Kerouac Vs a Criança

O homem pode esconder do mundo qualquer coisa que se vista – palavras, roupas, discursos, medalhas… mas há nele algo que não tem como fantasiar, mesmo que as memórias lhe sejam favoráveis ou senão falsas, fabricadas dentro de uma lógica. A própria consciência é inegável. Sim, e isso é claro, por mais tenebroso que possa parecer aos olhos dos outros. Hoje, tenho 45 anos e sou um homem triste, solitário e muito amargo. Esse foi o meu caminho e sei que quando estou aqui, diante do papel e da estrada, nada me faltou, nem mesmo minha consciência, minha culpa e minha dor. Só agora percebo que sim, o fundamental ficou abaixo do que pude enxergar.

Não adianta querer vestir de sonhos ou jorrar minhas mazelas, a máquina não me pergunta o que eu não quero ouvir. Mas eu sim. O grande eu que me atormenta desde sempre, desde o momento em que meu irmão morreu, desde o momento em que eu decidi navegar a vida além do esquadro que me meteram. Quando tive consciência da morte, sua figura me deu a vida. A vida de um homem tragado pela impossibilidade de estar em todos os lugares ao mesmo tempo, em todos os mundos e em todas as pessoas. Foi dali que pude perceber que a dicotomia que tanto se falava na missa era uma precariedade. A relação de oposição entre corpo e espírito era, em verdade, uma falsa ilusão do que é a vida. Esse sopro pesado e material não pode ser visto apenas com os dois olhos. São três: os do corpo e aquele que vive na alma. Por isso, corpo e alma são ao mesmo tempo dois, mas também, é um e são três.

A sutileza como os pensamentos e os medos penetram em nosso corpo não nos permite admitir que ou há vida ou há nada. Há vida e há nada. São duas as asas que nos acompanham. E a consciência é a tábula rasa que dá combustível para poder voar. É essa qualidade do que se esconde, porém se revela, que ocasiona a ingrata tarefa de criar ilusões. Sua verdade é tamanha contraditória que passamos a vida inteira negando que o sutil e o chumbo são partes de uma mesma jornada. Que ambos se tornam o mesmo a cada segundo em que a mente e o corpo atuam. Não é possível criar um lago de lodo e ficar nadando sempre em divagações, digressões, dando voltas em torno do ponto ao qual, realmente, a chama está ativa. Não posso mais esconder de mim e de minha memória o quanto me arrependo de apenas uma coisa em meio a tantas outras coisas que poderia ter desejado ter sido diferente. É, justamente, nesse momento que consigo, finalmente, me dividir para me individualizar. Todas essas palavras foram extremamente vãs. Não dizem do que quero dizer, pois ainda é para mim, algo que não desceu ao corpo. Não posso enxergá-la com as vistas orgânicas. Não sei ao certo quanto tempo terei para encontrá-la, para vê-la, para saber em minhas revisões – como essa, que tentei dar ao assunto que importa nesse momento. Talvez, narrando um fato seja mais simples e fácil. Criar um poema com metáforas em que só o autor pode saber seu significado é talvez o ápice do orgulho e da falta de fé em si e na admiração do outro. Falhar em todos os outros aspectos é possível, mas precisamente neste, naquele que compete a cada alma saber, é imperdoável.

Só agora percebi que na Flórida o inverno não acontece como no resto da América. É meu primeiro ano completo aqui e nesse, pela primeira vez em quatro décadas, o frio de fora não foi o suficiente para aplacar o frio de dentro. Hoje, fui ao supermercado e me tornei sensível aos olhos de uma pequena e linda garotinha. Ela estava acompanhada de seus pais e, provavelmente, não tinha nada de especial, a não ser o fato de que seu corpo ainda jovem e imaturo, não brecava a naturalidade e a natureza do espírito. Imagino que todas as palavras engraçadas e todas as sacações que teve não são exclusividades suas, mas de uma idade de nossa espécie. De um tempo em que na Terra, o céu fala mais alto. Na hora, me lembrei de quando era pequeno. Remontei às minhas memórias mais infantis e tentei me vestir desse mesmo vinho. Claro, já estou rabugento e minha mente cada vez mais me exige sair desses estados o mais rápido possível. E só aqui, na alcova do escritor, consigo, em lágrimas, verter as verdades que me aprisionam. São algemas invisíveis que meu orgulho e individualismo não me permitiram expandir em 45 anos de vida. Até então, minha visão de consciência tentou esconder em meu íntimo a pedra angular da existência. Sabia ela que como um casamento, a singela verdade me faria escolher entre frear a busca pelo beat ou encontrá-lo nesse mesmo breque.

Neguei minha filha como se nega a cortesia de quem não lhe interessa. Hoje, penso no quanto privei sua alma de estar ao lado de um espelho que acolhe e lhe deseja bem. Nunca tive qualquer sentimento por ela a não ser o repúdio por sua mãe. Transferi para seu significado o que não queria pensar para minha vida. Agora, em menos de doze horas, tudo aquilo que nunca senti foi possível tomar em meu espírito e vontade como uma labareda de desespero e impotência diante a entropia da existência. Quando já materializo seu corpo em meus braços, meus pensamentos se esvaem em constatação ao óbvio: ela já tem mais esse peso e dimensão. Ela, como o tempo, não volta. Mesmo que amanhã eu pegue o telefone e encontre sua voz, já não sou e nem serei mais o mesmo homem que poderia ter sido com um ser tão fiel à natureza da alma como foi uma criança. Todas as palavras foram vãs, todos os sorrisos e aplausos e loucuras e prazeres. Tudo isso não ocorreu em minha vida. Tudo isso passou como o espírito. Talvez se tivesse acariciado seu rosto, podido querer sentir seu torso em meus braços, ouvir suas palavras erradas e seus insights… talvez se tivesse dado uma chance de ter desejado isso quando ainda era mais alma do corpo, talvez não estivesse entendendo o peso da falta. Não creio, mas gostaria muito de acreditar que haverá um outro J, um outro louco, um outro beato que me ocupará na próxima vida com esse valor. De agora em diante, o que me angustia é saber que para entender o que sempre quis saber – sobre o casamento entre o corpo e a alma, somente com o passar do tempo e das vidas. Somente após experimentar o sabor misteriosos da morte e do renascimento que poderei entender qual é o verdadeiro caminho. Assim, permito-me morrer o mais o rápido possível, pois a ansiedade para que a próxima vida aconteça já bate e abastece meu espírito.

A felicidade do homem está na criança. É dela a possibilidade de se enxergar o espírito de tudo, a natureza e o propósito. Se não fossemos tão cegos quanto ao mundo sutil da esperança, talvez fosse menos dolorosa a vertigem de ser adulto, velho e morto.

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