Kerouac Vs U.S. ARMY

Mais uma vez me encontro inerte. Queria muito poder trazer das vísceras uma história, visão ou qualquer coisa que pudesse cuspir meu espírito. Ando muito atento, produzindo pensamentos e falando muito. Porém, o grande Babuíno não me visita a não ser que seja em metalinguagem, somente nesta hora, quando estou, justamente, reclamando a mim mesmo a falta de inspiração para juntar letras e depois, espalhar palavras.

Acho que isso acontece desde quando eu comecei a encarar essa coisa de escrever de forma impessoal. Antigamente me arrastava por esse país tagarelando que era um escritor. Mas agora, já não sei mais, acho que é uma espécie de maldição cigana. De tanto falar que seria, esse demônio apareceu me obrigando a ser assim, a ser desse jeito que esperam de mim. Tenho caído muito na bebida e as ideias não estão sendo tão legais assim. Entretanto, vira e mexe um papa-letras (agente filho da puta) me pressiona a ser o velho beatnik. Mas eu mudei, porra! Não aguento mais esse pessoal que sempre riu das minhas cretinices e me cultua como um semi-deus. Se fosse no Camboja, teria uma imagem do Jack para adorarem. Enfim, coisas da vida!

E por falar no sudeste asiático, onde uma horda afina a pontaria e as doenças venéreas pululam nos pintos brancos e jovens da América, lembro-me de um veterano da guerra da Coréia, bêbado e entregue ao mundo. Estava  em algum lugar da Virgínia, indo em direção à Nova York. Parei para mijar e refrescar a garganta num posto e esse sujeito estava encostado no balcão reclamando sobre a vida com a garçonete e ao mesmo tempo, tentando seduzi-la com um discurso bem babaca. “Então, Betty, eu não aguento mais a política desse cara. Queria acabar com tudo aqui, ir para o oeste, levar sua bucetinha quente comigo”. Não acreditei muito quando ouvi aquilo. Achei que a Betty ia ficar chateada, mas nada. Abriu um sorriso bem safado e disse, “ohhh capitão, os pintos da Virgínia me atraem mais do que o deserto. E prefiro ter vários voando do que um só”. Na verdade, quem ficou puto foi o tal capitão. Na mesma hora, levantou o peito e os olhos, deu uma checada para ver se tinha alguém ouvindo. Me viu e viu que eu tinha visto e escutado. Olhou com ódio, primeiro pra mim, depois pra ela.

– Olha, o pior da América são esses idiotas, metidos a alguma coisa que sempre acham que sabem mais que todo mundo. Ei você, seu vagabundo, o que você faz da vida?

– Bebo cerveja! Respondi sem dar muita bola.

– Maricas…

Tomei mais um gole, pensei um pouco com os meus botões, olhei para a cintura dele… parti pra cima. Pow, um soco bem no olho do capitão. Acho que ele não esperava aquilo. Caiu como uma tábua velha e inchada. Betty se desesperou, acho que ela gostava mesmo dele. Tirou um revólver de trás do balcão e me mandou sair, sem antes me roubar 20 dólares – muito além do que me cobraria. Por sorte, um tenente reformado estava passando pelo posto na hora e me deu uma carona até Maryland. Pensei que o capitão e sua putinha iriam me matar.

O surreal foi que a primeira pergunta que o motorista me fez foi a mesma que o cara do bar. Dessa vez, respondi como um bom menino – “sou escritor”. A é, disse, que bom. Adoro ler, nunca conheci ninguém que tenha publicado. Disse ao sujeito que escrevia desde pequeno e que na adolescência inventava meus próprios jornais e personagens e tudo mais e que já tinha publicado um livro há alguns anos e que estava andando pra baixo e pra cima com um rolo com a história mais louca da América. Ele me pediu para contar, ai eu disse: bom, tenente, você tá nela!

Como já diria Orwell, “paz é guerra”. Escrever é apagar.

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