Kerouac Vs Camille

Uma imensa dor corrói o meu espírito há cinco longos dias. Ela simplesmente deixou a casa e partiu. Não disse nada, nem antes nem depois. Bateu a porta forte o suficiente para que entendesse que não devia gritar por ela na janela. Torci meu estômago e meu coração alcançou a goela. O ar me escapa aos poucos e fere o pulmão. A mente não consegue se desviar senão pelo seu corpo imaginário e seu sorriso ébrio. Pensei em me enforcar, achei exagerado. Pensei em auto-flagelação, logo logo me arrependeria, nenhuma das duas dores passaria na velocidade de um avião. Estou entregue ao mundo, meus olhos caíram, minha boca murchou, meu pau é uma meia velha, vazia e abandonada.

Conheci a maldita em um dia louco de bebop. Zum, zum, ducupaque, pra paque, pra paque, tum dum. Estávamos todos muito altos e ela veio na companhia de Chad – grande amigo, por sinal. Tímida e ao mesmo tempo, audaz, seu jeito era o próprio paradoxo. Olhos negros, grandes, arredondados. Ah e os lábios, putaquepariu, que boca perfeita que me presenteou com momentos sublimes, dionisíacos, presentes em minha alma chorosa. Não há mais como, não há mais beijos doces. A maioria das garotas costuma ficar quieta em um canto de boate na América até que alguém ou as assuste ou as conquiste. A maldita, por mais que ficasse com vergonha de qualquer elogio, antes que qualquer sacana tenha ido ao seu encontro, inaugurou a pista de dança do lugar, balançando o perfume do seu corpo sobre o nariz de qualquer que tivesse olhos para ver aquilo. Um flashback abriu as portas do meu passado. O velho mestre budista e sua mensagem de esperança: “só assim, Jack, só dessa forma meu caro”. Ele dizia sobre o “outro”, o grande “outro” da minha vida. Somente quando conseguisse ser cego de amor, um verdadeiro servo, seria realmente e definitivamente alguém nesse mundo. “Pequeno J., alguns vivem para o sacrifício, outros para a festa, sua alma não sabe qual caminho deve seguir, é uma alma solitária, mas que precisa aprender a se doar para o outro, para uma mulher”.

E no meio de toda essa confusão mental, uma imagem nada desagradável interrompeu meu pensamento. Percebi que seus olhos miravam minha admiração. Ela me olhava e eu me sentia um privilegiado. Tomamos vinho, conversamos sobre literatura e antes que percebessemos estávamos morando juntos.  Eu, ela e minha mãe.

É claro que a velha iria querer saber quem era aquela outra xóxota que tava chegando naquela casa. Primeiro foi cordial, sem muitas palavras. Com o passar dos dias, quis saber sobre a família, as preferências religiosas e outras coisas do passado da moça. Isabela, claro, ficou desconfortável quando minha mãe perguntou o que achava dos judeus do bairro.

– Bom, eu… sou judia.

– Ann… mas seu sobrenome é latino, é Oliveira. Como pode?

– É que somos cristãos novos. Só conseguimos sair da Europa quando trocamos nosso sobrenome. Mas meus bisavós conservaram as tradições judaicas e quando conseguimos nos estabelecer em São Paulo, recuperamos nossa religião.

– São Paulo? Bem que notei um sotaque.

– É sou brasileira.

– Ann… minha virgem! E minha mãe saiu assustada da sala, indo para o altar que ficava em seu quarto e passou a rezar com seu terço durante a noite inteira.

– Te-jean, disse Isa, sua mãe parece não gostar muito de mim. Fiquei ofendida como ela me tratou.

– Você não entende pequena. Ela acredita que estou prometido. Sonhou com um santo antes do meu nascimento. Acha que irei encontrar a minha rainha perdida. Somos católicos e minha mãe é da ala mística, sempre me disse muito mais coisas interessantes que o padre ou qualquer outra carola.

– Então quer dizer que estamos fadados ao fim?

– Claro que não. É tudo uma questão de fé. Quem sabe você não é essa tal sereia que irá transformar a minha vida?

Minha mãe passou a exercer uma pressão sobrenatural sobre a garota. Todos os dias quando estávamos quase gozando juntos, batia a porta do quarto e fazia uma pergunta tola do tipo: “Você acha que irá chover hoje?”, “Botou o lixo pra fora?”, “Jack, o padeiro separou de sua mulher!”. Apesar de amar muito mamãe, decidi que naquele dia em que perguntou se iria dormir em casa (claro, durmo todos os dias), não iria ficar quieto. Levantei, meu pau já tinha se escondido nos pentelhos e me vesti. Saí do quarto e minha mãe estava chorando na cozinha.

– Mãe! Por que faz isso comigo?

– Faço o que?

– Atrapalha meu relacionamento com Isabela! Porra, já estou de saco cheio das suas…

– Mas, Jean… eu só acho que…

– O que? – interviu Isabela, entrando de camisa e calcinha, provocando a velha.

– Vocês dois são corruptos! Vivem sob o pecado. E colocou a mão na cara e saiu chorando para o seu quarto.

A noite, claro, não parou por ali. Isabela também chorou e suas lágrimas me deixaram tristes e impotente. Não consigo sair da barra da saia da minha mãe há cinco anos. Não sei se sou corajoso por isso, ou covarde! De qualquer forma, seria o inferno se morresse morando com Camille Kerouac. Eu não sou mais criança!

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Kerouac morreu em Pittsburgh, Flórida, em outubro de 1969. Morava com a terceira esposa - irmã de um grande amigo morto aos 18 anos - e a mãe, Camille Kerouac.

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