Kerouac Vs Thoreau

O texto que segue é uma ferrovia. Tentei não subestimar Saturno, mas uni ao menos cinco temporadas da minha vida, mas não de forma CRONOlógica. Comecei o redemoinho caótico quando lia “Walden” e frequentava o colegial em Lowell . Eu e meu saudoso Sampas discutíamos Thoreau no caminho de volta para casa. Por vezes, próximo ao lixão, criávamos pensamento de futuro inspirados no coração forjado de auto-suficiência e sabedoria. Já em Columbia, pensamentos soltos e uma noite inspirada me garantiram 15 anos sem tocar no assunto. Dez anos mais tarde de novo e, agora, em meio a toda essa revolução da “liberdade”, escrevo aqui. Porém, ao invés de um texto subjetivo e cheio de conceitos filosóficos, preferi sustentar minha tese de que a sociedade e o homem não são compatíveis (até esse momento), criando um personagem que sou eu e é vários. A liberdade é criativa e reativa!

Fui para os bosques viver de livre vontade,

Para sugar todo o tutano da vida…

Para aniquilar tudo o que não era vida,

E para, quando morrer, não descobrir que não vivi!

Henry Davi Thoreau


Morava num vale um tal John Saltador. Ele havia perdido as esperanças na palavra e agora caminhava solitário entre as árvores e o riacho. Sua ordem era tão silenciosa que quem observasse o matuto, acreditaria que andava sobre as águas sem fazer barulho, sem remexer a vida que dali emergia e pra ali voltava. O Saltador passava dias sem emitir sons sociáveis, pelo menos entre os homens. Assovios, gritos e grunhidos, essa era a linguagem que abrigava sua vida silvícola. Acordava antes do sol, preparava sua nutrição com raízes e sementes. Colhia a água e verificava o pomar. Voltava das árvores com uma cesta de frutas da qual uma parte se destinava para dividir com pássaros, passarinhos e outros insetos e animais que quisessem. Assistia do alto das árvores a alvorada na companhia de cantos dos mais variados tipos. Dependurado, observando o horizonte com uma rádio orgânica e particular tocando em sua volta, em seu íntimo, agradecia à natureza pela oportunidade de seus olhos contemplarem tal verdade absoluta. Compreendia que o fenômeno não estava simplesmente no fato de estar ali, mas na possibilidade real de ser obrigado a ter a vida que a igreja, a comunidade, o juiz, o rádio e o político quiseram para ele e para todos. Que os vizinhos, a família, seus amigos, a vida, que todos querem para o outro e talvez, nem tanto para si. “Obrigado criação, obrigado pelos olhos que permitem receber timidamente a energia que nos envolve! Obrigado pela sabedoria e a clareza da vida simples. Mas, dai-me flexibilidade e liberdade para romper comigo mesmo e quebrar os vasos necessários para o amanhã”. Ouvia sua própria voz como se fosse também a de um velho índio, anterior mesmo à chegada dos colonizadores, uma entidade americana.

John Saltador nasceu no Colorado, em uma cidade distante 200 milhas de Denver. Trabalhou na prensa até os 18 anos. Fazia serviços gráficos enquanto se encantava com as notícias. Queria poder estar perto daquilo que acontecia. Não se decidia entre Los Angeles ou Nova York. Denver estava no meio, um entre-lugar, uma estadia, passagem. Ali não havia fato, tudo era composto pela verdade política. Estudou os maiores pensadores por conta própria e escolheu pela profissão de jornalista. Sua posição radical lhe tirou oportunidades, mas lhe trouxe a maior de todas: New York Times! Tudo aconteceu por que decidiu fazer um jornal por conta própria. Imprimia na gráfica em que trabalhava e saltava os jardins pregando a notícia na porta das principais casas da cidade. Sentia-se o portador da justiça, um mártir da inquisição, agora a mando da rainha liberdade, pregando cotidianamente a conduta livre e consciente como a possibilidade de justiça e júbilo. Mas fazia isso no interior. E quando se mexe em ratoeira de vila, o senhor manda a garrucha pegar fogo. Suas palavras eram tão verdadeiras que irritou do clérigo ao judeu, do marceneiro ao industrial. Nem os colunistas sociais escaparam e as frases também se direcionavam para as senhoras pudicas da sociedade que prendiam suas filhas e tinham medo de seus maridos. Em um pulo, foi pego com as cartas na manga e passou o que o diabo amassou. Seus pais se sentiram traídos, John sabia que o patrão de seu velho não iria gostar nada do que estava acontecendo, muito menos Martint, o padeiro que aliviava as contas no fim do mês. John caíu e estava sendo preparado para o linchamento público quando um repórter da grande maçã, passando pela cidade, resolveu saber o que estava acontecendo.

Desceu do carro e o fotógrafo o acompanhou. Aproximou-se de uma garota de vestidos verdes e chapéu e perguntou o que estava acontecendo na praça:

– Vão bater no Saltador.

– Ann, um ladrão?

– Rá, ela ri, quem sabe um Robin-Hood? Os donos da cidade estão putos por que ele diz o que realmente acontece. Como assim, perguntou o repórter. O John salta os muros das casas e coloca em primeira mão a edição do “Prawda” que criou por que ninguém quis ele trabalhando em jornais da cidade. Dizem que ele é comunista.

– E o que você acha disso?

– Eu não sonho em casar com ele, mas seria uma honra vê-lo escapar dessa arruaça. Acho que o John é um cara de capital, aqui ele nunca vai ter lugar, mas quem sabe onde confiem nele?

E assim foi, o jornalista apresentou seu crachá e o fotógrafo balançou a câmera. A ira da comuna ficou branda e ele pode conversar com o acusado. Seu esculacho não era coisa de justiça constitucional, era pelas mãos das crias e dos comparsas daqueles que se sentiam envergonhados e vaidosos com essa quebra de controle e poder. Precisavam colocar os pingos nos “is”. No fim das contas, naquele dia de enforcamento, o enforcado acabou tomando café na casa do carrasco. A providência do repórter gerou sentimentos paternos, algumas broncas e passadas de lição, mas nada que o prejudicasse tanto. Depois, foram no carro para Nova York. O jornalista queria que todos conhecessem o homem-jornal, aquele que conseguira movimentar uma cidade através de uma simples folha de papel com nome de panfleto russo.

John tentou se reservar, mas um monte de flashs e perguntas invadiram sua essência e isso fez com que o garoto achasse que sua altura tinha aumentado. Na vaidade, despertou suas armas contra os patrões hipócritas da América. Ganhou uma coluna e tudo que dizia enchia a redação de cartaz e telefonemas, muitas vezes recheados com ameaças de morte. Em uma correspondência, uma bomba não disparou por sorte. Mesmo assim, o filho do Colorado não temia a ninguém, estava na terra da liberdade. Quando não procurava temas conflitantes nas ruas, passeava com a garota de vestido verde pelas ruas de Manhattan. Curtia entrar em clubes negros e ouvir o melhor do beebop. Havia adquirido um hábito saudável de viver bem no meio da metrópole.

Com o tempo, a lua-de-mel com a cidade foi chegando ao fim. Por inveja, colegas tramaram notícias falsas e outras muito verdadeiras envolvendo pessoas da pesada e isso fez tombar de novo o velho saltador. Agarrou-se ao relacionamento com sua conterrânea, uma forma de se libertar da nova realidade cinza e seca da cidade do dinheiro e da vaidade. No banco, seu crédito acabou. Na redação, todos tinham receio de manter contato. Sua única amiga era a própria Burroughs, uma estridente carnificina social cometida a cada linha. Para deixar as coisas menos ácidas, Saltador foi designado para trabalhos no exterior. Assim, tiravam ele da reta e da rota e depois, com ele criticando ferozmente qualquer tipo de ditadura ou repressão seja ela bélica, poética ou social, seria fácil criar manchetes internacionais. Os Estados Unidos é um conjunto de nações de indivíduos e companhias, cada um trabalha por si, trabalhando por todos. A cada conquista, seja ela escrita ou filmada, o estado americano toma para si e como se seu  fosse. Desta forma, o jornal ganharia apoio de políticos e empresas e seus executivos ficariam mais ricos e poderiam comprar ações de empresas que exploram países pobres retratados como bárbaros e necessitados de ajuda.

John Saltador carregou seu inglês como o portador da liberdade. Entoou a América e seus exemplos de expressão encantaram alguns líderes. Ficou amigo de guias e incentivou o estudo nas aldeias.  Seus textos se tornaram conhecidos internacionalmente e foi um dos primeiros a dizer sobre a Palestina acossada pela trama judaico-anglo-saxão. Denunciou o abuso militar na Coréia e recriminou o que chamava de “Teatro da Informação”. Inflamou-se diversas vezes afirmando que pessoas interessadas em projetos militares e industriais implantavam falsas notícias e até forjavam fontes para que interesses fossem concedidos ou passados desapercebidos no noticiário. Dizem que é uma tendências dessa década.

Há cinco anos recebeu um telegrama enquanto perambulava pela África. Diziam inclusive que encontrou com o líder argentino  e  um colega francês, Debret, em uma experiência de guerrilha anti-imperial no Congo. Era o governo americano o convocando para uma condecoração federal em cinco dias. A passagem estava comprada e reservada para dali dois dias. Sua percepção paranóica o fez acreditar que era um plano para tirá-lo de circulação. Definitivamente em desacordo, queria acompanhar o desenrolar da guerra civil e não iria embora a menos que todas as formas de liberdade estivem tomadas. Tinha seu plano de evasão pela própria savana. Há alguns meses estudava rotas em eventuais situações de risco excessivo. Todavia, antes de responder, iria consultar sua mulher sobre o que ela acharia. Sara era sempre a favor que ele estivesse na América, porém John sabia quando ela estava falando por si e quando falava por ele. Sua voz mudava e mesmo ela não percebendo, Saltador sabia que um conselho para seguir de verdade.

– Meu John, venha para nós, vai ser muito importante. Todos estarão lá, mesmo os que trataram você como um lixo.

– Não Sarah, não posso deixar o povo aqui sem ninguém que leve ao ocidente a verdade. Os Estados Unidos não podem me calar.

– Deixe de ser utópico Saltador! O Edward disse para ficar quieta, mas essa condecoração é uma forma de trazer você de volta antes que a bomba estoure. O levante já dominou Mag e em poucos dias não haverá como sair daí. Vem pra casa!

– Não posso!

– Vem, estou grávida!

Sem pensar muito, John saltou do meio do continente africano e em pouco tempo já estava nos braços de sua amada. Sarah já havia tentado engravidar algumas vezes, mas nunca obtivera sucesso. Sua idade já estava avançada para o primeiro filho, porém esse era o sonho do casal. A situação e o seu apelo à vaidade, contribuíram para seu ritmo diminuir e logo depois da condecoração, por coincidência. Apreciava ficar pensando no quanto liberta seria uma criança no mundo. Acompanhou o crescimento da barriga e vivia um sonho. Seu discurso inflamado aparecia de vez em quando e cada vez pedia perigosamente para um discurso conservador, unindo à verdade, o casamento e o amor familiar.

Por obra do acaso, Saltador foi realocado para a seção de crimes e violência. A diretoria confiava que suas palavras poderiam ter efeito sobre os jovens e os pais também concordariam. Escrevia sobre a possibilidade de no futuro as ruas estarem tomadas por câmeras vigiando a violência e a vida íntima das pessoas. Isso ocorreria se as pessoas não parassem de desejar a cascata infinita de ouro. Suas palavras à esquerda davam um ar fantasiado ao que realmente importa para os americanos: liberdade para consumir. John funcionava como uma espécie de humorista místico especialista em geopolítica e teoria da conspiração. Isso divertia algumas pessoas. Em uma pesquisa sobre delegacias de polícia, apresentou-se como repórter e teve acesso ao delegado. Iniciou uma conversa trivial e informou que seu foco era sobre “pessoas presas por engano”. O delegado, sentindo-se ofendido, acabou derrubando uma pilha de pastas em sua mesa. John prontamente se ofereceu para catá-los. Quando abaixou viu um envelope e lhe veio uma sensação horripilante de náuseas. No papel pardo, seu nome. John Elliot, vulgo Saltador. Surpreendido e sem saber o que dizer, apoderou-se do documento e levou consigo. Mais tarde, em liberdade, abriu para ver seu conteúdo. Eram fotos de sua esposa na companhia de homens vestidos como federais. Em outra, Sarah aparece falando ao telefone. Ao ver a foto, John se familiarizou com a cena, porém a mesma náusea arrepiou seu espírito. Imaginou que era ele que estava do outro lado da linha, mas encheu os olhos d água ao reparar o homem que caminhava no canto do quarto. Alto, com a mão no queixo, como se interessasse pelo o que Sarah falava ao telefone.

Seu instinto elevou sua preocupação e até duvidou da paternidade da criança. A noite em casa tentou entrar no assunto de forma simples, mas Sarah parecia preparada para a situação. Entrou em crise e assustou a companheira. Na manhã seguinte, deu a entender que sairia para o trabalho, mas se escondeu no escritório. Por azar, ali o fio de Ariadne se desenrolou. Sarah foi ao telefone reclamar com uma outra pessoa sobre a desconfiança do marido. John percebeu o carinho com que tratava o interlocutor e sua tristeza foi maior quando conversaram sobre a criança e sobre o fato de John não ligar para que o bebê se chame Phillipe, tal qual o pai daquele que estava no outro lado da linha. Sem revelar sua consciência, Saltador saiu de casa e percorreu as ruas sentindo a dor no espírito. Os olhos tentavam em vão segurar as lágrimas e a boca se contorcia. Com mais duas ou três vasculhadas descobriu toda a trama. E ali percebeu que a liberdade oferecida, realmente era uma liberdade vigiada. Havia muitos olhos e interesses por cada passo na sociedade. As pessoas geralmente eram interesseiras e raramente estavam sendo espontâneas. O motivo da condecoração era realmente tirá-lo da rota de notícias sobre a exploração de pessoas na pesquisa de medicamentos e na extração de petróleo. Suas matérias comprometeriam interesses reais de estado. Todavia, antes mesmo dessa possibilidade ser implementada, o agente especial do governo Daniel P. Thomas já se encarregara de seduzir Sarah Elliot. Com o tempo, as informações se tornaram carinho e logo amor. Como sabiam do sonho de John em ter um filho, combinaram não se cuidar. Assim, com dois trunfos, tiraram o jornalista do fronte e da sociedade. Sem dizer muito, datilografou alguns parágrafos, foi à prensa do NYT e pediu autorização para uma tiragem. Obteve. No dia seguinte, as ruas amanheceram com seus postes decorados com uma folha simples de papel com palavras um tanto quanto pesadas. Desde então, ele procura se descobrir no silencia, pois se descobrir é poder avaliar o que é liberdade, o que é real, o que é liberdade real. Ele queria apenas se libertar da vontade de ser livre e viver numa vida de entendimento e verdade.

Segue um extrato, muito se perdeu:

“A vida é política. Agora vou criar o meu partido. Ele vai se chamar EU. Quem quiser que me acompanhe, irei para uma floresta de EUs, onde o mundo é sozinho e silencioso. Porém, não serei óbvio de furtar-me do mundo, com o tempo a minha política vai ser de novo a vida. Por enquanto, quero estar longe de qualquer um para refletir no espelho que brota livre no mato, onde converso com quem canta pra mim. A cidade é o homem da cidade, cinza, sem coração, racional, com cores artificiais”.

Este encontro foi uma sugestão do Gian Martins!

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