Kerouac Vs O Jazz

Tu-de-dum-pak-tu-de-dum-pam- tum-tum-pra-ca-tum – as noites começam de dia. Há todo um ar que envolve o espírito compulsivo a já acordar sabendo como irá deitar. Mesmo que não tivesse lido em um jornal ou passado em frente ao Village, sabia bem o que iria encontrar aos sábados naquele pequeno pedaço do paraíso financiado pelo demônio. A calma do ambiente em uma frase de sax traz uma impressão cinematográfica do que poderá acontecer: sonhos lúcidos, mulheres incríveis e seus corpos da perfeição, uma conversa beatífica com um negro do subúrbio mais sábio do que qualquer um de vocês. Alguma coisa acontece com meu centro gravitacional e os membros do meu corpo que quando escuto os acordes eles ao mesmo tempo comandam partes oblíquas do boneco que me leva, bem como sobem e descem uma sensação infantil de que a vida se resume ao ritmo, ao som e ao que o olho pode ver, mesmo que permaneça a maior parte do tempo fechado.

Em uma dessas noites quaisquer em que já sabia que seria convidado a entrar em êxtase, pronunciava desde a manhã um certo assovio que competia com os pássaros do parque. Hoje, posso lembrar e perceber que é bem possível que de antemão já anunciava pelo bico de minha alma o edificante por-da-lua que teria. Não foram raros os dias em que mesmo não pretendendo nada, consegui viver o momento. Acho que é essa confiança na passagem, na transmutação e na impermanência que me deixou desde cedo dotado na fé de que a razão – já que a especulação nem sempre é a porta para a segurança pessoal. É preciso ter talento para deixar com que o exagero alcance seu predomínio e tudo aquilo que ora fora proibido, agora era o desejo urgente e intransponível.

Balancei meu corpanzil pelas ruas e subterrâneos de Nova York em direção ao improvisado acaso da casa de jazz. Sabia que naquele dia seria possível ouvir os melhores e não me dei conta de olhar bem para o cartaz que selecionava o que iria acontecer naquela noite. Fui. Simplesmente, fui. Nunca me acostumei a tomar rumos por mim mesmo. Vaguei sozinho, mas de alguma forma sempre sabia que iria encontrar irmãos da alma, da nova visão. Os vagabundos iluminados estão pelo caminho. E naquele dia era assim.

Cruzei a porta do Village e percebi um clima hostil. Minha empolgação juvenil começou a ser drenada quando percebi que havia quase ninguém no lugar. Não entendi porquê. Era uma noite linda de primavera, quente e convidativa para o som. Talvez fosse cedo, mas não. Já passavam das 11. O palco estava vazio. A não ser o velho e sábio piano iluminava o centro das atenções. Fui ao bar e troquei algumas ideias com os camaradas da noite. Nenhum deles podia me dizer ao certo o que estava acontecendo. Fiquei desiludido e preocupado: meu teor de energia estava nas alturas e se não fosse a música, seria o álcool e as drogas que me tragariam naquele momento.

Não tinha visto o cartaz nem os garçons tiveram coragem de me dizer. Aquela noite era uma ocasião diferente. Era um dia em que pela primeira vez um europeu, do leste, se apresentaria no bar mais africano da América. O romeno Hagyu e sua banda cigana traziam à cidade uma fusão entre o jazz americano e a melodia dos balcãs. Era o que dizia o cartaz que não li. A verdade era que na noite anterior, um homem qualquer invadiu o Village e esfaqueou várias pessoas. Ninguém morreu, mas aquilo feriu a coragem de quem leu jornal ou ouvira a rádio. Como eu não li nem o cartaz, fui.

Depois de quase quatro doses, um sujeito alto, nem tão forte, mas firme em sua postura, aprumou sobre o palco com um sax soprano. Usava uma espécie de lenço na cabeça e exibiu um bigode como os dos estivadores europeus. Suas feições lembravam um pouco os judeus do velho mundo, mas sua pele continha um quê tropical, como se sua origem fosse algo próximo ao sol. Consigo, três outros discípulos se punham como músicos e mais bem comportados. Apesar de também aparentarem as mesmas origens, com suas roupas e acessórios típicos de um povo nômade. Havia um violinista, uma rabeca e também, um acordeon. O piano não seria tocado naquela noite.

Com seu soprano e, às vezes, com um violão mágico de onze cordas, o gran cigano encantou a atmosfera daquele lugar consagrado. Sua música completamente destoante do timbre seco e agudo da bateria americana, tornou o ambiente uma espécie de apologia ao caos. Corríamos – éramos pouco mais de seis pessoas – de um lado para o outro, balançando nossos corpos e cabeças de acordo com o ritmo que ora era rápido e violento, ora sincopado e romântico. Com acordes simples, mas maduros, a música do leste nos mandava para um lado com toda a lentidão dos movimentos sugeridos pelo acordeon. Entretanto, de repente, sem mais nem menos, o violino e sax introduziam melodia e velocidade impedindo que continuássemos na mesma toada, voltando com graça e organicamente para a posição inicial. Rápido, lento, rápido, lento…

A noite se foi, meus pés também. Parei de tomar quando percebi que, triunfalmente, jogava o líquido de meu pequeno copo no meio do grande vazio aberto em frente ao palco.Saudei o gran cigano diversas vezes e até tentei me comunicar telepaticamente. Disse por meio de meus pensamentos que aquele momento era uma expansão, o engrandecimento da música, do improviso, da mescla cultural. Uma necessidade que até então não havia percebido como concreta. Deixei qualquer padrão de lado e concluí que o jazz-improviso-som-da-alma-do-sopro-e-da-mão não pertencia a qualquer nação ou povo. Não vinha da África, mas da alma. O jazz-improviso-som-da-alma-do-sopro-e-da-mão era a grande mãe nos dizendo que tudo e qualquer coisa que exista ainda assim é muito pobre para descrever a sensação de tocar a divindade pela matemática que há na operação música-músico-ouvido-corpo-e-alma. O mundo é um lugar muito pequeno para tanta gente grande ficar distante milhas. Queira eu um dia poder receber na minha casa as ondas desses outros lugares em que a música é taxativa em dizer: nossa origem é a mesma; o som primordial do beat nos toca da Sibéria à Polinésia, da África Central à Irlanda. O mundo é diverso. O mundo é um só. Ele é música e essa, nunca termina, sempre começa, recomeça, vai de novo.

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