Kerouac vs Madalena

Não havia mais muitos motivos para permanecer. Pelo menos naquele momento. Embriagava-me de forma dolorosa com a dura rotina da vida urbana. Pensava em corpos sem qualquer sinal de alma pirando pelas ruas em suas guias de sistema. Sempre haveria uma esquina e nela, sempre haveria alguém indeciso entre atravessar, ir para a esquerda, ir para a direita ou simplesmente dar meia-volta e retornar para seu caminho inicial.

Passei boa parte da minha vida insatisfeito com o presente. Não tenho pretensão de me achar exclusivo nesse assunto, mas foi sempre o incômodo que me tirou das coisas simples. Idealizava-as, falava sobre, escrevia a respeito do leve, da humildade, da poesia do simples e do mínimo. E hoje, me encontro sentado na janela do meu quarto de hotel vagabundo, olhando uma São Francisco colorida e limitada pelo brilho do seu próprio desapego. Abaixo passam putas e putos felizes na expectativa de uma grande noite de fudeção e vazio. Na cara, vem estampado o sorriso de superioridade em ter a grana de homens escrotos e alguns honestos, mas que ainda assim precisam de trepar, porquê esta é uma questão  primata e vai além das propostas de disciplina social.

– Hey, J. Por que você não desce – ouvi de súbito uma voz feminina se esforçando para ser ouvida por alguém que está no alto. Olhei e vi Pen, uma amiga dos bares da Sunset. Faz um boquete por 3 dólares. Nunca comprei seu agrado, mas ela sempre faz seu marketing. Vem cá garotão, tenho umas amigas pra te apresentar. Fiz um sinal para que me esperasse e fui me arrumar.

Era uma noite profunda de final de primavera. O calor já havia se apresentado e as pessoas estavam com sorrisos nos lábios e com o corpo levemente umedecido.  Pen me apresentou à Suzy, Marta e Gonzo, esse um garoto de programa que frequentava o porto de segunda a segunda. Fomos para um boteco onde elas faziam ponto às sextas. Gonzo se despediu e foi em direção ao sul.

– J. cansei dessa porra de vida, disse Pen aparentemente alta. Não que não goste de trepar. Adooooro. Só, porra, assim nunca vou conseguir ser o que sempre sonhei. Já tentei algumas vezes, mas o pico e a pica de ouro sempre me buscam e me levam para as ruas e eu acabo estragando tudo.

 – O que você sempre quis? Perguntei a ela, mas quem ouviu fui eu. “O que eu sempre quis”… silêncio, boa parte, parar de sofrer ou ao menos entender o sofrimento. Escrever, escrever e beber, meter, ouvir jazz, falar, conversar, conhecer pessoas. Portanto, nunca quis nada, absolutamente, nada de concreto.

 – Porra, cara. Sempre quis ser musicista de orquestra  – disse me surpreendendo e mostrando as falhas em sua arcada em um sorriso com olhos ao infinito, provavelmente,  imaginava perdida, ouvindo a si mesma ou quem  sabe, a própria orquestra ou quem sabe ainda seu sonho seja muito mais de estar próximo a isso do que necessariamente, em execução. Via-se no teatro, olhando a si mesma enfileirada em um naipe de cordas, olhar concentrado, cabelos arrumados, talvez os pais ou o marido ou o marido e os filhos na platéia; alguém importante nos camarotes e um genial maestro regendo a si e aos outros.

– Sabe, joguei ao léu uma questão, o que nos falta, se já temos pernas e falamos?

– Cara, a única coisa que sei fazer com elas, é abri-las para pessoas muito asquerosas e com minha boca, você sabe muito bem o que sei fazer.  Queria muito bem acordar amanhã com uma vontade alucinante em meu espírito, me dando energia para sair da cama, arrumar um café e ir ao conservatório estadual. Levar minhas partituras, arranjar um violino e fazer um teste. E depois do teste, encontraria o cara mais bonito da rua, seduziria e meteria de graça a noite inteira em um ritual pagão de embelezamento da alma. Assim, tenho certeza que meus segredos viajariam até os professores e eles me dariam a oportunidade.

 – Por que não seduz um dos professores, não é mais fácil?

 – Seu puto! Aos sacerdotes oferecemos nosso banquete, não nosso corpo. Agora, me dá licença que tenho muito o que fazer. E ela saiu e me deixou sozinho com as outras duas que conversavam no mesmo ritmo em que olhavam languidamente para qualquer um que entrasse no recinto.

 Brincava com um copo vazio de uísque, esperando minha decisão ou a de alguém em ir buscar mais uma dose. Por um lado queria muito ser cavalheiro e me oferecer para ir ao balcão. Entretanto, o que eu queria era a questão que estava mais me incomodando. Estava cansado de sempre pensar no que seria melhor para as pessoas naquela hora. Simplesmente isso também era uma boa mentira. Sempre pensava mesmo era em mim no que eu realmente queria e o que poderia fazer para que as coisas que as pessoas queriam também fossem atendidas. Uma espécie de busca por equilíbrio entre a unidade, eu, e a pluralidade, os outros, o mundo, as coisas do mundo e das pessoas. Mas ai, parava e sacava que eu também não tinha qualquer direito e nem noção sobre o que era certo para mim e para as pessoas. A impressão que me batia era uma vontade, uma ideia, uma criação, não uma razão, algo que eu podia desejar, ver e seguir e falar que havia todo um caminho construído até ali. Assim, me perdia entre o que queria e o que podia realmente fazer. Me sinto em um cano.

 De repente, Suzy se vira para mim e diz:

 – Sabe, rapaz, já não fazem mas homens como antigamente. Nós duas aqui e você nem levantou seu rabo sujo para pegar alguma coisa pra gente. A Marta já está levantando para fazer o que você deveria ter feito há um tempão. E, posso te falar uma coisa – aham – você desperdiça seu espírito filosofando demais sobre uma coisa muito simples que é a vida. Você um dia acorda e esta num lugar em que precisa se alimentar e de outras pessoas que você acredita saberem das coisas. Ai você cresce e percebe que ninguém tem certeza de nada e ficam uns caras falando sobre o que é certo e o que é muito errado. E com o tempo você descobre que esses caras cheio de estrelas e brilho e sermões são tão infantis como qualquer um. Quando você esta no auge e vai meter com um político, general, industrial você saca que esses caras não passam de crianças. Não sabem de porra nenhuma da vida e colocam para as pessoas somente o próprio interesse ou o interesse de quem o pressiona. Porque você sabe, né?! A vida é feita de pressões, é isso que faz o desequilíbrio continuar reinando. A busca por equilíbrio é uma explosão de dor provocada pelas pressões da vida. Enquanto buscam o equilíbrio, os governos buscam o desequilíbrio, pois querem ter mais do que qualquer um. E isso é no micro e no macro, é o governo e o governante; o padre e o fiel. E acontece com a gente,  seja do desequilíbrio do corpo na hora que seus peitinho crescem e sua xoxota começa a ficar inquieta, seja quando a fome e o frio batem e você não está tão dentro do sistema e não tem dinheiro para pagar e só o seu corpo e seu talento para o desapego são alguma coisa quente e de carne que dá prazer para um macho que pensa que pensa em alguma coisa e que as pessoas escutam as suas palavras, mas na verdade tem um pau tão pequeno e tão sem fogo que parece mesmo que as coisas estão trocadas. O que ele  tem de bicho, usa na sociedade, o que tem de humano, usa na trepada.

Marta chega com os copos. Agradecemos, sorrimos uns para os outros e desejamos saúde. Levanto-me da mesa, me despeço com apreço, saiu do bar, acendo um cigarro e volto para o hotel. Durmo profundamente e no outro dia, recordo do sonho louco que havia tido: Em um mundo de energias mais sutis, uma espécie de máquina se revela como uma forma especular do meu desejo. Como se ela fosse um duplo e me ajudasse a entender e a resolver minhas questões. Nada muito simples ou fácil, mas um recurso que parecia me ajudar a perceber onde poderia encontrar o básico: amor e trabalho. Não sei como, entrei dentro dessa máquina e peguei o caminho que me apontava. Por um lado desejava muito que fosse o daquela que iria fazer com que a dor da existência fosse mais suave, aquela pela qual a poesia em minha alma seria atraída e por ela seria regida e para ela criada.

E no caminhar dessa estrada de chão, sem poeira, avisto uma nuvem com cores, bocas e faces vindo em minha direção. É o desejo de outrem, penso. E sou envolvido pela nuvem e nela uma multidão, gritos de histeria, olhares profundos, bucetas pulando, paus correndo, cascatas de birita, algazarra, loucura, êxtase e demônios, dor, morte, ferimentos e prazer edificante. Algo muito forte e confortável me deixava bastante a vontade dentro daquela forma pensamento, daquele útero de imagens. Entretanto, se o mundo lá fora é sensível, o meu é um desafio. No meu dentro mais dentro, não quero ficar solto acorrentado. É o meu lago, a minha vaidade que precisa se alimentar, não minha montanha, meu sossego brando. Saio da nuvem através de uma força que surge do meu peito. E no que deixo-a, acordo e penso:  meu caminho sou eu quem puxa. Em uma noite qualquer, uma cena e duas putas podem lhe dar mais do que 5 anos de estudos ou masturbação. É preciso desapego J.

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