Kerouac Vs O Amadurecimento

O mais interessante dessa vida é poder olhar para atrás e ver como as coisas já não são mais as mesmas. Não é aquela balela simples de falar sobre como que a vida muda, como as pessoas se transformam ou como as coisas eram diferentes quando você tinha vinte e poucos anos. Falo mesmo é de como o meu arranjamento para a própria existência deixou de seguir um ideal que em outro tempo parecia ser a única estrada a perseguir. Não nego esses sentimentos que habitavam em meu espírito no passado – a sensação quente de poder querer compartilhar a vida com qualquer coisa, lugar ou pessoa e dali tirar um proveito momentâneo ou duradouro. Só que no agora, essa operação já não tem mais que ser resolvida. Não cheguei a uma conclusão sobre aquele período, mas acho que, na verdade, o resultado não importa ou pelo menos, nunca se revelará como se espera.

Parece que há mesmo algum tipo de programação em que o calejar do tempo vai batendo como se fossemos uma espécie de escultura a ser moldada e naquele momento, a mão ou o joelho tinham sim, esse formato impregnado de coletivismo e busca. Porém agora, a machadinha já não tem mais a disposição para quebrar a vida do mesmo modo, nem eu, hoje, construiria uma peça com esse formato ou dimensão. Foi assim, disso sobrou o pensamento do agora, mas a modelagem, se me for permitido, não será mais da mesma maneira. Foi do jeito que tinha que ser, naquelas mesmas intenções e intensidade. E ao mesmo tempo que admito que não faria determinadas coisas, assumo também, que não me arrependo exatamente das rodas que fui capaz de mover com minhas ações, palavras e pensamentos. É um paradoxo que vale o entendimento sobre a vida. Não faria de novo, não me arrependo do que fiz. Sou forçado a crer que o que restou daquilo é o que pude ser e fazer; e negar isso seria ir de encontro à riqueza de uma vida, como a de qualquer outra pessoa ou bicho ou coisa. O presente é sim, o resultado do passado, por mais que isso possa atormentar as almas cristãs e aquelas que temem o karma.

Lembro de quando o que eu menos valorizava era a tradição e tudo aquilo que pudesse passar por ela. Família, hábitos sociais, moda juvenil, tudo isso parecia uma espécie de tormenta e não havia porquê idealizar outra coisa que não fosse o contrário disso. A mim era quase impossível querer seguir adiante como havia sido imaginado por meus pais, pela minha cidade, pelas pessoas que tinham a minha idade. Era um suplício ter que me vestir de tal maneira para estar em tal lugar. Usar tais e tais expressões para parecer simplesmente integrado com as pessoas e as coisas. Era um tempo difícil para mim e também para aqueles que acreditavam que as coisas deviam andar dessa forma. Não conseguiam achar qualquer graça no meu modo de vida e a mesma coisa eu pensava deles e do que queriam para a minha experiência naquele momento e no decorrer da estrada. Sofri internamente a tormenta de querer me libertar de algo que parecia claramente uma amarra, mas que pra vencê-la, não seria como deslizar no gelo. A vida enquanto se é mais jovem, para os olhos de quem não está ali dentro, parece ser de uma sutileza que não se encontra entraves. Entretanto, não! Não é fácil habitar o mundo quando se tem por dentro uma sensação de inconformismo até mesmo com a própria juventude e com os caminhos que a ela se reserva na sociedade.

Durante muitos anos, a expectativa ideal era viver de lugar em lugar, de pessoa em pessoa, de momento em momento. O máximo era poder gastar horas de vida em meio ao inesperado e torto. Olhava com admiração para mim e via que eu era especial, não porque quisesse algo exatamente especial, mas por tentar viver cada segundo como se fosse mesmo aquele segundo e não uma mola para um outro tempo. Como disse no início, não nego que seja assim para alguns e assim o foi para mim também. O que aponto, na verdade, é que aquilo valeu e vale daquela forma para aquele tempo. Hoje, já não me reporto a vida dessa maneira. Não sonho mais em viver em uma espécie de clã; não desejo mais ver passar pela minha cama a quantidade de pernas que já passaram, nem andar por aí, simplesmente, sem rumo. O caminho, sim, o caminho sempre será percorrido. Entretanto, nem sempre o veículo e a paisagem serão os mesmos eternamente.

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