Kerouac  Vs McCarth

Ok. Não gosto muito de comunistas. O que me intriga nesse tipo de pessoa é que são os mais crentes no homem, têm mais fé do que qualquer fiel e ainda assim conservam no discurso e na atuação a busca de uma salvação pelo literal, pelo o que os olhos enxergam e a mente pensa. Já perderam o sentido de comunidade que tem no nome e na herança primitiva. Repartir, compartilhar e desapego é tão complexo que fazer isso num discurso não impede do puto agir de forma contrária. Diz que não liga, mas é agarrado no dinheiro, diz que tá nem aí e tá aí pra caralho.

Me coloco nesse grupo. Passei uma infância muito maldita em que aos seis anos já assaltava as calças do meu pai. Comecei num dia em que o circo visitou Lowell. Meus pais dormiam no domingo e catei uns 5 dólares do “esconderijo” do papai. Subi na cadeira e passei a mão sobre o armário que ficava na sala. Peguei a nota e passei por todas as barreiras sem a menor dificuldade para uma criança de seis anos.

Desci a rua e cheguei bem perto da lona. Parecia um circo mais novo, com boas condições e roupas que marcam meu imaginário até hoje. Lembro do detalhe do brilho que davam os paêtes. Nunca tinha visto algo que brilhasse assim. Brilhante. Brilhante.

Fiquei na minha e consegui assistir alguns números por debaixo das arquibancadas. Gostei muito dos palhaços. Eles me fizeram perceber certos truques para arrancar sorrisos. E me encantei com os trapezistas.  Mas de repente algo me chamou a atenção. Uma moça com roupas ferradas e com um cheiro não muito agradável estava meio perdida. Procurava algo e não pude deixar de reparar em seu olhar de tristeza.  Ela conseguiu falar com um anão que não parecia ser assistente. Queria comer alguma coisa e quem sabe, entrar para o circo.

O dono do circo de pouco mais de 70cm disse à moça que as sessões estavam muito vazias e que tinha que alimentar 45 pessoas, três loucos e 16 animais três vezes por dia. “Olha, não te prometo alimentar sua barriga, mas tenho certeza que Diana ou o velho Horácio vão me convencer de que o melhor é acolher mais uma… De nós”. Ela sorriu, ele prosseguiu: uma mão sempre vai ajudar a lavar a outra. O circo começou em um dia qualquer como a humanidade e todos nós somos vagabundos. Não temos nem queremos ter casa, muito menos,  entendidos. Nossa fome é outra, buscamos outros alimentos”.

Voltei pra casa e não devolvi o dinheiro de papai. No dia seguinte, comprei um pão que nunca tinha comprado e na hora que abri o embrulho, preferi ter prazer oferecendo um alívio para os mendigos. Dividi, sorri, segui.

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