Kerouac vs o Passado

A gente acha que conhece uma mulher pelas palavras que ela diz, pelos olhos que brilham quando você sorri e pelos sussurros na trepada. Mas tudo isso não passa de uma impressão machista e ocidental. Não sei, mas tenho a ideia de que reparam as coisas com um outro olhar, de um outro lugar. A maioria do que achamos ser o que dá tesão, talvez seja detalhe que acrescenta e não necessariamente, decida uma escolha.

Em uma noite regada a vinho, erva e muitas outros paraísos, quando nossos amigos se apresentaram em um festival na praia e eu tinha a exclusividade de um bangalõ para saciar minha sede de sexo e alucinação, minha vara de condão resolveu não encontrar a lua. Fiquei obssessivo e obscecado pelas forças naturais terem me feito falhar com a deusa da primavera que visitava minha cama. Ela dormia de certa forma saciada, porém intrigada com minha reação raivosa diante a inatividade de meu ex-melhor amigo. Fiquei o resto do dia me tocando na esperança de que algo reagisse e eu a surpreendesse com o melhor sexo de todos os tempos.

Apesar de tentar,  meus galhos não deram flores nessa estação. Perdi a moça e a estima. Precisava de um amor e isto estava claro. Gostaria muito que fosse um amor beat, que viesse das ruas, que curtisse o beebop e amasse galerias de arte e saraus. Pois, apesar de ser de saco cheio de poses artísticas, eu curto mesmo coisas densas, coisas mal-feitas, mas realizadas, acionadas pelo autor, com sua expressão ou pelo admirador com seu amor.

Uma vez recebi uma carta. Uma mulher de Lowell me parabenizando pelo livro  – o único que foi publicado. Conhecia sua família, conhecia sua história. Ela era uma das personagens da minha trama. Era a irmã do melhor amigo de um dos meus alter-egos. No verão deste ano, resolvi dar uma volta na velha e pacata cidade da minha infância. Passei pelo rio, passei pelas velhas fábricas abandonadas, pelos vidros da prefeitura, pelo campo de futebol da escola e pela irmã do meu melhor amigo, morto aos 18 anos.

Ela sempre fora um ano mais nova que todos nós. Era a mais bonita e esperta de todas. Nenhum menino conseguia ver sua calcinha e tinha um apreço muito interessante pela vida natural. Adorava se banhar nua na lagoa Houston. Hoje, temos 10, 12 anos a mais do quando nos vimos pela última vez. Sou um homem de 34 anos e ela tem 33. Já passamos por várias experiências e algumas foram juntos, como a morte de nosso irmão. Porém, nada me tiraria da cabeça que ela era a grande mulher da minha vida. Aquela que havia escolhido para ser minha Julieta. Uma pena eu não ter colhão para interromper o trem e paralisar o meu amor aqui mesmo, em Lowell. Só assim, nessa vida me será permitido viver o amor antes de qualquer outra ilusão que a sociedade dos homens sérios e corretos irá me oferecer.

Há dois meses parti de Lowell, voltei à estrada, estou em Nova York e sigo nas ondas de Charlie Parker – que Deus o tenha!

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