Kerouac Vs Saturno

Quando comecei a ter ideias próprias, não necessariamente significou ter ideias originais nem mesmo, inovadoras. Passei por algumas fases de pensamento e postura que, mesmo que se enquadrem dentro da lógica capitalista, ocidental, branca, cristã e machista, nunca deixaram de questionar a isso mesmo. Não gosto de ser produto do meio que habito e isso me machuca cotidianamente. Assim, escolhi desde cedo remar contra a maré, mas tomando fôlego na margem do meio. Não consegui sempre, de fato. Representei o papel fenomenológico de uma homem ocidental, mas de alguma forma isso também serviu de aprendizado e não pode ser nem julgado nem condenado, ainda mais por quem possa admitir que nunca, em hipótese alguma, foi contaminado pelo contraditório.

Na verdade, não estou muito aí para nada. Só quero poder ter emoções sinceras sobre a vida e a existência. E talvez não haja época mais louca em que sentimentos e coisas acontecem na sua frente todos os dias. Não que nunca tivessem acontecido, todavia eram necessários por uma questão de sobrevivência, não como hoje em que a cada esquina me oferecem empadas e suas azeitonas. Não passo mais tanta fome. De qualquer coisa. Mesmo assim, passo fome de vida em determinados momentos ou dela lembro ter sofrido e ficado faminto. Fui para as ruas com um olhar vidrado, enlouquecido mais por ela estar acontecendo do que por aquilo que poderia se tornar. É o seu trânsito e suas contradições, em todos os espaços possíveis ocorrendo exatamente ao mesmo tempo. Em um segundo que dura vários, movimentos, corpos, sons, razões são despertas e alertadas, utilizadas e concretizadas na sua frente tal qual um jardim, um suicídio e um passageiro de ônibus que não cumprimenta o motorista que nem mesmo faria questão, mas ainda assim, nota a indiferença do trocador que, realmente, não sabe nem porquê está ali.

Não penso em desistir da humanidade, até porquê nossa programação já está feita. Independente da minha matéria (jornalística, se for o caso), não há como negar que somos simples fatos.O que eu aconteço hoje, não significará nada a mim amanhã, mas pode ser o início da vida de um observador. Meus atos e vontades podem ser meros automatismos, porém podem ser disparadores de segredos, caçadores de recalques, estimuladores corporais e espirituais.

Todo o problema de nossa espécie se concentra no Tempo e esse, para mim, não é o mais temível. Sou amigo de Saturno, ele é nosso avô-trovão, nosso preto velho. Dá sim, para viver e ser vivido. E dura para mim não o tempo que durará para o outro, mas sim, o tempo que me cabe viver.

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