Kerouac VS a Modernidade

Existem momentos na vida em que qualquer vagabundo ou sábio entende que é preciso sair fora. Inclusive da estrada. Havia em mim uma dor que não compartilhava com os executivos de uma empresa, nem com o operário que acorda aborrecido, mas ri no refeitório satisfeito com a ração que pensa que é de graça, mas é paga com o seu suor diário. Muito menos a dona de casa infeliz que espera o marido chegar bêbado de mais de um dia de trânsito e pressão. Só mesmo aqueles que vivem se arrastando pelo asfalto e os ascetas entendem que essa vida de pó preto, sirenes e gente ao redor é algo ilusório, maya.

Arrumei meu kit de vagabundo da montanha e do mar e rumei para Big Sur. Estava em Denver e arranjei uma carona com duas loiras com lenços sobre o cabelo e batom rouge nos lábios. Elas estavam também de saco cheio de suas vidas de secretária em Nova York e resolveram partir para a Califórnia tentar uma vaga em Hollywood. Não sei se tinham talento artístico, mas sabiam conversar como ninguém. Astride era a mais alta e a que dirigia o conversível. Mostrava-se um pouco entediada com a minha presença e no início só respondia o óbvio. Charlene, mais fogosa, logo se interessou quando disse que era escritor e que havia escrito um livro. Queria saber o que era verdade e o que era ficção no que tinha feito e como era fazer com que tantas personalidades inspiradas em mim mesmo coseguissem criar vida própria.

Apoiava minha mão nos dois bancos e chegava minha cabeça entre as duas e falava, falava e falava. De repente, Astride pareceu ter se interessado pelo papo e foi a vez da gente ouvi-la falar por quase 100 Km sobre o que achava dos homens, do natal e da maneira como as mulheres eram tratadas na América. Sua visão não era simplista e até chegou a incomodar o meu pensamento de macho, branco e do leste. “Cara, você nunca vai entender uma mulher de verdade. Vocês acham que dar coisas como flores ou chocolates é o suficiente para a gente abrir as pernas de segunda a segunda. Não, meu camarada, não mesmo. Meu chefe é um escroto. Toda vez que tenta em vão meter aquela coisinha ridícula que tem dentro da calça, se sente culpado e me manda, como se fosse uma vingança, encomendar flores para a imbecil da sua mulherzinha que fica em casa cuidando das crianças e dando um tapa no pó da cozinha”.

Mais conservadora, Charlene queria um homem que lhe desse conforto e fosse “amigo”. Sabe, disse a moça, não acredito em amor mais. Entretanto, quem sabe, um dia me arranjo com um cara legal que não vai querer mais outra coisa se não a mim. E falava isso e suspirava e olhava para o horizonte sonhando com esse seu príncipe que não a amaria – e, nem ela a ele, em seu íntimo sincero, mas lhe deixaria confortável para dizer para todo mundo que tinha um homem que estava com ela e tudo mais.

Quase chegando à fronteira da Califórnia, passamos por um acidente horrível. Uma família inteira tinha morrido sobrando apenas um rapaz de traços indígenas e muito desconsolado. Naquele momento, ficamos em silêncio, cada um pensando no próprio sentido pra vida. Tive mais e mais certeza de que deveria ficar um tempo longe de qualquer coisa que me lembrasse da civilização. Estava de saco cheio desse sofrimento por conta do progresso inútil. Será que se ainda andassem em cavalos, uma curva escrota teria matado-os? Enfim, também não dá para saber se o destino se cumpre em seu exato momento. Estamos em 1954 e nada mudou realmente no preconceito e na vontade das pessoas, Acho que aquilo nos deixou bastante impressionados e tivemos que parar em um bar na estrada e encher a cara.

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