Kerouac Vs O agora

Vivo em mim a todo o instante passando pela relação ora ordinária, ora caótica da minha própria existência e co-existência nesse mundo que gira e nessa vida no chão regado de asfalto. Escrever seria como patinar com segurança num gelo fino, tocar um instrumento com a leveza de um sentimento, bater ao pano da esperança de se sobressair à própria miséria e à habilidade de se fazer miseráveis. Não existe um dia em que não sinto necessidade de mandar à vala uma quantidade enorme de julgamentos. A todo momento penso e em seguida, vem um valor, um juízo, uma sentença, um ponto de vista ou até mesmo uma “visão das coisas” invadindo o meu universo intimista e me faz ficar literalmente agarrado tentando sair dessa embaraçosa coisa que é dar conceitos e ter certeza racional para todas as coisas que podem existir no aqui e no agora. Por isso, escrever deveria ser como um jazz, não uma ciência, uma razão, uma peça da vaidade. Tathāgata! Tathāgata! Tathāgata!

Nesses momentos constantes em que a verdade se apodera do meu objetivo pontual que é bater o dedo na porra da máquina e fazer sair no papel o vômito ou o vinho do meu espírito, penso que muito das coisas que realmente podem importar nada mais são do que meros acasos em que a noção de natureza supera a de destino. Fico intrigado como alguns conseguem organizar tudo isso fora de si. Como montam coisas e ali, na matéria, dividem o que cada ser inanimado deve ter que fazer para que tudo funcione de forma mais harmônica para assim, no final das contas, para que aquilo que tinham pensado antes tenha se tornado não o desejo, mas o objeto desse desejo iniciado não se sabe quando, nem se sabe onde, mas que deixou a obscuridade da mente profunda e se deu para a razão e em seguida, serviu de ração para a própria ação.

Desisti de ficar lutando cegamente para superar o escritor morto que me motiva. Ele é como um cão que não gosta de outra coisa que não a linguiça que o serviram na casa anterior. Não há chance de aparecer outra coisa, ele não vai conseguir comer. Passei um tempo tentando negociar com esse espectro a possibilidade de superar a necessidade de ficar pensando sempre como se ele estive também pensando. É que no meu pensar, é como só fizesse razão tentar pensar como ele. Não escuto vozes, muito menos meus dedos escrevem sozinho. Sou eu, sim. Sim, sou eu quem escreve. São minhas angústias, minha falta de organização e pior, minha obrigação motoras, não sensitivas. Ele escreve ao meu lado, em uma outra máquina fora desse tempo e sem a necessidade de se transfigurar. Mas ele está ali e ali me importuna contando sua história pelo barulho das teclas batendo no metal da máquina de escrever. É terrível – não cômodo, saber que nada que eu tente, que faça, me fará conseguir criar um novo narrador, um novo mestre para o meu próprio aprendiz.

É melhor soltar o dínamo incessante de descalabros do que armazenar a vida em uma constante repetição de esquemas, fórmulas, estéticas. Ou mais: passar metade do tempo do mundo tentando lutar contra a própria flutuação dos conceitos que abarca a natureza das coisas. Umas da maneiras mais idiotas de um escritor ou melhor, do meu escritor, conseguir ficar dias ou meses paralisado é tentar começar criando personagens, cenas, motivações. Ele não sabe nunca em qual lugar a estrada vai dar e isso por um momento, me irritou profundamente. Hoje, escolhi subir em meu esqui e deixar com que o cão me leve. Sei que é o meu peso e meus olhos que sustentam o caminho, mas a força e a motivação nunca pertenceram apenas a essa vida, afinidade, existência.

Não tenho a mínima noção nem qualquer certeza do que virá a partir de agora, agora, agora,

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