Kerouac vs a Loucura

Hoje, deixo o sanatório. Não aceitaram meu pedido de loucura. Hahaha! Nos últimos dois anos aconteceram tantas mini-histórias que até um velho marujo mentiroso ficaria envergonhado de contar. Tudo começou ainda em Lowell. Lá passa um rio que levou minha alma junto. Sempre pensei em sair do quintal de uma das casas beira-rio e de lá ir para o mundo. Quando era menor, fui o mentor de uma das nossas tentativas de escapar.  Já estávamos cruzando o condado quando o pai do Harry apareceu com as nossos irmãos menores e gente da cidade. Sempre soube que queria viajar pelo mundo sobre o mar. Porquê a vida é o mar!

Mas os tempos eram de guerra e eu não estava a fim de contribuir com qualquer tipo de matança. A vida já era difícil demais com as coisas precárias, o mundo não precisa de mais tantas outras ruins. Por isso, dei um jeito de ser dispensado da marinha por comportamento paranóico e agressivo. Fui preso e tirado do barco, por assim dizer. Mandaram uma carta para meus pais e a meu corpo foi jogado para esse internato para jovens. De alguma forma sabiam que eu tinha forçado a barra e queriam mesmo era me dar uma espécie de lição, uma lei marcial nas entrelinhas.

Os quarenta e nove dias que passei aqui me motivaram a olhar para a vida e para a vida das pessoas de uma outra forma. Lidar com aqueles que são encostados requer três atitudes: os parentes esquecem ou desistem, os médicos controlam e os donos do jogo desejam eles fora, mas não tem como, a América ainda é um país cristão. Na verdade, por mais dramático que seja, muitos dos que estão ali são garotos e garotas de “posição”. Gente que sempre teve tudo, que frequentou boas mesas e salas de aula, que até viajou ao exterior, nem que seja ao Canadá.

É muito engraçado porquê aqui você acaba cruzando com tipos que simplesmente não cresceram. São crianças traumatizadas em corpos de adultos. E, claro, a sexualidade é uma das peças essenciais de vários dos contextos. Um dos mais interessantes, um hipster de 30 anos, provavelmente acabado pelo álcool, bolas e benzedrina, anda peladão exibindo os ovos para todo mundo. Catarina, a noviça, levanta a saia em todos os piqueniques e mija rindo enquanto os enfermeiros a catam pelo braço. A masturbação é uma constante. Os lençóis apodrecem de tanta excitação. Sei que não é algo legal nem de ler, mas agora estou em uma fase que quero arranhar o olho do leitor pelo estômago. Cansei de pensar num mundo e universo só para o meu umbigo, ele também deve sentir o peso do que eu vi, do que eu pude interpretar dele e de seus bonecos de fantoche. Não dá mais para ignorar que há algo de errado nesse lugar e nas pessoas daqui e eu sei disso e sei colocar para fora. Como é possível trancafiar tanta gente e verdade dentro de condições tão aterrorizantes, dando a eles o tratamento que não dão aos próprios cães? E muitas vezes, a incompreensão, a ma fé, a injustiça é com o próprio sangue, com o vizinho, o companheiro de jornada…

O pior é que tenho certeza que quando passar desse portão, do trem às ruas da grande cidade, vou continuar tendo a mesma sensação: de que estamos presos em uma espécie de asilo e não é Deus que nos protege, porquê Ele não suporta tanta ignorância.

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