Kerouac Vs Pollock

Já era tarde da noite e Lee insistia para que continuássemos em nossa bebedeira alucinada de três dias. Eu não conseguia mais distinguir entre o que era verdade e o que não era mentira, minha cabeça estava intoxicada demais para querer conceber a realidade das coisas e por isso, meu corpo era guiado por um pavio curto de energia que não me deixava capotar. Jackson parece ter percebido a minha confusão e prometeu contar uma historinha para me fazer dormir tranquilo. “J. eu vim de Cody, no Wyoming. Minha mãe era filha de católicos e desde pequeno, quando eu acordava assustado com a vida e parecia mais desprotegido que um órfão recém nascido, ela me contava a história completa do menino que havia se perdido dos pais e fora se encontrar com alguns doutores no templo”. Tentei dizer a ele que já conhecia aquela história por que minha mãe também já tinha me contado aquilo tudo, mas não consegui falar nada coerente naquele instante. Abaixei minha cabeça entre as pernas e tentei despertar meus ouvidos para a lição que iria escutar, como se nunca tivesse ouvido aquela historinha:
– Você entende, cara. Ele era um moleque apenas, a porra de um menino. Naquela época, os judeus não aceitavam as palavras de qualquer coisa que não fosse macho e com mais de trinta anos nas costas. E ele era um menino e dizia para um monte de caras bem mais velhos, sábios sacerdotes, rabinos, dizia a verdade do que estava escrito, do que havia sido dito e do que ainda ninguém tinha nem pensado ainda. E você acha que ele aprendeu isso lendo alguma coisa?
– Não sei, acho que não. Nem todo mundo devia ter acesso à leitura naquele tempo…iic
– Pois então – levantei minha cabeça e vi seus olhos brilharem para o infinito, ele sentia Jack, ele sentia o universo sem que pra isso tivesse que transformar em palavras, regras, símbolos. No máximo, deixava seu espírito fluir pelo pensamento e dizia um monte. Se livrava das próprias paranóias, expulsando-as como se fossem demônios.
– Se as portas da percepção fossem abertas, tudo pareceria ao homem, como realmente é… broughtt, vomitei em cima de uma tela que ainda não estava terminada regido pelas palavras de Blake. Jackson, como qualquer pai, quando percebeu que eu iria atirar substâncias internas na realidade, tentou afastar a sua obra, mas não teve tempo suficiente, sendo também atingido pelos pedaços mal digeridos de comida e bebida.
A partir dali apenas fui galgando o precipício dando mais trabalho a cada 10 minutos. Não parei de vomitar e fiquei até a manhã do outro dia agonizando e recebendo líquidos mal cheiros preparados por Lee. Quando ficava sozinho no quarto, conseguia dormir, mas pouco tempo depois meu corpo reclamava do mal uso e eu acordava com a mente atormentada de culpa: eu havia vomitado no quadro de um dos caras mais obsessivos e talentosos que havia conhecido. Por sorte, Pollock não ficou assim tão revoltado, afinal sentiu alguma ligação sincera e conectada à Jesus, Blake e nós dois ali, de porre e falando um monte de besteira para a maioria das pessoas. Entretanto, não continuo a coser sua arte naquela tela, abandou no projeto 73 e partiu para o próximo de sua imensa e iluminada lista de intuições e sentimentos plásticos.

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