Kerouac Vs Lennon

Em 62, fazia uma viagem pela Europa, mais especificamente por Hamburgo, na Alemanha Ocidental. Numa noite “daquelas”, encontrei um sujeito que iria se tornar muito famoso pouco tempo depois. Ele tinha uma dessas bandas que perverteram o bebop. Só guitarra, só guitarra. Apesar dessa tristeza, minha dor podia reconhecer que aquele mundo infeliz dos anos 60 precisava mesmo daquele tipo de imbecilidade estridente. Tomamos nossas coisas e ficamos alto. Disse a ele que todo mundo que fizesse sucesso nestes anos de transformação iria perecer, que tudo acabaria num piscar de olhos. Nada iria durar, por que nesse mundo tudo é impermanente e o que estavam fazendo com as coisas de verdade era completamente ridículo. E que muitos, como eu e como ele, viriam para acelerar essa maldita transformação, e todos nós iríamos ter que enfrentar os nossos deuses (e demônios) pessoais, pois a vontade seria a de voltar correndo para o bom e velho paraíso de onde a gente não deveria nunca ter saído. Acho que ele não ficou muito assustado, seus olhos brilhavam (claro!), mas não era um brilho totalmente artificial, senti mesmo que aquele papo tinha um quê de iluminado, uma legítima conversa beatificada – algo que há muito tempo não conseguia ter nem com um gato, quem diria com um macaco falante. Todavia…
Alguns meses depois, em Nova York, recebo um telegrama que dizia: “Você fodeu a minha vida. Agora não tem mais volta. Shiva domina a minha alma e a única coisa que eu posso fazer é seguir seus conselhos. Até agora não sei se estes conselhos são os seus ou os dela.”
Fiquei um pouco atônito com aquela correspondência inesperada. Não que ninguém nunca tivesse me escrito dizendo o quanto eu havia transformado sua vida, o quanto eu tinha a libertado das mentiras hipócritas da sociedade e como meus livros tinham dado liberdade e sentido aos seus atos e toda aquela baboseira que a gente sempre ouve por ai. O lance é que nunca havia lido alguém tão consciente de sua própria missão em tão pouco espaço. Ele sabia quanto seria dolorosa sua existência e a dor era para todos. Eu sabia que ali por trás havia realmente uma alma beat.
O que mais me surpreendeu é que meia hora depois, um outro telegrama chegou para mim. Nesse vinha assinatura e endereço de envio. “Saí da minha vida besta na beira do cais e hoje sou um soldado da luz, beatificado pela vibração da minha luta e eternamente condenado a sentir a dor das pessoas sob os meus olhos. L, J. Seviço de mensagens Mirrage Hotel, NY. 8 de fevereiro de 1964″. Bom, o jeito era esperar mais um pouco e ver se outra carta chegaria. Claro que não chegou. No dia seguinte, liguei a TV e aquele mesmo sujeito que eu havia encontrado em Hamburgo estava sob a luz dos holofotes, com uma guitarra em punho e cantando sobre o amor para um monte de meninas histéricas, loucas para tirarem suas roupas e ficarem a vontade. Não aguentavam mais serem como suas avós e não queriam que suas filhas tivessem mães como as delas, muito menos pensavam em maridos como seus pais.
Vi todo aquele sucesso que o acompanhava como algo que já havia me perseguido. De certa forma sentia em mim uma angústia por conseguir perceber com exatidão a dor que viria a seguir, com a decadência. Quando um beatificado percebe que o barco em que navega não está sob o seu controle, a angústia da alma assola a sua vida e todo o colorido da existência se transforma em meras cenas do pretérito. Os corpos, o sorriso, a loucura e a alegria da juventude, tudo estava sendo recriado novamente através de acordes e comportamentos alucinados. A alma do mundo estava se mudando da pior forma e eu, como ele, tínha servido de fantoche para muita gente infeliz que só via resultado na fama, no dinheiro e no poder. Uma pena. A única coisa que eu gostaria de poder ter dito àquele garoto é que realmente amanhã nunca se sabe. Por isso, qualquer glória ou honra dada nesse mundo é como a espuma do mar, é inconstante, impermanente, aparece, desaparece. A vida na verdade, é outra história. Não essa que insistem em contar todos os dias, não essa que nos encanta e nos faz sorrir com os produtos da vitrine, não essa que fingem nos oferecer recheada de morangos mofados de luxúria e hipocrisia.
Pouco tempo depois, no auge da fama de Lennon e seus amiguinhos, Neal me veio com uma teoria. O velho maldito me disse certa noite quando estava bêbado como um gambá: cara, eles roubaram a nossa vida, roubaram nossa música e para piorar, além de pegarem todas as mulheres que ainda nos sobravam, usam o nosso nome. Eu apenas sorri e pude compreender por um instante que Neal não estava certo ou errado. A questão é que nós éramos apenas o meio. A energia Beat dos santos sagrados passou por nós e colou neles. Agora era a vez dos Beatles contribuírem antropofagicamente como oferenda para Shiva, o deus mor da renovação/destruição. Eram eles os verdadeiros beatos daquele momento. Mas até quando conseguiriam oferecer a outra face? Até quando…

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