Kerouac Vs Afrodite

E tudo acontecia ao mesmo tempo. Eu do meu lado sendo entorpecido pela vontade de liberdade e todas as outras pessoas pensando em como esquecer o momento seguinte. Entrei no quarto e um casal de Denver se entretinha debaixo do lençol. Procurava uma ferramenta necessária para o ritual de “sacrifício” – iríamos oferecer boas vibrações à Mãe Terra. A Deusa mereceria uma boa devoção com suas donzelas sendo desvirginadas pela décima vez. Tentei falar as palavras mágicas que afastam meus olhos do pecado. Elas são ditas em meu espírito, não em minha boca. O pensamento diz da mesma forma, pois só pensa em gozar em outras cenas desveladas. Ele quer que o tesão continue, mesmo sendo fora das leis.

– Olá amigo, disse a menininha com os seios a mostra. Quer um pouco do que temos?

– Não, obrigado, garota! Saboreie seu homem. Só vim buscar uma flauta.

– Ah, tem ali, na segunda gaveta, disse o cara do lado da garota.

Peguei o que precisava e apaguei a luz. Estava apaixonado por uma única mulher. Não desviaria meu caminho de seus seios de forma alguma. Não só quero me lambuzar, mas quero também conquistar o seu coração. Seu corpo opera um milagre em meus olhos. Do outro lado do espelho, contemplo a felicidade. Minha ninfa se utiliza de uma vestimenta que casa com a minha libido. Sou daqueles que ignoram o corpo em prol dos traços do espírito – o sorriso, os olhos. Mesmo assim, o aroma que seu corpo atingia minha vontade, não me deixava elegê-la a mais fantástica de todas e sim, a única! Não haveria santidade e luxúria mais completa e realizável.

Volto para o bar e no balcão, a deusa, alguns acompanhantes e seu namorado, o barman. Meus olhos se guiavam ao espelho e miravam, em contrário, a face tocada pela beleza, o corpo imantado pela santidade e o sorriro ainda inimaginável aos meus olhos – mal saberia eu que usa 3º nos óculos. Naquela noite, não nos falamos, mas ali tive certeza que ela era aquela capaz de discutir o futuro da humanidade em meus braços.  Gastei o tempo entre um olhar para o paraíso e o mundo mais próximo e controlável. Não me enxergava capaz de possuir tamanha dádiva. Muitas vezes depois que saía dos bares, passava em alguns locais de religiosidade. Parava em frente a uma santa, em um hospital católico. Dialogava em meu íntimo com a Mãe, clamando perdão e bradando que haveria de fazer ainda mais do que havia prometido. Os tempos pareciam distorcidos, mas a verdade em mim não negava a clareza da vitória.

Enquanto tramava o véu, um “irmão” cutucou minha atenção e me deu sua opinião sobre aquarius. Era um poeta com uma voz maravilhosa, difícil de ser compreendida, mas marcante em melodia. Ía e vinha, vinha e ía!

– O homem não consegue se aturar! Os gigantes das Astúrias estão a chegar… trazem em sua carruagem, uma côrte evidente, são pessoas comuns, encarados como mendigos e depois, presidentes!  Estamos em 1949, os Estados Unidos libertou o mundo, mas se prendeu ao rabo do diabo. Mal percebe que suas ligações são perdições infantis, erros inconfundíveis, atrozes virtudes…

Não estávamos em 49 e sim, meia dois. Ele não tinha passado da viagem anterior – a Coréia! Ele me dizia que havia sido convocado para libertar o mundo do anticristo. O rebento maldito tinha nascido na Ásia e a América iria lá para não deixá-lo atuar. Convocaram os que foram e os que escarapam da 2ª Guerra. Ninguém sabia o por que, mas estavam todos ali para assassinar quem aparecesse. Eu, já com quase trinta anos e com um histórico complicado na parte psi da Marinha, nem fui cogitado para comparecer a essa arena cega que a América arranjou na Coréia. Não posso dizer o mesmo do Vietnã. Acho realmente que alguma coisa de errado possa estar acontecendo. Kennedy tem uma missão muito relevante: conquistar Fidel e Guevara. É a única solução. Não podem haver mísseis apontados para a Flórida! Nem para Havana!

Doravante, uma artista plástica se aproximou.Seu nome era latino e sua fragrância francesa. Era de um moreno bem ameno, crioulo colonial. A cor exata e a rigidez correta do cabelo e da quentura. Uma sede inenarrável de sentimentos e êxtase.

– Olá! Digo, amigavelmente.

– Tudo bom?! É interessante vê-lo novamente.

– Por mim, o mesmo… posso sentar?

Ela levanta o braço e abre o caminho. Sento-me e sorriu satisfeito. Reinicio a conversa:

– Isso aqui já foi melhor. Agora, tem muito playboy vindo. Fica cheio de homens.

– É – ela concordou. Um monte de gente estranha.  O que você faz?

– Escritor. E você?

– Artista plástica e dou aula. Acabei de ver um Godard, curte?

– Aprendi muito com Jean-luc. Ele foi formidável no lançamento do Livro em Paris.

Conversamos por mais uma hora e a todo tempo meu pensamento não acreditava estar dominando a situação. Ela era o supra-sumo dos meus sonhos naquele momento e na breve introdução, tudo parecia que nada seria. Só o seu perfume cativava cada uma das células do meu comprovante. Isso já resumia qualquer resultado melhor. Convidou para que fosse para casa. Disse que tinha um parente perto do seu endereço. Poderia acompanhá-la até lá. Independente, estava de carro. Porém, deveria deixá-lo na casa dos pais em um bairro próximo a sua casa. De lá, pegaria um taxi. Chegamos com o carro e no caminho ela elogiou um beebop. Sensacional!  Sua mãe apareceu na janela. Com quem você está Ângela? ” Com Jack, mamãe, Jack!”

E a dona deu boa noite para a filha e fechou a janela. O táxi estava a caminho e esperávamos nas escadas de um prédio. Ela subiu o primeiro degrau e seu rosto estacionou entre os nossos olhos. Sua porta mágica ficou escancarada para mim. Beijei e esperimentei a melhor relação que meus lábios poderiam imaginar. Realmente a mulher dos meus sonhos foi superada pela melhor convicção de meus atos.

Quando beijo seu corpo, tudo acontece ao mesmo tempo nessa terra.

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