Desde 13 – capítulo 1

Não dava meio hora para a merda começar a acontecer. Eu tava passando do lado de um moleque de preto e cheio de pedras portuguesas nas mãos. E ai, o que vai rolar? – perguntei num tom mais baixo pra ninguém escutar. Ann, balançou a cabeça com uma expressão sisuda. Olhou pra própria mão, olhou pra mim, parou uns milésimos de segundo, deu meia volta e saiu fora. Fui seguindo-o com olhar e percebi que na frente, mesmo se misturando com a multidão, encontrou com algum comparsa. Ele se abaixaram, trocaram alguma coisa. Fiquei nos calcanhares para ver se conseguia enxergar o que estavam trocando. Não consegui. Olhei para o outro lado e vi o Vargas. Ele não notou. Tentando perceber qual seria a sua reação, fui o corpo na direção diagonal ao meu companheiro. Tentava medir se ele conseguiria enxergar os moleques ou se os ignoraria. Torcia para esse último detalhe acontecer.

Vargas me viu olhando e abaixou a sobrancelha, fazendo o sinal típico de quem reconhece um colega. Desviei minha rota e parei na frente dele. Fiquei de forma a “dar cobertura” aos meninos. Não queria que nada desse errado. E ai, 37? – cumprimentei. Tudo ok, capita. Daqui a pouco, comecei, vai começar uma algazarra. Vão quebrar vidros e jogar pedras nos fantasiados. A gente vai fazer o que, 37? Não deixar acontecer, capita. Ah, mas vai sim, 37! Mas, capita?! 37, eu te trouxe pra rua hoje. Eu sei o que você está passando em casa. Sinto muito pelo seu filho. Mas hoje, te trouxe aqui para se libertar. A gente vai quebrar a porra toda. Vargas apenas sorriu de lado. Vamos lá!

Não deu outra. Dali 28 minutos as latas de lixo já estavam pegando fogo, as bancas pichadas e o doce ruídos dos vidros grossos dos bancos sendo despedaçados. Um sinfonia para o meus ouvidos. Vargas e eu entramos em um deles. Aproveitamos para espancar com força um caixa automático.

Junho 2013-21.jpg

Do lado de fora da agência, uma cambada invadia uma loja de chocolates e outra de chinelos. Muita gente fodida com o calçado na mão. No banco, ninguém tinha um chupa-cabras pra pegar a grana. A rua estava lotada e logo na frente estava o palácio Tiradentes, sede da assembleia legislativa do Rio. Vários focos de incêndio trouxeram os bombeiros. No lado direito, um carro queimava de cabeça para baixo. Algumas janelas do palácio também tinham sido atingidas por molotovs. No meio da rua, uma pilha de cadeiras de escritório era consumida em chamas.

Junho 2013-10.jpg

Obrigado, capita! Obrigado… Vargas era só alegria no puteirinho da região da rua Acre que a gente foi depois de toda a confusão. Ele nem queria mulher. Tomava uísque e dava tiro no banheiro. Eu fiquei na cervejinha e deixei as meninas colarem.

Cheguei em casa a tempo de ver a porra do Arnaldo Jabour jogar lenha na fogueira. Meus olhos acenderam: amanhã vai ser maior!