Kerouac Vs o Seu Cadáver

Existem dias que são quentes. O ânimo parece maior e mesmo que haja frio lá fora, seu espírito está disposto a enfrentar qualquer situação escrota que impeça o menos bravo de se divertir. Entretanto, há dias que são mais gelados e mesmo ao sol, nada consegue fazer com que a alma se levante e adore a vida. Há décadas – sim, possuo décadas de pensamento sobre meus próprios pensamentos, anos em que cotidianamente e enfadonhamente, analiso minhas ações, sentimentos e construções mentais. Desde cedo essa máquina começou a operar em mim e nunca consegui fugir muito de sua perseguição. Sei que isso também sempre esteve corrompido pelo amor cristão que desde cedo me foi fundido: “a culpa é sempre sua John. Foi por você, para redimir seus pecados que pregaram o Salvador na cruz. O sangue que dali jorrou era para limpar a sujeira de sua essência”. O que realmente me incomoda é que nos dias que não são nem quente nem frio, a culpa me destrói em melancolia. Culpo-me por amar o trabalho, mas por querer, finalmente, trabalhar por aquilo que admiro e sinto tesão. Entretanto, culpo-me ainda mais por querer só ser um escritor e isso não garantir nem um pequeno pedaço de qualquer coisas na vida, seja um feijão, seja um anel de luxo. Minha riqueza não passa à matéria. Não sei se aguentarei mais tanto tempo dessa maneira. Acabo que imagino que irei desertar e jogar num caminho sem volta que não me leve para outro lugar senão a canaleta da miséria. Ao menos ali, não será preciso cumprir papeis e exigências que enojam minhas entranhas mais sinceras.

Hoje, tive a impressão de estar quase todo submerso em uma lama fedida. Meus olhos apagados pelo breu, meu corpo ensopado de uma água suja e molhada. Não sentia o frio, mas sim o pegajoso. Talvez seja essa a sensação do recente morto: um naco de consciência em um corpo que já não mais responde, porém deixa sentir a própria decomposição. Praguejo contra a vida porquê sou um homem orgulhoso que um dia achou que seria possível viver apenas por si e pelo amor ao mundo e a todas as coisas que não fossem ilusões criadas pelo próprio homem-demônio para se auto-enganar e assim, nunca conseguir encontrar o caminho de volta para o momento inicial. Sou um cadáver em meio aos vivos que já não vislumbra mais qualquer sentido pela honra ou mesmo, pela glória. Acho essa sociedade e todas as suas coisas tão tolas e sujas que não me sinto a vontade para ser alguma referência. Aliás, o que prevejo é algo que vai ao contrário disso: pegarão minhas palavras, meus pensamentos-textos, meus gozos literários e usarão como melhor lhes prouver. Seja para vender uma verdade, seja para vender um monte de papel pintado de preto e que falam ser um feito de alguém que pisou nessas bandas.

É para isso mesmo que viemos para cá?! Para criar coisas para que sejam apreciadas e vendidas?! Ou pior, para que usem de nossas ferramentas naturais, nossas mãos, pés, bocas e todo mais para realizar tarefas e assim, garantir o troco e uma possível felicidade para alguém ou para um grupo? Se for para isso, peço sinceramente para que na próxima vez que me acordarem que seja em uma época remota, onde a subsistência tivesse um pouco mais de ação.

Outro dia andando em Frisco encontrei com um certo Manolo. Sujeito interessante, um artista que não sabia manejar um pincel, mas que poderia criar cenas incríveis com outros objetos e isso, ao vivo. Impressionou-me o fato dele não querer vender seu talento em uma esquina ou circo. Dizia que estava pintando a vida real em meio ao ar corrompido da sociedade americana. “K. os carros, caminhões, o stress das pessoas, suas ambições e agora, até a música e a literatura não passam de coisas que alimentam um enorme e discriminatório sistema. As pessoas acham que estão fazendo algo, mas continuam a percorrer o mesmo espaço. Não quero pensar que aquilo que posso fazer por mim mesmo, aquilo que percebo ser o que sou, minha singularidade, seja vendida como se fosse uma banana colhida de um cacho da Costa Rica”. Achei genial, mas também fiquei preocupado em saber como ele conseguia manter seus 70 quilos fazendo esculturas corporais ao esmo durante o dia. E é essa a pergunta fatal, aquilo que me entope o coração e me deixa completamente intranquilo: como conseguir se encontrar sem se submeter a uma lógica em que seu corpo e sua mente estarão sujeitos aos caprichos e objetivos de outras pessoas e isso, sabendo que não sou herdeiro nem minha sorte costuma aparecer na loteria?!

A sensação de estar enlameado é a minha lamentação por enfrentar o dilema dessa vida escrota que o homem preparou para ele mesmo. Conquistou o bárbaro, derrotou a ignorância, fez emergir a luz e o máximo que consegue é tentar enfiar na cabeça da sociedade (e de uma sociedade jovem) que o importante é possuir, é ser visto, ser famoso, ter uma possibilidade de poder sobre aqueles outros que aparentemente não possuem nada de especial. Houve um tempo que meia dúzia era rica e o resto, extremamente pobre. Triste da alma que nasce agora, quando o miserável é forçado a sair de sua condição e o milionário se aproveita da imensidão que dali parte para o mediano da vida econômica e prende a urbe sedenta por uma vida digna como um cão em sua coleira: trabalhe para mim ou morra na sarjeta! Se mate trabalhando na minha sarjeta e morra para você! O homem perdeu seu espírito e não foi na guerra, foi depois dela. Foi quando ele achou que havia vitoriosos. Somos todos derrotados e isso não é necessariamente ruim. Embora não seja nada.

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