Kerouac Vs a Alienação

Em uma aula, há duas décadas, fui constrangido na frente de meus colegas por dois motivos: o primeiro por que era jogador de futebol e por isso, não poderia ter qualquer conteúdo próprio. Depois, por que um maldito professor insistiu para que eu definisse o que era alienação, não da maneira como eu penso que seja, mas segundo algum pensador oficial que estivesse grafado em um livro oficial. Bom, para não seguir o exemplo de meu “mestre”, deixo para que vocês dêem o próprio significado de alienação e para as pessoas que dela se nutrem. Eu só sei que nada sei.

Quando você passa muito tempo andando por aí, você começa a querer ficar amigo de qualquer pessoa que lhe pareça bacana. E a ronda solitária pelo asfalto e poeira, te faz sim, perceber como as pessoas são parecidas e que várias interpretam os mesmos personagens mudando apenas de latitude e sotaque. Porém, andar sozinho por ai é andar por ai conversando consigo mesmo, revisando constantemente o próprio íntimo. Quase todo velho andarilho, por mais bêbado, delinquente e mau-caráter que tenha sido em todos os dias de sua passagem, ele sabe muito bem que a solidão nos aproxima do deus interior e este sujeito (que pode ser muitos) sempre nos revela coisas interessantes e sabedorias que carregamos para a vida aqui fora. Conheci muitos sábios ignorantes da própria grandeza em várias caçambas de caminhões podres, espalhados pela América. Será que nasceram dessa forma ou o andarilho-ancião é um tipo de fórmula búdica potencial?

Quando percebia alguém diferente do comum e bem próximo ao meu ideal de “vagabundo iluminado”, olhava para o rosto do candidato a amizade eterna e deixava que ele falasse um pouco, só para ver como que se colocava para “o” fora. Gostava mesmo de vê-lo em ação com terceiros, como que tratava os outros. Aliás, um dos hexagramas que mais me atrai no i-Ching é traduzido muitas vezes como “nutrição”, é o de número 27, os cantos da boca. Suas linhas possuem uma simetria especular perfeita. Embaixo o trovão, em cima a montanha. Ele fala do vazio existencial que há entre nosso espírito e o mundo, entre nós e as outras pessoas, entre tudo e qualquer coisa. Esse é o intervalo que o microscópio do homem não consegue se aproximar. Ele só vê a matéria e a sua ausência, não percebe que há um vitae espalhado pelo éter que completa a quietude da vida. Perceber como as pessoas alimentam seus semelhantes é entender como estas mesmas personas se alimentam. É preciso olhar para o outro e preencher este vácuo, é disso que estamos sedentos, é por isso que realmente vivemos. Temos que tirar o pé da lama que nos imobiliza e nos deixa inerte. É preciso ligar a luz do mundo.

Não sei como dizer isso nos dias de hoje. Ninguém mais quer saber de refletir para o dentro. Todos (a maioria dos cidadãos que encontramos aleatoriamente nas ruas) não precisam mais pensar. Há uma caixinha com luz, onde um babaca com pose e óculos fala como se fosse o próprio Mercúrio. As pessoas simplesmente se sentem comovidas com o monte de baboseiras que estes espíritos oportunistas divulgam e agora creem que não precisam mais crer em nada, não precisam se dar o trabalho de pensar em nada. Apenas, apenas escolher, escolher em que acreditar, como e de que forma. Eu estou farto das ruas cada vez mais cinzas e melancólicas. A vida colorida da juventude parece estar congelada dentro da sala de alguma família nova rica. E agora, o governo manda até o operário, o chão de fábrica, adquirir sua caixa de Pandora. Dá até subsídios para que o americano que sustenta seu país trabalhando duro, mesmo sendo explorado por patrões impiedosos e sendo humilhados por capatazes broxas, compre sua televisão, o recurso final para a depressão real da ordinária vida cotidiana. Quem dera meus amigos conhecidos nos quintões das vias mais remotas, verdadeiros vagabundos entronizados do paraíso para a proteção dos dessa terra, pudessem correr ao meu lado e as horas de música, arte e literatura, filosofia, religião e meditação pudessem ser vistas e ouvidas por todos os outros que não são vagabundos e que vivem a vida oficial das pessoas da América careta que os protege, prendendo-os a crenças sociais ignorantes e cheias de preconceitos. A porra do indivíduo só consegue pensar por si quando o seu corpo está uma carcaça velha e desbotada, quando não tem nem mais força para falar qualquer coisa e ninguém também quer ouvi-lo.

Quando jovem e forte, com a potência mental e física avantajada, o homem não quer saber desse cimento universal que nos cola uns aos outros e nos deixa de fato existir. Queremos apenas cuidar do nosso quadrado, tijolo, de nossa coordenada. Somos poços imbecis de poder. Arriscamos aos 20 e poucos a possibilidade de ficarmos eternamente congelados e embasbacados com os sons que penetram em nosso terreno. Deixamos qualquer vontade de produção ligada apenas ao bem fazer para nós mesmos. Não percebemos o quanto é necessário sair às ruas, levar tapa da corja alienada. Só dando a cara a tapa é possível revelar ao ignorante a essência da vida. Somente através da resistência pacífica é possível almejar qualquer possibilidade de pensamento verdadeiro e iluminado de quem lhe ataca.

O perverso alienado, em seu mundo de violência física e retórica hierárquica, só enxerga a punição física e econômica como possibilidade de superEgo, de freios para o seus instintos e vontades. Assim, quando lhe vem a ordem de um superior (que em verdade, dele tem nojo) para bater com força na cabeça daquele que perturba o sistema, sua boca enche de saliva e possibilidade de gozo – são os cantos da boca do i-Ching 27 para o funcionário coercitivo do estado e do capital, se quebram na mandíbula de sua hierarquia. Porém, se a mosca na sopa simplesmente para no ar e não tenta se desviar do golpe, o imbecil ignorante não sabe mais como agir. Passou boa parte da vida amedrontando, resolvendo todos os problemas dos outros, aterrorizando e ouvindo as clemências de seus sacrificados. Ele só consegue entender a mosca como um filho da puta covarde que foge da luta, pois sabe que irá apanhar. Quando o que normalmente foge faz diferente e lhe oferece a outra face, dando-lhe o manto da sabedoria, o grande posso de ignorância vasculha o vaso pobre e vazio a procura de sua própria essência. Olha para cima, coça o cabelo, vira o pescoço, tenta enxergar alguém que possa lhe dizer o que fazer quando os coagidos agem de forma diferente do que se espera. Ele não sabe, não tinha isso no treinamento. Não tinha por quê seus treinadores também são parte de uma linhagem de cães treinados não se sabe por quem, mas que responde de forma positiva aos apelos dos outros e não consegue nunca se lembrar de como é possível pensar e construir o mundo a partir de outras formulações, como as próprias. Fico com muita pena quando vejo pessoas que simplesmente aderem a movimentos violentos por que são carentes em si e por si. Queria muito que essas pessoas conhecessem os beats, que ouvissem jazz pelos alto-falantes das esquinas caretas de Manhattan, que pudessem desenhar nas calçadas seus sonhos e pintar seus desejos nos muros que escondem a passividade. É preciso nutrir essas pessoas com ideias que criam ideias. Elas precisam criar suas próprias convicções, trabalhar o que há de mais puro em suas essências, recorrer ao deus atômico que tem a garganta fudida de tanto gritar para que a alienação cesse!

Basta!

Let It Beatnik

J,

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