Kerouac Vs Rothko

Nos anos 50 o mundo estava mudando e nem todo mundo sabia disso. Era o jazz explodindo em novas formações, o consumo se tornando lei, a TV e tudo mais transformando a vidinha fácil do interior em uma rotina de trabalho e fumaça. Os carros ficavam cada vez mais barulhentos e as garotas cada vez mais espertas e, por isso, faziam as coisas alucinarem na frente de qualquer um. Ser reconhecido se tornou condição para se existir na América e eu queria muito ser alguém. Lutei contra as minhas angústias depressivas e passei um bom tempo batendo com a cara na parede.

Nesta época havia um tipo de gente, uma classe especial de artistas que mesmo quando uma editora recusava os meus manuscritos, me dava força para continuar tentando. Eles confirmavam com imagens, sons e movimentos o que eu queria fazer com as palavras. O que almejávamos estava por trás do que dizíamos e isso era o retrato desse momento. Trouxemos de volta a vida para a arte, detonando aquele formalismo fechado e cheio de esquemas. Por mais que nossos trabalhos fossem bem literais, alguns eram absurdamente abstratos e dependiam do acaso. Outros, racionais ao extremo, transformavam o inesperado em algo um tanto previsível, porém sem qualquer tradução simbólica. Os americanos estavam buscando desesperadamente as coisas e seus conteúdos e, nós, enxergando o espírito da geração de forma completa, olhando para o pano sem fundo e vazio que se encontrava por trás da existência.

Com o tempo, descobri que estes chapas gostavam da mesma literatura que eu, quase todos vinham do mestre Dostoiévski e tinham sua admiração por Kafka, Nietzsche e mesmo Jack London. Um dos que mais me encantou com a sua melancolia e ao mesmo tempo, sabedoria louca, foi Mark Rothko. Conhecia seus trabalhos desde o tempo em que freqüentei a Columbia, mas na época ele pouco impressionava. Finalmente, quando eu lancei O Livro ele também fez uma exposição dos abstratos mais pertinentes que já havia experimentado. Sim, experimentado. Era como tomar um peiote ou se acabar em bezendrina. A viagem de Rothko foi algo inesperado para o Jack bobão, mas também mexeu demais com o velho que dormia dentro de mim. Acho que foi a partir dali que compreendi a distância entre a vida interna e essa porcaria de existência na realidade, uma chatice com um monte de gentes pegando no seu saco e querendo arrancar suas bolas. Ainda fosse de raiva, mas era tudo antropofagia.

Quem tiver oportunidade de reverenciar a arte desse imigrante russo e perceber a fidelidade em que atinge a noção do espiritual vai conseguir, silenciosamente, encostar a ponta de sua consciência na verdade suprema. E dali em diante, se for nobre e tiver coragem para negar a covardia, vai compreender o quanto estúpido é ligar preferencialmente para as coisas. Por mais que elas sejam nossas extensões, são também descartáveis e perecíveis. Ou seja, invaliosas para a verdade suprema do seu Espírito.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s