Kerouac vs a Honra

Seus olhos nunca são os mesmos. A cada dia, a cada despertar, um novo mundo se projeta biologicamente dentro de você e aquilo que enxerga, por mais que seu cérebro de TV, viciado, ache que é o mesmo, que o sorriso e a decepção têm os mesmos tons, não têm. Há uma história de que a angústia viaja amarrada nas costas do viajante. Não adianta sair de um lugar se o que lhe ferra tá dentro e te acompanha até a porta do inferno. Ou seja, por um lado temos um despertar completamente novo todos os dias e, por outro, temos as coisas dentro de nós permanecendo, independente da coordenada em que seu corpo estiver habitando. Assim, somos novos corpos em almas velhas, vagabundas, repetitivas, geralmente, estagnadas.

E assim, com a ilusão de que a mudança de lugar iria facilitar as dores, saí do ventre que tanto conhecia e parti para a maior cidade do mundo. Mesmo morando no interior, meu espírito sempre procurou entender das coisas como se não houvesse hierarquia. Não conseguia acreditar que qualquer coisa funcionasse melhor fora da gente do que dentro. Absorvi em torno de mim, todas as possibilidades de acontecimento desse mundo e achei que a partir disso, qualquer coisa que fosse possível, poderia estar em mim, independente de meus olhos, ouvidos, nariz ou boca estar perto ou não daquilo. Por um lado, é uma forma de aceitar que o mundo é muito mais vasto que os seus sentidos e a área que pode ocupar ou visualizar. Mas também, é um pouco de orgulho em não reconhecer a imensa pequenez. Que porra de vida é essa que me joga para o alto, me faz acreditar que sou um iluminado e ao mesmo tempo, me tampa na parede, como um navio em mar bravio, me coloca em um lugar tão rebaixado que qualquer condenado sentiria orgulho de sua condição diante do quanto me humilho. Sou viciado em me colocar por baixo de qualquer ser que tenha um vazio entre as pernas e que demonstre nenhum tipo de consideração por mim. A única hierarquia que respeito é aquela que fode com meu coração e acaba com qualquer projeto sério que esteja levando no momento, na vida.

Essa herança maldita deve ter algum tipo de arqueologia em minha alma. Será possível olhar para atrás e achar algum culpado nessa história louca de excitação, submissão, destino e chão! Será minha mãe, a morte imatura do meu irmão, os porres de papai, a cristandade chorosa da cruz do mundo? Porquê sempre vou ao mais raso do raso, rastejo sobre minha carne e dilacero qualquer consideração por minha honra. Sou livre, mas aqui dentro, aqui onde eu acho que domino, sou fisicamente dependente da tristeza. Sinto-me livre, mas sei bem o quanto fico trancafiado em sentimentos de desconforto. Enquanto a maioria se mata pela vergonha, eu me alimento da minha própria desgraça. E essa sequência, não apenas permaneceu quando me desloquei no espaço, como se potencializou na grande cidade. No interior, pelo menos, em algumas ocasiões só eu e meus piolhos sabiam realmente que era prazeroso ser ofendido por uma vadia. Aqui, onde as regras e as leis não são conforme a tradição cristã, tudo mundo fica sabendo em seguida, é como se colocassem o fora que você tomou para passar no Times Square. Logo, os olhares são de pena e você tem certeza que sua honra desceu pelo ralo do esgoto e que ninguém nunca mais vai querer olhar para não correr o risco de pegar essa coisa de ser colocado na sarjeta da sociedade. Além disso, é missão de qualquer xoxota cosmopolita fazer questão de apontar para a sua cara e dizer: ual, você é o máximo, pena que não tem nome, pena que é um caipira.

Mas, enfim… levantei com novos olhos nessa manhã. A angústia, olhei no espelho, e a vi tatuada no meu peito. Peguei uma faca e escarifiquei sobre a imagem, “impossível”… que ela saia dali, que eu desista de senti-la, que eu acorde como antes, que eu não seja eu mesmo. E com a lâmina sangrando, parti para as ruas, a primeira vadia que encontrar vou fazer questão de mostrar quanto tão rústico é o meu pau.

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