Kerouac Vs o Karma

Uma vez sonhei com uma chuva que nunca parava. De tanta água caindo sobre a América, me restava apenas ir para o telhado de nosso apartamento em Ozone Park, Nova York. Porém, meu corpo abatido pelo abuso, pesava sobre a cama e sobre meu sonho. Fiquei com tanta preguiça que esperei ela chegar na beira da janela. Joguei-me pelo sofá e sai nadando por Manhattan.

Percebi que era possível respirar debaixo d´água e que nem todos aqueles que me acompanhavam tinham a mesma desenvoltura que eu. Meus pensamentos guiavam a velocidade do meu corpo e fui navegando imerso em uma cidade líquida. Primeiro, fiquei preocupado com meus amigos. Pensei neles e vi um cardume de elétrons seguindo em direção aos seus endereços. Via refletido nas janelas dos prédios, como estava um por um.

Fiquei surpreso quando reconheci Birdcage como cenário habitado por Peter e Allen. Guiei meu corpo-pensamento para o local. De repente um medo súbito percorreu minha espinha. Uma remexida na água me fez lembrar de suas profundezas e monstros. Um mundo aquático é povoado por predadores e seres desconhecidos. Logo, logo crocodilos e tubarões estariam tomando os territórios.

Então, interrompi meu caminho e nadei para o alto. Subi em direção à chuva. Depois de algum esforço, consegui, enfim, alcançar o limítrofe da água. Avistei corpos espalhados. Percebi que todos eram adultos e mais velhos. Suas roupas demonstravam a classe social que correspondiam. Havia roupas, jóias e muitas notas de dólares espalhadas pelas águas. Já não havia superfície maior que a elevação do nível – Nova York inteira estava submersa.

Essa visão me livrou do medo oceânico e desci de novo, consegui me transferir para a casa noturna. Entrei nadando pela porta da frente e logo vi na pista, uma galera de hippister felizes, se divertindo ao som dos melhores jazzistas da cidade. Vagabundos, bêbados, pequenos marginais, poetas frustrados, piranhas devotas, todo o tipo de gente que se encontra uma vez ou outra  na noite, estavam todos reunidos de uma só vez. Como se a chuva tivesse os levado para lá.

Não consegui entender muito como aquilo tudo estava se dando. Cada vez mais me colocava dentro do mundo onírico, como se estivesse sendo seduzido por um sonífero perfumado, levando-me para um estágio mais profundo e menos narrativo do sono. Apenas sei que os instrumentos tocavam e que os corpos se mexiam e os sorrisos cheios de bolhas jorravam sobre todos! As bebidas eram espalhadas dentro da água e por causa da cor e da densidade, por alguns momentos, uma turma se juntava e todos bebiam do álcool espalhado pela atmosfera líquida.

Tentei relutar, mas não consegui. Fui deslocado para outra zona de atuação noturna. Já não estava mais submerso e sim, em uma montanha iluminada pelo sol do oriente. Minha alma ainda escutava os redemoinhos e as ondas da chuva. Encontrei um mestre ZaZen. Ao invés de perguntar qualquer coisa do tipo “por que estou aqui” ou “você é real?”, sentei-me de frente, observando os mínimos detalhes para que não o incomodasse. Sei que o sujeito poderia passar meses sentado, entretanto, confiava que haveria algum tipo de mensagem para mim.

Ele não parecia antipático e então, comecei a assoviar um cântico que havia decorado anos atrás. Por incrível que pareça, eu sabia tudinho, lembrava toda a melodia, era como se eu tivesse acessado o local e a hora exata em que eu ouvi aquilo pela primeira vez. O mestre foi saindo de seu transe e aos poucos foi se expressando para mim. Quando já estava restabelecido, me cumprimentou e disse, “Ola”. Respondi com um gesto de respeito e fiz minha reverência taoísta, sempre aconselhada para os grandes santos sagrados. Ele sorriu:

– Pequeno K., o que resta ao centeio senão ser cortado do campo?

– Saber que saciará a fome de alguns e que sua vida será renovada pela natureza.

– Então, ele deve se deixar ir?

– Não, apenas ter certeza de que sempre haverá uma solução que tende ao equilíbrio e ao movimento.

O mestre em suas roupas simples, agora nos guiava em uma jangada. Logo pensei em Sidarta, em Hermann Hesse. Estávamos atravessando um rio também. Entretanto, poluído, desgraçado pela corrupção e ignorância humana. A pobreza de alma dos que tinham poder e a falta de esperança dos desprovidos de assistência, gerou um caos irracional no formato daquela cidade.  Parecia uma cidade invisível de Calvino. Descíamos por um rio estreito e mal-cheiroso. Nas margens, carros e outros veículos circulavam em velocidades alucinantes. O barulho das sirenes, do atrito com o asfalto e de toda a vida urbana, entrava em mim como se fossem espinhos. Era preciso fechar os olhos para poder suportar aqueles raios sônicos.

Paramos em uma das margens e fui recebido por um grupo de mulheres. Estavam  me esperando. Levaram-me para uma espécie de feira, onde se encontrava de tudo, desde frutas a peças de automóvel, desde potes antigos de perfumes a artigos exóticos do oriente. As garotas eram como ninfas e pareciam flutuar. Tagarelavam entre si sobre assuntos que diziam ao meu respeito, porém fora do meu repertório consciente. Eram lindas, de várias idades e para cada uma havia uma energia diferente, um tipo de emoção ou pensamento reservado, como se as conhecesse de eras, mas em tempos diferentes. Resolvi interagir ao invés de simplesmente me deixar guiar. “A que caminho me levam”, perguntei. Para a tenda! Responderam juntas. Antes que pudesse falar, uma delas, loira com feições sinceras e justas, introduziu:

– A tenda é onde esperam você. “E o que tem lá”, você me perguntaria. Pois bem, ninguém sabe. Por isso estamos esperando você. É o único que pode entrar e descobrir o grande mistério – e todas repetiram, o graaaande mistério!

Uma vontade louca em atender estes apelos me fez seguir adiante. Pensei estar inebriado pela beleza das mulheres e, por um momento, também cheguei a concluir que poderia estar caindo em uma armadilha:qualquer um que aparecesse ali, era tratado dessa forma. E na tal tenda, um bicho ou maníaco era alimentado pela curiosidade e vontade de triunfar. Pareço estar sendo guiado para a berlinda.

É óbvio que quero ser o pavão, quem não gostaria? – pensei.

E até agora não sei exatamente o que aconteceu. Fui acordado pela minha mãe com dois comprimidos e um copo de água.

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