Kerouac Vs Linda

Que porra é “hoje”?! Sei que habito um lugar gravado com a inscrição exata de um tempo, mas tão pouco sei onde me encontro nesse exato momento. Decidi pelas estradas porque percebi que a vida parada, onde (não) me encontrava, come minhas entranhas com vigor e sem perdão. Hoje, não desejo mais “isso”, porém quero aquilo que hoje, não será possível. Essa é minha luta, esse é meu desafio: entender que no hoje, qualquer palavra é vã, qualquer argumento não se coloca simplesmente porque passa e passa mesmo, passa diante dos meus olhos e dos olhos dos outros e tudo se torna poeira. As estradas estão cheias e eu estou vazio.

Fui homem o suficiente para negar presentes que qualquer pinto não negaria. Fiz isso pois tenho alguma esperança de que o amanhã possa ser sóbrio e constante. Todavia, querer correr o mundo agarrado a qualquer forma de pretensão é querer também, em alguma instância, negar que o barco em que circulamos esta completamente à deriva. Não consigo mais admitir viver com uma faca rasgando minhas costas. Quero poder dizer que sou livre e que possa ser isso, mesmo dentro dos limites da minha fronteira. O que falo e o que penso são sementes para que o que vir seja mais reconfortante e liberto do que o que já tive ou pretendi. Que a faca saia pelo seu próprio gume.

Nestes últimos tempos, antes do presente, conheci garotas que mexeram com o meu coração, outras que arrasaram meu estômago e alguma ou outra que me fez pirar. Desfiz completamente qualquer possibilidade de ilusão como se amarra um sapato – a pressão da vida e das neuroses explodiu os grilhões. O nó é dado, mas sabemos que uma hora ou outra ele pode se desfazer pelo aperto dos passos.  E assim, saí por ai desamarrado, desarmado de qualquer barreira que se cause constrangimento. E, Linda, estava ali a me esperar. Ela e seus olhos de fantasia, ela e seu sorriso de paraíso, ela e sua sabedoria.

É muito difícil encontrar pessoas que se assemelham ao que você não tem com facilidade. Gente que preencha suas lacunas e faça seus olhos brilhar de admiração e o sorriso sair sem qualquer esforço repetitivo. A maioria do que se vê são pessoas lotadas de lugares comuns e viçosas de baixa estima. A essas que não não só roubam o coração, mas dão efeito a alma, ofereço com carinho minha mão. E não é simples pular no mundo com uma palma que se ofereça em completa harmonia com o que tem abaixo do braço e acima do peito. É raro. Não me cabe dizer exatamente o que sou, mas sei bem que a ligação que há entre o que cabe a mim e o outro, através das mãos, não é um simples aperto, é muito mais do que isso, é uma conexão que quer se dar pelo mais puro, pelo mais simples sentido de nossa espécie: a comunhão. Não exatamente algo definitivo nem sequer duradouro, posto que numa amálgama crescente, feito uma trepada que não é boa só pra um ou pra outro, é um crescendo coletivo!

Ontem, percebi que Linda não tem os olhos mais simples nem sua mão a é mais singela. Todavia, reconheci que há algo em sua forma, em seu espírito que sempre irei buscar: uma felicidade que nasce como um raio de sol e que se encontra presente, preenchendo o vazio que qualquer outra coisa desse mundo não consegue se aproximar, mas que no fim da tarde, se coloca em seu ocaso. Mesmo que essa felicidade tenha futuro certo, sei bem que no outro dia, ela há de retornar e estarei ali, presente, firme e espero, seguro para cumprir o caminho que me compete. Não necessariamente em relação à Linda, mas a mim depois de sua mão, seu sorriso, seu gosto. Tenho forças para crer que mesmo em deriva, mesmo em condições de nunca haver mão que leve realmente minha alma, nem que dê a sua, ainda assim, é por isso que irei lutar fortemente em minha alma para que encontre. Esse é um dos sentidos de minha busca – correr em direção ao impossível, ir sabendo que não haverá. Mas posso ir fundo na minha alma com os olhos atentos aos que falam, pensam, ouvem e são, no mínimo, loucos e incomodados, pois sei que são destes que meu olhar é feito. Procuro por uma estrada que não precisa ser infinita, nem que passe pelos meus pés, mas que me dê um sorriso no futuro, que me aponte um norte ao qual eu possa ir tesudo e confiante para lhe dar sentido, para que eu possa me colocar por sobre e saiba como ninguém navegar o seu asfalto. Linda, tenho o seu mapa, ainda não deixei de ver onde ele acaba e espero poder ir fundo até o final, mesmo que esse seja apenas o começo.

Com amor,

K.

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