Kerouac vs o Fim

Daqui sete dias chego ao ponto em que já me sinto honrado de ter alcançado nesta vida. Não preciso mais do que 33 anos. Sei que deixo obra ainda fragmentada, incipiente e que valeu muito mais de aprendizado para mim mesmo do que para os outros. Ao meu ver, uma falha do bodhisattva. Espero que aqueles que correram comigo possam dizer aos que ficam e para aqueles que a memória não consegue recordar, que meu sopro para essa morada foi uma ideia de como as coisas poderiam ser pensadas. Não acredito na miséria humana nem que somos marujos de primeira viagem. Essa vida é quase uma piada. Levá-la como sempre se levou, é uma forma de ruína.

Nasci em uma cidade do interior, mas não em uma vilinha ou algo pequeno e afastado como um rancho. Éramos uma cidade como nos moldes europeus, não na imensidão e no tamanho da ganância americana – fábricas, dormitórios, comércio. Assim,cotidianamente o capital cobrava suas obras ao povo. Meu pai era dono de uma gráfica. Ali aprendi o gosto pela redação. Fui jornalista e editor ainda em Lowell. Lia os jornais de Boston e os que vinham de Nova York. Ouvia todos os programas de rádio possíveis.  Acreditava que minha função nessa vida era dizer para as pessoas sobre as coisas. Mas sempre achei muito difícil colaborar para que as palavras saíssem conforme o “melhor para as pessoas lerem”.

Nessas cidades médias, há ambições de grandes centros, mas tradições ainda presas às pequenas castas formadas em torno daqueles que ali povoaram. São imigrantes, pessoas com religião ou origem diferente. Os poucos árabes que moram em Lowell, por exemplo, são todos turcos. Não há distinção se são da Síria, do Líbano ou do Iraque. São todos turcos. Os gregos conseguiram se distinguir entre as outras nações. Porém, como têm similaridades com os albaneses, que não são turcos, mas também absorvem algo dessa cultura, muitas vezes é possível ter comunidades com esse hibridismo e na rua, pode haver de um grego ser chamado de turco, pois fora confundido com um albanês. Entretanto, a grande maioria dos que vivem em Lowell são de origem franco-canadense, como os da minha família, ou descendentes de alemães luteranos e ingleses. Nada diferente de um ideal branco, cristão, paternalista. Sem muitos negros ou índios. Aliás, nós, os franco-canadenses católicos, talvez éramos o grupo menos ocidental, aquele que havia já se diluído entre os povos originais e os franceses, ainda no século XVIII, mas aqui, no novo mundo.

De repente, meu pai perdeu tudo. Ficamos em um fúnebre inverno e tudo parecia que iria desabar. Mas o velho foi forte e prosseguiu e conseguiu forças para alcançar novas passagens. Trabalhou como nunca antes na vida e reergueu aquilo que parecia que iria se romper. Humilhou-se servindo aos caprichos de seus antigos concorrentes, agora, patrões. Estancou a derrocada e nos apresentou a uma vida bastante diferente e ao mesmo tempo, digna e próxima ao que realmente é – a vida de fato do espírito  livre e o homem impedido na matéria. Eu me libertei de vários daqueles sonhos iniciais. Queria reconhecer a minha alma e fazer sobre o mundo a realização do pensamento livre. Não queria ter coisas, queria momentos. Não queria ser alguém, queria ter gente de verdade por perto, pensando sobre a nova visão, sobre a vida não apenas mais como o sofrimento do cristo, mas de sua tentativa em fazer soprar o grito de indignação na alma em relação à vida e as cobranças da sociedade. Cotidianamente, eu queria viver.  Não sabia  se cria mais na biologia ou na cristandade ou se havia uma justificativa que contemplasse o místico e o racional. E ir para a cidade grande foi a contemplação de todas as possibilidades de completar o corpo com a vontade.

Vivo na maior cidade do mundo há mais de dez anos. Quando cheguei aqui, meu pai foi embora e vi triste o corpo da minha mãe se levantar todos os dias restantes para ir às lides de produção e assim, poder comprar o papel para a minha vida. Passei noites em claro escrevendo sobre o vácuo da experiência de ser um espírito amalgamado a um corpo e a um corpo social. As drogas e as bebidas foram ferramentas para curar a incerteza do dia seguinte e a doença incurável do vagabundo. Na cidade grande, aprendi que todos os homens são idiotas perante a si mesmo. Olhar de fora de si e sobre, lhe garante entender muito da própria pequenez das escolhas coletivas. Usei e ainda uso roupas que não sei de onde vieram e nem para onde irão. Todas elas contam histórias de seus donos mortos ou mortos de fome que dela se desfizeram ou foram desfeitos. Algumas me falam sobre a vida sossegada que levavam no subúrbio até que as brigas começaram e a solidão ocupou aquela camisa. Botas são minha especialidade em compras de segunda. Nada melhor do que uma de couro já amaciada. Se pretende se lançar pelas estradas, nunca compre sapatos novos. Use aqueles que já tinha ou procure um defunto que calçasse seu número.

Em todos estes anos, nesses próximos sete dias, queria mesmo saudar o beat. A frequência gama do jazz e o desapego do buda. Que meu espírito possa se mexer nessa caixa oca desejante e egocêntrica. Que meu corpo possa se libertar de suas entidades sociais. Uma mosca tem todo o seu ciclo completo em sete malditas noites. Eu terei pela frente sete passos para sete palmos. E isso não me deixa inseguro, mas felizmente íntegro. Sei que vivi mais para mim do que para os meus, mas mesmo assim, sinto que em uma próxima oportunidade, depois de purgar na inércia da imaterialidade, voltarei ainda mais revigorado e doravante preparado para não precisar me privar das vergonhas que agora sinto. Ser gigante diante de si e ser um anão perante o mundo, esse é o desafio. Não se sabe se vivê-lo ou se sobrevivê-lo, mas com certeza, andar pelo fino meio-fio da vida ainda é a única coisa que nos resta nesta semana.

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