Kerouac Vs Ananda

Claro, sempre me interessei pelos tortos. Não só porque gosto do cheiro de espontaneidade, muito menos pela selvageria dos argumentos fantásticos. Mas porque sendo atípicos, suas ações sempre são respeitadas como a de um. O homem são não deve sair desse caminho, pois para o povo, um furo praticado pelo que é padrão, estremece as bases da conduta guiada pelo fora -“fora de si”, a maioria das pessoas é conduzida na vida pelas ideias que existem, que falam pra ela que exalam feito perfume de cinema. Esquecem de produzir a própria vida, ideia, criação e muitas vezes julga e vê naqueles que riscam com sangue e paixão a trilha do independente, como indignos da própria convivência e se tanto, com escárnio, punição, rancor.

Pois bem, agora me lembrei de Ananda. Primo e discípulo fiel de Buda. Repreendido e usado como exemplo de alma incompleta. Serviu ao iluminado, mas foi incapaz de ser aceito pelos outros sábios. Ananda não havia sido visto como um arhat – sábio iluminado. Se entre os cristão tivemos Judas, entre os hindus, Ananda. Não cabe peso para um ou para outro. Porém eu posso escrever o meu nome aqui todo para dizer que EU penso isso – o que ainda vou escrever – e que por ser um pensador livre, posso escrever, mesmo que boa parte da minha família, comunidade inteira da cidade e o que for me queiram jogar na fogueira: Judas e Jesus são personagens de uma mesma história de humanidade e divindade. Judas cria no nazareno como o messias, era um místico em sua linhagem. Não pensava que daria errado. Havia ali também uma vontade de Jesus em querer se tornar mais conhecido, um planejamento. Pensavam também no homem político. Acho que o messias não contava com a vitória de Barrabás. Pensou mesmo que sairia daquela ileso, o povo não deixaria de escolher a praxe – sobreviver aquele que não era ladrão – havia sempre um que escapava. Barrabás era o maior filho da puta do Império Romano e olha que estamos falando de Jerusalém, ele estaria na confraria dos mais bárbaros. Judas cumpriu o teatrinho, mas acabaram as coisas indo além do que esperavam. Nem Jesus tirou a espada flamejante e destronou Roma nem aquilo que pensavam aconteceu. O povo sacrificou o criativo, escolheu a peste e a desgraça ao invés da trabalhosa análise do espírito. Judas não deu conta, foi obrigado a se sacrificar e isso ficou impresso na história da comunidade cristã. Ele é um erro e ao mesmo tempo, o meio mais extremo para revirar a situação. Provavelmente, outros queriam ferrar mais Jesus que o próprio Iscariotes, mas se passaram de bonzinhos, justificaram a resolução da coisa em cima de um homem só, de um indivíduo apenas. E além dele, o povo também se ferrou, tornou fiéis em sua culpa. O povo que escolheu o ladrão, não queria um messias, mas somos sempre julgados pelo lema de que Jesus morreu para nos salvar. O nazareno foi morto pelo não entendimento de que ele estava ali a favor das coisas, não uma perturbação.  Talvez parecesse individual e livre demais para o preferirem. Temiam a independência de Roma mais que sofriam com as supressões. Estavam felizes comandados pelo de fora.

Ananda não traiu Buda, mas não conseguiu superar a destreza do corpo e do desejo. Ao menos foi assim que a coisa foi sendo contada e escrita. Ele sempre era o exemplo de alguma máxima, era considerado um impuro. Ao mesmo tempo, incomodou muito aos monges por sempre estar com Sakyamuni, por ser sempre um dos preferidos. Das cinco honrarias oferecidas, ele foi o mais citado. Em três. Mas em nenhuma das que congraçam a sabedoria e o valor de um santo sagrado. Ficou com outras outorgas após a morte de seu primo e mestre. Entretanto, Ananda daqueles fora o que mais “viveu” e ainda assim, para espanto dos arhat, alcançou o nirvana ainda em vida. Ele não saiu da sua condição de humilde homem, com as flechas da danação sendo lançadas, indo bem além do bem e do mal, fracassando na tentativa de ser puro em uma piscina já ferrada. Se não fossem por suas ações, muitas coisas não teriam sido compreendidas, vividas, ensinadas. Ele tinha uma farta memória e com isso serviu a si como banquete para a empáfia do orgulho que também frequenta qualquer reino da sabedoria e da paz.

Eu me sinto uma espécie de Judas-Ananda. De alguma forma admito que posso percorrer caminhos tortuosos para conseguir realizar alguns desejos. E esses, estão de acordo com o céu e com a terra, ao menos, o céu e a terra que habitam o meu espírito impulsionando que sempre busque estar queimando, queimando, tentando viver para a vida não passar correndo como se fosse qualquer coisa e cuidando para dizer isso para as pessoas. Irmãos mais ou menos acordados, tanto quanto eu, que em uma inteligência coletiva prega e vive uma nova visão. É importante refletir sobre a conduta pessoal, saber que todas as ações respeitam a reação, mas que essa não possui uma resposta especular. Ela vem de várias maneiras e acontece tudo ao mesmo tempo junto com a própria resposta social e biológica e você tenta se reunir para entender o que realmente pode valer a pena. Principalmente, no presente. Ananda, apesar de tudo, apesar da autoflagelação pela conduta, conseguiu entender e praticou o que seu mestre indicou para a vida: ele sabia o que queria encontrar e o que encontraria dentro do pote. Desejou e guiou seu destino pelo somatório de tudo aquilo que havia vivido, suas outras vidas, antepassados, líderes, pessoas do contato e do povo. Entendia que poderia muito bem encontrar uma peçonha no pote, mas cria cegamente, que mesmo que saísse dali mordido, sua certeza das verdades celestiais o protegeria de qualquer destino infinito, que mesmo na dor, ainda assim, teria condições de encontrar o equilíbrio. Seu acúmulo de virtudes não permitiria que voltasse do começo, talvez um pouco anterior ao último momento, mas nunca para atrás. O que se perde são as incertezas e o medo. A serpente seria, por fim, sua confessora.

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