Kerouac Vs Calvino

Sem dúvida era uma trilha. Mas também poderia ser um tipo de escada em caracol que sobe e sobe e chega a um lugar tão minúsculo que apenas um patriarca seria capaz de se estabelecer equilibrado por ali. Caminhava não mais por minha própria vontade, mas uma força guiava meus pé e empurrava minha perna em direção a algum lugar no meio do não sei o que. A verdade é que me sentia em uma espécie de literatura de ficção, algo como um Calvino e seus cavaleiros inexistentes. A fina trilha agora se abria em uma estrada, não de asfalto ou poeira, mas daquelas medievais em que poucas charretes e cavalos circulavam por ali. Um segundo antes não sentia sede, mas foi apenas o pensamento dessa constatação me vir, que logo entrei em um pânico inenarrável em busca de um gole sequer de água. E tudo parecia árido como em um deserto. E só havia o caminho e gados secos na paisagem. Meu corpo parecia guiado por algo sobrenatural enquanto minha mente se debatia entre entender o que havia comigo e a sede incontrolável que sentia. Por pouco não me empapei com um monte de areia fina que pensara ser um lago. Pura miragem.

Quem sabe um conto de cavalaria?

De repente, uma esperança. Ao longe, o barulho de uma fonte encheu minha alma de esperança. O corpo por mais certo de sua direção, provavelmente chegou a conclusão de que também dependeria de água para prosseguir em sua jornada. Obviamente, tive que me desviar da estrada para chegar mais próximo ao som da queda. Entrei em uma floresta que não mais era desértica. Me vi, por um instante, como um bardo. A bolsa que carregava, não continha apenas roupas de viajantes, mas poções e outras ervas que curavam e que matavam também. O livro, o caderno e o lápis se transformaram em uma espécie de harpa medieval e mesmo com toda a sede do mundo, meu corpo e minha mente entraram em sintonia. A mão pedia a harpa e o espírito queria a música. E como um sátiro, saltitei feliz entre as enormes árvores, verdadeiros gigantes de vida.

Meus olhos já enxergavam com razão  a bela lagoa que iria me servir de paraíso. Deixei meu instrumento de lado e caí de joelhos no leito. A água parecia bendita e nada iria me forçar a não experimentá-la. Enquanto minhas mãos seguravam alguns mililitros, um grito ensurdecedor se fez presente, vindo não menos surpreendentemente, da própria lagoa. Uma mulher linda e aterrorizada emergiu do fundo das águas e assustada nadou nua até a margem em que me encontrava. Seus olhos miravam assustados algo que lhe perseguia e que poderia a qualquer momento emergir também. Consegui dar uma golada antes de envolvê-la em meus braços e gritando para que se acalmasse.

– Olá senhor, me disse, um homem muito trevoso me persegue. Por favor, use a sua espada para detê-lo.

– Ann, espada? E quando olho ao meu lado, minha bagagem agora era uma armadura e minha harpa, uma linda espada de duas mãos. Uma incrível força se apoderou de meus braços e a coragem passou a calar minha inoperante covardia. Pode ficar tranquila donzela. Vista-se com meus trapos e fique escondida entre as árvores. Nada de mal acontecerá a nós.

A garota então tratou de se proteger entre alguns arbustos e ainda tive tempo para reparar na beleza de seus traços inferiores, uma linda orquídea rósea. Tinha certeza de que dois personagens estranhíssimos no mesmo lago não poderiam aparecer na mesma hora. Porém, quando vestia minha cota de malha, um estremecer nas águas me fez acelerar o processo. No meio do lago, um nobre cavaleiro se ergueu das profundezas. Seu cavalo não cavalgava sobre a água – só faltaria essa, mas ainda assim era grande o suficiente para mostrar seu cavaleiro até as botas. Em minha diplomacia, esperei estanque na margem da lagoa, olhando-o com nobreza e hombridade. Quando me viu, tratou de falar:

– Quem és cavaleiro, de qual casa pertences?

– Sou Ti-Jean Lebri de Kerouac, da Bretanha.

– O que fazes tão longe de suas terras?

– Não sei onde estou… tremi nas bases, evocando o meu personagem real.

– Como não sabes? Não tens juízo cavaleiro sem cavalo? Não sabes que nestas terras quem está perdido não voltas para o lar?

– E o senhor sabes onde nos encontramos?

– Ah, você acha que serei tolo o suficiente para deixá-lo sair desse bosque? Qualquer informação bastaria para que encontrasse o final deste martírio. Prefiro que os lobos comam você a minha princesa.

– Princesa?

A princesa de um cavaleiro é o seu dragão da maldade

Neste momento, o cavaleiro já havia deixado seu animal e tomava água de uma espécie de cantil. Olhava atento para o interior da mata e ao mesmo tempo, procurava consultar o céu, ainda claro, mas com o fim da tarde se aproximando.

– Se tu vieres comigo, irei conceder-lhe informação suficiente para que saia desse reino da confusão. Se ainda quiseres mais, torna-se -a meu servo e lhe responderei todas as perguntas possíveis. O filho da puta viu minha expressão de fausto satisfeito e prosseguiu: Claro, cada uma a seu tempo.

– Bom, não sou homem de servidão, mas me interesso em lhe fazer algumas perguntas, mesmo que não me responda onde estou. Isso tenho certeza que saberei a noite, quando as estrelas estiverem aparentes.

– Não há tempo a perder. Minha esposa se foi e não posso correr o risco de um animal querer ferí-la. Preciso que esteja viva, não poderia viver sem o seu amor.

Estava bastante confuso com aquela situação. Não sabia se ela estava ou não fugindo do cavaleiro. Muito menos se ele estava a salvá-la de um terceiro perseguidor. Era para ser uma decisão rápida, porém minhas dúvidas parecem ter influenciado na passagem do tempo. O homem me esperou e não me apressava. Enquanto me decidia, ele limpava sua armadura, ele enchia seu cantil, dava água ao cavalo e até deu um cochilo. Quando me decidi partir ao seu lado, mesmo não sendo seu servo, ele não reclamou muito. Apenas disse que se encontrássemos o corpo dela na floresta, os lobos encontrariam o meu em seguida. Engoli seco, mas continuei com minha pose. O cavaleiro que se chamava James achou melhor que dormíssemos.

Com toda aquela confusão, acabei ficando muito cansado e mesmo com medo de ser morto durante a noite, dormi profundamente. No sonho, estava em Nova York. Parecia ser um tempo diferente daquele que vivia, uns 10 anos no futuro, por volta da década de 70. Tudo estava estranho, as ruas mais sujas do que nunca e muitos jovens circulavam por elas, com roupas nem um pouco convencionais e geralmente, maltrapilhos. Estava em uma larga avenida e um telefone começou a tocar insistentemente. Fui atendê-lo. Era pra mim!

– Hei, K. O Chad vai receber um grupo de músicos em sua galeria. Acho que vai ser bem legal. Vê se aparece cara, estamos sentindo sua falta.

– Ei, quem tá falando?

– Po, K. Está ficando doido mesmo, hein! Sou eu porra, Gregory! Bom, pegue o 27 na 32 e chegue até aqui logo.

Fiquei estarrecido. Não sei se com o fato daquele telefone ter me encontrado quilômetros de distância ou se foi quando levantei meus olhos e o número 32 era o da rua que cruzava aquela avenida exatamente naquele momento. Por um instante até vi uma lanchonete em que a logo era um coelho branco. Ri, claro. Entrei na linha de ônibus e me sentei ao lado de um garoto com feições interessantes. Não era branco o suficiente para um americano, nem característico o suficiente para um latino. Seria um europeu, do leste, dos Bálcãs? Ou não, alguém de origem mais latina, um italiano, espanhol.

– Holla, como te llamas?

– João. Y tu?

– Jack, John, Jean… hahaha. Kerouac!

– Hahaha… o poeta beat?

– Sim! Me conhece?

– Claro, há três dias estava na Flórida, sobre o seu túmulo. Hahaha…

O que? Morto, na Flórida. Isso parecia surreal ou pelo menos, um erro. Não morri, meu caro Joao.

– Haha, como vocês não conseguem dizer o ão. É ão Géquí. Tudo bem. Estamos nos anos 70. Aquárius já aconteceu e toda a conspiração é válida. Fiquei sabendo que alguns turistas encontraram o Morrison no deserto de Gobi. E a Jannis foi vista lá perto do Rio. Agora, só falta o Hendrix aparecer em uma tribo africana. Hahaha!

– Você não esta me levando a sério, né garoto. Nasci em Lowell, 1922. Sou filho de …

– Tudo bem, tudo bem. Já li sobre você. E claro que se não for o Kerouac verdadeiro, é um cara realmente parecido com ele. Não se sinta ofendido por todo mundo achar que está morto. Isso talvez seja uma vantagem nesse mundo louco pós-Vietnã!

– Caralho, moleque! Vencemos?!

– Claro que não venceram. Saíram de maus na história e agora, o cinema daqui tenta justificar seus erros fazendo um monte de filmes patrióticos e mentirosos com heróis escrotos.

– Peraí, você não é americano mesmo, né?! Da onde…

– Brasil. Conhece?

– Claro. Nunca fui, mas sei onde fica no mapa! Hahaha… Onde está indo?

– Numa galeria, a exibição de uma banda brasileira. Sou jornalista  e escritor, prazer.

Ultraviolência?

Então estávamos indo para o mesmo lugar. Incrível. A banda, Os Mutantes, era de São Paulo, a maior cidade da América do Sul, maior até do que a gigantesca cobra Ciudad de México. Saímos do coletivo e ele me contava as suas ideias hippie ultrapassadas que queria implantar no seu país tropical. Havia anos que aquele papo era motivo de muita raiva da minha parte. Quando algum jovem começava a dizer que havia sido sua inspiração para sair por aí, minha vontade era de dar um soco na cara dele. Mas esse dia louco só me fizera transformações. Acabei me interessante por aquele papo todo de nova era e fiquei entretido até chegarmos na tal galeria. Lá dentro uma multidão de pouco mais de cem pessoas aguardava o início do show. Passei por todos sem reconhecer qualquer um e ninguém parece ter me notado também. João me apresentou a alguns amigos como Jack. Dei boa noite e disse estar ansioso para ouvir o som dos jungle boys. Todos riram, acho até que ficaram ofendidos. Não sei exatamente.

E naquela noite eu me transformei em um lord e fui suficientemente beatífico como não era desde os 28 anos de idade. A música psicodélica e deliciosa entrou em minha alma pelos flancos e perfurou qualquer possibilidade de tristeza ou insegurança. Meu corpo parece ter despertado e voltou a dominar meu ritmo. Todavia, o caminho que seguíamos não era mais o da floresta ou do deserto, mas sim, o das ondas da luz lasciva e penetrante. As ninfas se aglomeraram em volta do meu poder e sugaram minha alma renovando por completo minha energia austral. Cai plenamente em sono profundo, novamente. Esperava, claro, acordar em casa. Quem dera!

O sol estava despertando e uma imagem enigmática me fez acordar em um salto. Por um instante, pensei estar ainda naquele quarto de hotel com uma das garotas que me acompanharam na farra. Todavia, o corpo nu, pendurado e amarrado a uma árvore, não era de ninguém menos do que da tal princesa. E ela estava desacordada. Olhei a minha volta e não consegui avistar o cavaleiro James. Apenas seu cavalo estava lá. Encontrei no meu bolso uma adaga afiada o suficiente para cortar as cordas da moça. Antes, fui ao lago pegar um cado de água para caso ela precise ser acordada no susto. Aproximei daquela argila de carne tão bem modelada que meu impulso foi arrastar meus lábios até o seu pescoço e encantado, subi minha atenção até sua boca e não aguentei. Meti minha língua por entre os lábios mais carnudos que avistara em toda a vida. E num passe de mágica, a garota despertou de seu sono e sorriu com nossas bocas e línguas coladas e enroladas umas com as outras. Solte-me, solte-me, por favor! Ele irá voltar a qualquer minuto. Disse que iria apenas caçar um coelho para o almoço. Acho que irá me matar aqui mesmo. A dúvida outrora em minha mente. Putaquepariu, pensei. O que fazer? Cortei as cordas que a amarravam e esperei que viesse ao meu abraço. Ledo engano. Ela se jogou por trás de mim e num só saltou, mergulhou nas águas turvas da lagoa, desaparecendo feito uma sereia. No mesmo instante, ouvi das profundezas uma voz aguda e apavorante, como de uma feiticeira se despedindo triunfante. Ao mesmo tempo, alguns passos me assustam. Eles estão vindo em direção a margem e pelo peso das armaduras, imagino ser o tal cavaleiro. Para meu espanto, não é ele quem caminha entre as enormes árvores e sim um sinistro ser, metade homem, metade lobo. Não sei se era para rir ou para chorar, mas aquela situação não me deixou em dúvidas. Escondi-me na mata o mais furtivo possível, torcendo para o vento não levar meu cheiro àquela fera. Ao chegar próximo ao cativeiro da mulher, o bicho soltou um gruído dos mais assustadores. Urrando de raiva enfiou suas garras nos troncos das árvores que pareciam chorar com os golpes. Concentrou seus esforços no olfato e tentava deliberadamente encontrar alguma pista. Uma sensação estranha, um misto de covardia e senso de sobrevivência, coloquei-me de quatro entre os arbustos e senti meus músculos se fortalecendo ao mesmo tempo em que minha visão parecia se embaralhar para surgir límpida e muito mais nítida. Da mesma forma, os odores do campo pareciam furam o meu nariz, forçando-me a uma rápida adaptação aquela sensação. O monstro chegou até mim e sem que percebesse a minha antiga condição, perguntou-me se havia farejado alguma pessoa humana por ali. Ele gruiu, mas mesmo assim, pareciam palavras que penetravam suavemente o meu ouvido. Balancei a cabeça, indicando o lago. O homem-lobo não se aguentou de tanta fúria e chorou como um cão abatido. Aos poucos, seus pelos foram encolhendo e em segundos, era o cavaleiro James quem chorava como um bebê. Não que isso seja num sentido metafórico apenas, mas bastante realista também. Aquele homem que havia se tornado um bicho, virou um bebê de lindos olhos azuis. Achei que iria me metamorfosear novamente, saindo da forma lobo e me tornando um ser humano. Porém, pelo que parecia, aquele lugar era realmente muito instável. Fui até o lago e vi meu novo corpo refletido. Um lindo lobo europeu. Na verdade, era uma fêmea e com as tetas quentes. O garotinho chorava de fome e meu instinto me levou até ele. Com doçura e dedicação, deixei que deleitasse do sulco de minhas mamas. Senti uma forma maternal intensa, algo que nunca fui capaz de nutrir por nada ou ninguém. Em meio ao êxtase da verdade, a Senhora do lago retornou até mim e fez com que eu adormecesse com aquele moleque preso ao meu peito.

E de repente, acordei.

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