressionar e nem botar banca. Os dois haviam se conhecido na frente do bar em que o pai da garota trabalhava. Cody apareceu de repente. Quis pedir informação sobre onde poderia levar a banda para comer alguma coisa. Ela que estava na esquina fumando um cigarro, demorou um pouco pra responder, mas indicou com a cabeça o bar onde seu pai trabalhava. Cody ficou assustado com o olhar severo e amazônico da garota. Era como se repudiasse a presença de qualquer homem a sua frente. Sua boca se continha produzindo um biquinho ainda mais oportuno para as fantasias de Cody. “Mas me diz, você também não está com fome, quem sabe poderia escolher nosso cardápio, apresentar alguma coisa gostosa e quente para estarmos fortes para a estrada amanhã!?”

– Você é um viajante?

– Não, nós somos! Apontou para o ônibus parada a alguns metros na rua.

– Ann.. legal, mas não tenho fome, não te conheço e não tô muito a fim de viajar.

– Você vai vir comigo – Cody terminou a frase com o olhar de sempre, como se entrasse dentro da alma da pessoa e dali puxasse qualquer possibilidade de resistência a sua vontade.

– Nunca!

A banda passava por problemas e Cody aproveitou para ficar uns dias sossegado. Parte da banda seguiu para o oeste, na direção da Califórnia. Ele e mais alguns decidiram viver novamente uma experiência real em algum lugar. Sabia que a qualquer momento iriam voltar para levá-lo – ele era O motorista. Alguns canalhas já tinham marcado o Novo México para dali alguns meses e Cody iria aproveitar a chance para descer um pouco mais e chegar sim, ao verdadeiro México. Sua diversão, quando conseguia se livrar das obrigações em sua casa – na cidade vivia também sua mulher e seus três amados filhos, era poder voltar ao velhos lugares de sua juventude e ver como tudo tinha mudado e nada mais lhe interessava verdadeiramente. Nem sua mulher, nem o caminho de sempre, nem sua vida. Mas havia prometido ao seu próprio deus que honraria a família que não pôde ter. Ainda assim, não se esforçava muito para não se apaixonar – paixões lhe roubava dias. Numa noite, viu os cabelos curtos de Rox e lembrou da força de sua autonomia. Ficou vidrado e com muitas sensações de promessas e realizações. Repetiu como um mantra: “É ela”

Rox ia para o estabelecimento onde seu pai trabalhava todos os dias em que o boteco abria na semana – de 3ª a sábado o Fate´s ficava de porta aberta das 3 da tarde às 3 da manhã.  Ela se sentava no balcão enquanto o pai, o barman, servia aos fregueses. Os dois começaram a conversar todos os dias. Aos poucos, ela acabou cedendo aos gracejos do velho garanhão. Ainda assim, desconfiava de que tipo era aquele, por mais que seus pensamentos lhe tomassem de assalto a razão. Num certo dia, ela não apareceu, no outro também, no seguinte e no seguinte. O pai, Jonathan, tinha lá suas dúvidas se havia qualquer problema – devia ser uma fase, afinal sua filha sempre estava em casa dormindo quando chegava do bar. Deixou de acompanhar o pai para acompanhar Cody. A garota, apesar do ímpeto de balzaquiana, era na verdade, uma neófita, uma ninfeta à flor da pele e bastante inteligente. Passou a infância na biblioteca e nas rodas de meninos. Inverteu o papel, dominou e abandou quando quis. Nunca aceitou a posição que lhe conferiram na sociedade enquanto fêmea. Sua mãe morreu ainda cedo e seu pai passou a ser o único alicerce cabível, por isso a maturidade precoce. Seu espírito era desbravador e nobre, entretanto, a dúvida do que seria realmente o prazer e o tempo presente, a levou a algumas bifurcações na vida. Dores e sacodes que lhe conferiram reconhecer a cretinice estampada na cara dos homens.

E assim, ela pensou, repensou, sentiu e resolveu partir, desgarrar de seu velho e amoroso pai. Pegou carona no ego de meu amigo e seguiu viagem em sua companhia pela América. A banda já voltara de Los Angeles e agora, estava carregada de ácidos e todo o tipo de subjetividade. Foram no caminho para o Novo México. Cody teve seu salário reduzido a metade por levar mais um na excursão. Em sua busca por ascender, Cody acabou descuidando da própria mente da garota. Ela se sentiu seduzida pelos músicos endiabrados e safados que estavam na parte de trás. Sua vontade era de abraçar a todos como se fossem uma só coisa. O barato já estava acontecendo e a visita ao Novo México não era um sucesso. Haviam avisado que a polícia queria saber o que tinham no ônibus. A cada bandeirinha, Cody cuspia no chão. Quando percebeu que a menina estava nas mãos de boa parte do grupo, freou bruscamente o veículo e vários saíram batendo pelos bancos e instrumentos. Pegou a garota pelas mãos e saiu com ela do ônibus. Não conseguia pensar no presente, mas sim em como situar as coleções de imagens que apareciam em sua cabeça e vibravam em sua vista. Desceram e saíram no deserto. Ao lado, na esquerda, uma linha de trem e mais deserto. Ele levou a garota até o início dos trilhos. Pegou um dos dedos de Rox e passou em seus lábios. Molhou o anelar e desceu com a mão até a cintura da jovem. Ela segurou e ergueu a mão de Cody antes dele chegar lá. “Não precisa”. Não estavam em um quarto confortável nem ela sentiu necessidade dele. As ondas iam e voltavam neste tipo de insanidade sexual, motora e robótica. Rox já estava de saco cheio disso tudo.

Conseguiram se descolar do grupo e encontraram um casal de velhos amigos perto de El Paso. Eles moravam em uma instância no México. Esqueceram completamente a barbárie que poderiam ter vivido se continuassem em trânsito com os músicos e se esbaldaram no LSD e na juventude do amor. Ela tinha 19, ele 41.

“Vinte anos de vida em alta velocidade: não resta mais muito e meus filhos estão todos fodidos. Não faça o que eu fiz”, foi o Cody disse a Rox em uma das noites de brandura – de repente, Cody, o falador, calou-se e se expremeu. O homem em seu final acumula em suas decisões a persistência do silêncio. Seu corpo não reflete seu olhar que é fraco ao seu andar. Cody deixou a garota e seguiu pelos trilhos. Um ano depois, sem a menina e de volta ao México, visitou um casamento, provocou a ira do noivo e foi embora novamente pelos trilhos. Na chuva e na angústia, andou por muito tempo. No outro dia, acharam seu bagaço, estava em uma conta absurda, balbuciava – quando conseguia, o número “64.928”. Morreu no dia seguinte, faltando quatro dias para seu aniversário.

Kerouac Vs Baker

Chet, Chet, Chet… mil vezes Chet! Nunca vi algo tão louco portar tão bem a porra de um trompete alucinado feito um deus no topo da montanha mais alta da imaginação sonora. Seu cool jazz me fazia alucinar, suas frases enlouquecidas me tiravam do cérebro. Um puta mentiroso esse maldito! Um grande beatificado esse cadavérico artista das estrelas. Sua música inundou Nova York de inveja, ninguém acreditava que um branquelo banguela poderia comandar tão bem o ofício da negaiada. Davis até tentou esconder seu espanto, mas ninguém mais do que ele mesmo foi capaz de reverenciar o diabo louro do oeste. Continuar lendo “Kerouac Vs Baker”

Kerouac Vs Coltrane

Acabo de chegar em casa e estou levemente entorpecido pelo paraíso. Nova York vive um verão intenso, tudo é suor e loucura, as mulheres, os bêbados e os poetas se confraternizam pela madrugada alucinada da grande maçã, dançando o beebop, escutando os anjos entortarem a realidade em suas harpas de sopro. Minhas mãos não compreendem adequadamente os pensamentos que emergem do vale sombrio, eles escapam e voltam e dizem ao meu ouvido como se não fossem meus e, por isso, sinto-me tímido e não me importo em desenhar suas letras mortas no papel deste diário desgastado e febril.

Mas o paraíso não é marrom, nem branco ou colorido. É abstrato, efêmero e forte. Contempla a paisagem do meu espírito como se viesse do próprio atman. Laurien dorme chapada ao meu lado e o sol insiste em querer acabar com este dia que nunca deve deixar de existir. Enquanto houver saliva em minha alma irei lembrar de quando vi as trombetas celestiais entoando cânticos em favor da humanidade, em favor dos loucos que vivem fora dos hospícios oficiais e convivem com a insanidade da sociedade perfeitamente imperfeita que pintam todos os dias na TV e nos jornais, principalmente, nos jornais. Sendo mais objetivo, antes mesmo que eu me perca em devaneios, hoje, por sorte, apertei a mão de um iluminado e minha alma se tornou completa.

Laurien andava meio encucada estes dias, imagino que esteja insegura quanto a minha proposta de firmar a vida depois do Livro ser publicado – a previsão é que no máximo no outono ele já esteja nas livrarias e agora mesmo, daqui uma semana saia o prelo. Não quero ser mais um perdido apenas, quero poder sentir cócegas nos pés e respirar um saboroso café da manhã preparado por alguém que tenha dormido ao meu lado a noite inteira. Se não me ater aos motivos deste depoimento, irei esquecê-lo por completo quando acordar e meus olhos insistem em me trair. Para poder cortejá-la de uma maneira mais nobre e poética, vesti minha melhor camisa de botões e a convidei para um jantar romântico no antro da burguesia – Coach House. Gastei várias saídas em menos de 2 horas de uma vida que, no fundo ou no raso, não penso em ter. Foi bom, mas Laurien não me disse nada. Fomos embora pela Times Square felizes e vagabundeando sobre o mundo e as coisas que poderíamos fazer quando fosse um escritor de sucesso. De repente, enquanto falávamos sobre nomes eslavos para os nossos possíveis filhos, escuto meu sobrenome ser gritado no meio do trânsito leve do início da madrugada. “Hey K, venha conosco, Monk irá começar agora o show no Five Spot”. Eram Allen, Corso e mais um sujeito que provavelmente estava se metendo com eles.

Não pensamos muito e entramos logo no Buick 49. Sempre enchia muito o saco de todos dizendo que Thelonious  é o maior, o mais sincero e sensível de toda essa geração de deuses do jazz. Todavia não esperava chegar à conclusão nesta noite de que Monk não passa de um súdito na hierarquia musico-celestial. Um negrinho de olhos esbugalhados e cheio de raça comandava a adaga divina que amordaçou por mais de duas horas o meu enfermo e carente coração indisciplinado. Coltrane, John Coltrane este é o seu nome. Sei que já havia ouvido falar dele como integrante de alguns outros projetos, porém foi difícil acreditar que a perfeição não está no centro, mas ao lado. O som que enobrece seu sax tenor é destemperado e perfeito, breca, mas ainda assim emite melodias, é o paraíso que qualquer droga não pode me dar. Imagino que ele nunca irá lembrar do branquelo que fez questão de compará-lo a um deus egípcio, que insistiu em apertar sua mão divina. Estava em êxtase o sujeito, olhava nos meus olhos, mas enxergava de fato os próprios pensamentos e sensações – uma dádiva que tento alcançar, porém os demônios do meu karma impedem que o nirvana chegue nestas bandas. Ao menos me alegro e tento me animar para o resto com esta dose de harmonia e perfeição. Não vejo a hora de procurá-lo nas lojas de vinil. Peço a Deus e a Morpheus que me embale em sonhos suaves e contínuos, em imagens alucinadas e descontínuas da perfeição.

Bom dia, paraíso!

Kerouac Vs Einstein

Olho para o cinzeiro ao meu lado e fico espantado. Em pouco mais de duas horas, muito do meu pobre pulmão ali exposto cabisbaixo. Estou triste, depressivo. Não sei ao certo como escapar ao “demônio da verdade” – um sentimento louco que dá quando a gente não sabe ao certo por que é necessário continuar vivo. Senti isso várias vezes na “vida”. Em cada cilada quis que tudo se interrompesse. Mas acreditem, foi uma namorada que fez tudo isso ir para o ralo, uma poesia sem graça essa de querer morrer ainda jovem! Continuar lendo “Kerouac Vs Einstein”

Kerouac Vs Huxley

Era um típico cair da noite em Santa Mônica. Tinha acabado de deixar Frisco e iria encontrar Allen em uma conferência sobre literatura do pós-guerra. Naquela época a costa oeste inteira queria saber se existiria ou não uma nova geração de escritores americanos que poderia substituir a altura, caras como London, Hemingway e Wolfe. Antes de ir correndo para o hotel – os Reds Sox seriam transmitidos ao vivo pela TV, passei em um supermercado para comprar uma garrafa e algumas latas de conserva. De repente olho para o lado e dou de cara com um homem de seus 60 anos observando admirado a reação de algumas pessoas. Era um pouco surreal ver aquele coroa com seus olhos de coruja mirando e anotando mentalmente suas considerações a partir das ações os que ali estavam consumindo. Ele pareceu não dar conta de que, além de observador, estava sendo observado. Achei aquilo bastante engraçado e sai pela porta rindo. Ainda tive no pensamento que aquele sujeito parecia chapado, como se tivesse tomado alguma coisa e estava se divertindo naquele zoológico. Continuar lendo “Kerouac Vs Huxley”

Kerouac Vs Chaplin

Vou me permitir encerrar esta primeira parte com um novo parágrafo. Não quero transparecer qualquer tipo de ofensa a quem lê e se acostumou a ver os assuntos separados por vírgulas, pontos e parágrafos. Deixei sim, a faculdade no meio do primeiro ano por que não conseguia me ver adormecido no sonho americano, servindo a pátria de acordo com o poder oficial. Servir ao sonho da liberdade não é seguir as normas de um estado e sim, praticar cotidianamente a diferença sutil que atinge ao espírito de quem se afeta com nosso presença. É na hora de atravessar a rua, se impondo na frente dos carros que insistem como reis da civilidade, entidades mais importantes que os homens que os navegam ou que as almas que passam nas calçadas, quando cumprimentamos as pessoas nas ruas, independente da cor da pele, do tipo de roupa ou do lugar onde mora. Uma lástima cada vez mais aceita pelos jornais, corrompida pelo rádio e largamente inflamada pelo cinema são as famílias terem medo do desconhecido nas ruas e se fecharem num consumo desenfreado por mercadorias que garantiria a casa como o lugar de proteção. Não quero que o espírito que me habita e me habilita a falar sobre a verdade seja corrompido pelo sistema. Não vou ser mais um branquinho a trilhar o verdadeiro caminho da América. Continuar lendo “Kerouac Vs Chaplin”

Kerouac Vs Parker

Charlie-Parker-Indies

A primeira vez em que encontrei com Bird foi quando Ana Lee Morison estava entregue numa cama vagabunda de hospital. Quando cheguei para visitá-la, um negro em um sofá, usava chapéu e com uma expressão deprimida olhava profundamente para o corpo surrado de Ana Lee. Ele percebeu meu volume se aproximando e como se esperasse qualquer um, me disse: “rapaz, essa garota enlouqueceu a minha vida. Ela estragou mais o meu coração que qualquer droga fodida”. Olhei em seus olhos, cabisbaixos e viciados, mas não parei para respondê-los. Segui adiante. Ele parecia não se incomodar com o cheiro do lugar. Sempre me importo em classificar os bons e maus odores. Geralmente, onde há corpos doentes, há o pior cheiro possível. A doença sai de dentro igual merda, impregna tudo com sua sujeira interna.

Na época eu ainda tinha um lance bem místico, curandeiro. Passei a palma da minha mão direita sobre o corpo de Lee, enquanto a outra, pus na sua fronte. Fechei meus olhos e tentei me conectar com a divindade da saúde, queria que renovasse suas forças, que suas células fossem restabelecidas o quanto antes. Mas no momento de pensar sobre isso em termos de palavras mentais quase audíveis, um outro tipo de ideia invadiu minha mente: “porra, se lá é melhor do que aqui, por que Ele iria querer que permaneça desse jeito aqui! Quando será que se libertaria dessa maldita doença se minha reza funcionar? Se Ele estiver nos ouvino, Ele iria intervir, deixando ela sofrer mais com esse corpo moribundo”?

Desconectei meu espírito dessa verdade e insistia em concentrar energias positivas. O homem sentado, vendo meus trejeitos esparramou sobre mim algo que nunca mais saiu da cabeça. “ei cara, Ana Lee não quer mais saber desse seu Deus que faz sofrer aqui nessa terra. Ela quer ir embora, quer voltar para onde seus ancestrais nunca saíram. Deixa ela em paz, cara. Reza pra quem ficou aqui amigo. Ela já ficou numa boa”. Desconcertado, me afastei da cama. Já o reconhecendo, disse ao sujeito,”Ei Charlie, já te vi tocar o suficiente para saber o quão demoníaco é o seu espírito. Se bobear, você quer que ela vá para você se livrar dessa culpa!” Bird não se surpreendeu com meu texto, mas triscou sua língua nos dentes. “Ei moço, eu não te conheço, mas acho que não devia falar essas coisas na frente da Lee. Ela ainda tem o direito de morrer sem que dois homens se matem na sua frente”.

Alguém já havia me contado uma lenda do submundo em que vários caras se esfaquearam pelo amor de Ana Lee Morison e que muitas vinganças tinha sido realizadas e que muito sangue havia corrido em seu nome. Ana Lee Morison foi embora para algum lugar no dia seguinte à nossa visita. Depois disso, ainda encontraria com Bird algumas vezes e em todas ele passou a me olhar como se fossemos velhos confidentes.