Kerouac Vs Duluoz

Recebo um telefonema de Raphaello Scoth, meu contato no NYTimes. “J. o Gary entrou de férias, cara. Seu livro já era meu camarada. Estou envergonhado, envergonhado… Maldito Gary. Ele tinha me confirmado, na próxima sexta, na próxima sexta“! Filho da puta bastardo, penso. Diga a ele que quando eu for lido por metade da América, sua crítica já não vai adiantar nada. Desliguei o telefone bastante puto. Maria estava com o cigarro em mãos, encostada na cama e me olhando.
– Não fique desesperado. Venha aqui.
Eu não consigo me controlar e nada me deixara mais confortável. Eu tinha que poder esbravejar:
– Como não! Gary Strandy é o único crítico na América que poderia dizer algo respeitável sobre o meu livro. E ele leu, tenho certeza. Mas que vacilo, mas que vacilo – soco o ar. Ela se assusta com meus gestos e fecha sua expressão.
Passa um tempo e o telefone volta a tocar, Maria apaga o meu cigarro e retira o lençol de sobre o seu corpo. A chamada do aparelho parece pertubar minha cabeça. abandono a visão afrodisíaca – Maria tenta tirar minha atenção ao chamado, e persigo a possibilidade de boas notícias.
– Alô!?
– J.?
– Sim, é você de novo Scoth?
– J. Te prepara irmão. Te prepara por que eu tenho uma bomba.
– Hey Scoth, não fala assim meu camarada. Há dez minutos atrás você já me esfaqueou o peito, agora pensa em cravar a lâmina?
– Calma J. É coisa boa… quer dizer, pode ser. Temos que esperar. Depois de amanhã sai, tenho certeza.
– Cara não estou te entendendo. Seu frangote estranho, se você estiver aprontando com a minha cara… ainda bem que estou numa onda de paz. A sabedoria oriental tem me dado muita força. Tenho aprendido uns segredos e a violência não faz parte deles.
– J., a porra da resenha vai sair depois de amanhã, cara! O novo crítico chegou na redação ontem, mas logo viu seu livro. Ele se lembrou do seu nome e parece ter dito à Michele que adorou Cidade pequena, cidade grande.
-Sério?
-Porra! Cara, ele levou O Livro* para casa e disse que vai apresentar o texto na próxima sexta. Parece que o Gary armou tudo. Tirou o dele da reta e deixou para o substituto a missão de criticar “o novo fenômeno da América”!
-Ann… que porra é essa Scoth!? Tá ficando louco?
-J. foi isso que Gary escreveu no bilhete que deixou para o substituto.
– Como deu tempo para você conseguir todas essas informações, não tinha nem dez minutos que você me ligou?
-Foi a Michele, tenho um contato forte na parte de crítica literária.
– Saquei, ela também escreve?
-Não, limpa!
Bom, confiar em uma faxineira às vezes é mais lucrativo do que pegar informação num balcão de informações. Mas elas também custumam exagerar. Isso é fato. De qualquer forma, quando desliguei o telefone, Maria já devia estar em seu 3º sono. Talvez pensando em mim, talvez não. Seu ar sereno, seus traços latinos, sua pele, boca. Era tudo uma só inspiração para a felicidade.
Um livro aceito, dinheiro por palavras. Talvez pudesse mudar a minha vida, transformar meu sonho em realização. Já sei o que fazer, escrever mais, mais e mais. Quem sabe, a loucura consuma meu tecido e eu me perca de vez. O sucesso é um perigo. É ele o cetro da vaidade.
Resolvi acender um cigarro enquanto refletia sobre o depois de amanhã.**

On the road
** Primeiramente publicado em http://verbeat.org/letitbeatnik como “Benvindo ao sonho americano”

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