Kerouac vs Warhol

E lá vinha aquela bichinha em seus passos trôpegos, seu cabelo pousando no meio da cara e sua boca enrugada feito um cu. E caminhava como uma dama ou mesmo uma rainha. Seu olhar fundou o blazé na América.
E lá vinha aquela bichinha com uma polaroid na mão.

– Oi, bonitão! – disse abrindo aquela boca cheia de dentes feios e quase podres. Fiz cara fechada, mas foi impossível não responder. O que você quer? Muitas coisas! Respondeu sorrindo ainda mais. Franzi a testa e perdi um pouco da minha paciência. Eu já tinha tomado algumas e as papas não estavam na língua mais.
– Sabe Andy, eu até gosto de você – seu sorriso aumentou de tal maneira que ouvi até um uivo vindo de sua garganta. Principalmente, longe de mim!

Não pude agüentar aquele bafo escroto, dei um empurrão nele e sai para o balcão. Nem olhei pra trás. Depois me disseram que ele ficou uns bons dez minutos me olhando com ódio, como se fosse querer me matar. Eu nem me importei, muito menos a garrafa de whisky que estava me acompanhando. A manhã chegou, eu fechei os olhos e nem lembrei mais do caso.polaroid de si mesmo – andy warhol

O problema foi que a bicha parece ter ficado ofendida e começou a queimar meu filme em Nova York. Primeiro , ligou para uns caras da editora e pediu para não publicarem a reedição de On the road. Não sei de onde ele tirou poder e cara de pau para tanto. O foda era que ele sabia de muitas coisas e por isso tinha meio mundo em suas mãos. Apesar dessa tentativa, eu consegui ser mais influente do que ele e a edição finalmente saiu.

E ele tentou mais algumas vezes, de outros modos, acabar comigo. Até que, finalmente, no outono de 1962 eu recebo um convite para uma vernissage num endereço louco entre a primeira e a segunda avenida – pouco depois o lugar ficou conhecido. O que parece é que Warhol queria é que eu fosse o seu debbut naquele lugar – o prato principal de sua sandice. Quis armar para cima de mim.

Fui para o lugar com o pé atrás, mas alguma coisa me intuía para comparecer ao local. Tomei um baita susto quando vi que era um armazém abandonado e que ficava no meio do nada. No portão havia uma seta apontando para uma pequena porta e sobre a seta, uma frase bem sugestiva: “entrada para Jacks”. Ri da piada e me senti até meio lisonjeado. Entrei. O lugar estava escuro, mas tinha um cheiro incrível de flores e um barulho de engrenagens ao fundo, parecia que quando as luzes fossem acesas iriam ter ali uma quantidade enorme de abelhas catando mel.

Dei meus primeiros passos e de repente ouço um estalo, são as luzes. Elas se acendem aos poucos e percebo que não existe qualquer sinal de flores ou algo assim. Odores sem flores, nem abelhas zumbidos. Na hora eu até pensei que estava sonhando. Para minha surpresa, um anão pelado – apenas usando uma gravata borboleta, saiu de não sei onde e veio em minha direção com uma bandeja. Nela havia um copo com água. Quando o pequeno ser bizarro chegou até mim, percebi um bilhete sobre o metal da bandeja. “É para o senhor, cortesia de meu mestre”. Agora, eu tinha certeza que estava em um pesadelo. Retirei o bilhete e percebi que ele estava sobre uma foto. Era uma polaroid e estava virada de cabeça para baixo.

Abri o papel e li: “Jack, você nunca mais vai deixar de ser o Jack beberrão. Eu ainda SEREI e vou ver enterrarem você sem qualquer honra. Aproveite enquanto eles ainda te toleram e beba este veneno que eu mesmo preparei para você. Quem sabe, eles te mandem flores ou façam até uma placa. Com amor, Andie!”

Todos os demônios da China medieval vieram ao meu encontro me dando vontade de acabar com o pouco de vida que havia naquele corpo de anão. Mas eu sabia que ele era apenas o emissário e que seu “mestre”, devia estar escondido em algum lugar rindo da minha cara. Amassei e isolei aquele bilhete ridículo. Apertei o passo e já estava saindo quando escutei algo zunindo atrás de mim. Era a porra do anão com a foto na mão. “Joga isso fora pequena pérola do oriente. E manda o seu mestre ir dar a bunda pro elefante, vai ver assim ele aprende a ser alguém nessa vida!” Ele continuou exalando alguns sons e não sei por que, fui pegar a tal da foto. Só lamento Andy, só lamento.