Kerouac vs Moriarty

Depois de tudo o que tinha acontecido com Phillip, fiquei um pouco atordoado. Não quis nem saber de Janie ou de ninguém. Voltei para aquela maldita agência e esperei um navio que me levasse o mais longe possível. Queria sair da minha vida mais uma vez. Mas dessa vez com força e solitário. Sou um peregrino em busca de luz, persigo seu rastro cego. Entretanto, havia uma coisa que estava me incomodando muito. Mesmo que a solução fosse ir, meus sonhos não têm me avisado sobre. Sempre que sei que vou embarcar, passo várias semanas sonhando com o mar, os navios e toda a presença imanente de Netuno, o senhor do oceano espiritual. São viagens surrealistas e sempre muito edílicas, porém realistas o suficiente para que o mais insensível pudesse se sentir como a totalidade. Um drama molhado e volátil.Consegui embarcar em um com destino ao porto gelado da Finamarca, quase no Ártico. Por sorte, penso em dar o fora quando estivermos no porto mais louco do mundo – Amsterdã! Pelo o que eu ouvi dizer, lá recebe gente insandecida de toda a parte do mundo, é um dos portos com mais embarcações estrangeiras por chegada. Muitos chineses gostam de lá, russos também. O navio ainda estava ancorado e o capitão fazia o reconhecimento da tripulação. Eu tinha mais experiência, era a minha nona viagem, por isso, me deram um cargo mais digno que simplesmente limpador detalhista de privadas ou descascador de vômito agarrado no tapete do salão. Agora eu serei o rapaz do rodo que limpa os corredores nas quintas, sábados e  domingos, deixando o convés para os dias restantes. Quem sabe num próximo, consigo chegar mais perto do cassino? Com minha sorte, me tornaria rapidamente “o jogador”, sendo procurado  pela fortuna da minha presença. Na roleta, discretamente falaria a cor vencedora antes dela acabar de girar. Isso já chamaria a atenção, em seguida, me aproximaria de apostadores em ascendência, por fim, aceitaria qualquer gorjeta para mais tarde.
Como sempre, o capitão era um imenso filho da puta e fez uns três desistirem. Eu já sabendo o protocolo, entrei em seus joguinhos ridículos, mas fiquei quieto e nada de mais aconteceu. Entretanto, ainda tínhamos  dois dias antes dele zarpar, um tremendo portal que poderia me levar para qualquer lugar, inclusive para longe do oceano.
Cheguei na Washigton st. eram umas sete da noite, fui direto para o Louis tomar um xerez. Lá é um lugar bacana que a gente não frequenta, mas como não quero ver ninguém, o Louis era o melhor lugar. Mal sabia que Allen, um poeta que tenho conversado ultimamente, adorava o lugar e agora mesmo estava ali com algumas pessoas. Pelo jeito, nem todos poetas como ele. Quando me viu, acenou e depois de alguns minutos veio em minha direção e junto dele um outro cara, alto, cabelo castanho claro, mais novo do que nós, porém com a cara de quem tinha passado um tempo no reformatório, um verdadeiro galinho de briga formado nas ruas de alguma grande cidade da América e que se sentia o durão em Nova York.

“E ai, Allen”

“Como vai J. Este é Neal”

“Beleza, Neal”. Nos cumprimentamos.

“Tranquilo J. Allen me disse que você é escritor?”

“Pois é, escrever é a única coisa que consigo fazer de forma interessante. Queria ser jogador de futebol, mas meu karma não deixou…”

“Puts, karma? Ah, Allen, esse cara aqui acredita nessas coisas de horóscopo de mulherzinha.”
Não acreditei no que ouvia. Fiquei estatelado com a falta de etiqueta do colega. Seu sotaque era do sul e do oeste ao mesmo tempo. Allen também ria da observação de Neal.
“Hei, J. meu Saturno está querendo encontrar Vênus, tem alguma coisa de Netuno por ai?”

O garotão riu por que não entendeu, mas essa era a senha para que a máxima voltagem fosse despertada. Netuno além de ser o deus dos oceanos, era também o pai dos vícios e êxtases, o verdadeiro Fausto da modernidade. “Claro, Allen, meu sol hoje está em harmonia com a lua, acho que entro logo em sagitário”. Tinha preparado alguns para a viagem, mas resolvi abrir minha mochila para que pudéssemos aproveitar o melhor da noite. Descemos do bar e fomos para o apê de Allen. Antes, compramos algumas garrafas de vinho do porto, queríamos reviver o Século XIX, fingíamos que éramos Flaubert, Baudelaire, mas Neal achou que eu me identificava mais com Victor Hugo. A princípio achei aquilo uma afronta, mas pensei, “pelo menos o maldito faz metáforas”!
Comemos o vinho e bebemos o haxixe, como o nobre comedor de ópio. A cidade estava toda iluminada, porém nossas lanternas se restringiam àquele pequeno quarto alugado. Ao todo, éramos sete. Neal estava com sua companheira, Maggie. Marta, Gorck, Beth, Allen e eu completavam o elenco.Fiquei na dúvida se tudo aquilo era real ou apenas estava tendo um sonho premonitório. Tudo parecia inadvertidamente claro e a nova visão não era nada mais que aceitar o caminho como uma possibilidade de beatitude e tudo o que fosse feito e encontrado durante a passagem, tudo mesmo, seria sagrado.
A viagem, o assassinato, a prisão e novamente, uma outra viagem. Tudo isso girando em um ciclo fechado e tendencioso. Este pequeno instante da minha vida me mostrou que realmente a viagem era o que deveria fazer. Mas mal poderia supor que iria para muito longe das águas do atlântico, correria mais ainda para o continente.
A admiração por Neal se tornou imediata, ele podia sim, se tornar um escritor, mas tudo dependerá do quanto conseguirá deixar de lado a si mesmo. E antes de querer escapar da vida em um navio cheio de marinheiros, minha vontade era que tudo tivesse algum sentido novamente. Por isso, desde a primeira vez que me convidou para passar um tempo em Denver, mesmo que tivesse cinco minutos de convivência, sabia que esse seria o meu caminho. Abandonei a ideia de zarpar e passei a frequentar mais a casa de Allen. Isso ainda durou algumas semanas até que tudo REALMENTE acontecesse.

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