Kerouac Vs King Jr.

Eis que um negro forte vem andando em minha direção e parece furioso. Suas passadas são largas, ele está a mais de cem metros da mesa que eu ocupo. Vem concentrado, cabeça baixa e o tempo toda sendo jogada para um lado e para outro, grandes passadas, pisadas fortes. E vem dizendo consigo mesmo algumas palavras, frases, salmos em voz baixa e focada. Eu estou bêbado e solitário em um canto do Brooklin, um buraco freqüentado por negros e latinos, o lugar ideal para quem ainda curte a parada de verdade. A vida por aqui não é mais beatífica como antes, precisamos ficar descobrindo momentos como esse, lugares como o Moe´s ou pardieiros ainda mais obscuros, onde a luz não penetra confortavelmente – eis a busca beat, flor de lótus no lamaçal.

Esse sujeito que vem andando parece que irá me dar a maior bronca da história. Sua imagem é intimidadora, ele já está com a razão, aliás, deve estar mesmo com razão. Só eu mesmo que não  sei qual é a dele. De repente, o sujeito levanta o dedo e começa a falar como um louco que eu estava transformando tudo num oásis do demônio, que eu tinha desrespeitado Senhor Jesus Cristo, que eu era um aliado dos infernos e que espalharia a praga sobre os Estados Unidos. Esperei que ele terminasse sua fala, mas o danado do negão ficava falando, pregando, exorcizando. Nunca vi tanta fé na espiritualidade – ou talvez ele fosse um feiticeiro ou um xamã que para nós, leigos, quando os vemos com suas bíblias debaixo do braço e ouvimos seus cânticos e agradecimentos pelos cantos da cidade, achamos que estes são apenas crentes em busca de gado e grana.

Todavia, eu não quis me esforçar nem um pouco para poder dizer alguma coisa para aquele sujeito, Achei que aquilo tudo era muito deselegante e por alguns instantes imaginei se aquilo não era alucinação de bebida. Mas ele continuava e falava e eu ouvia. “Senhor K, você é o responsável direto pelos pecados que estes jovens estão cometendo. Quando me falaram que você estaria por aqui, não tive qualquer medo ou temor, vim com Deus ao meu lado e vim falar com você que sujeitos como você irão ser banidos quando vier o Elias”. Oh meu Deus, pensei, o que fui arrumar para esse cara ficar assim tão furioso. Imagino que sua filha deve ter fugido de casa com algum fã de Neal Cassady ou coisa parecida. Além de terem acabado com tudo que fosse beat, ainda me culpam pela desgraça em suas famílias.

De repente, um outro negro, agora com suavidade em suas expressões, se aproximou de nós. Sua voz era macia e seus olhos transmitiam certa pacificação. “Hey, amigo, não liga para ele, está exaltado, acaba de perder o filho”. Tudo bem, respondo, só queria um pouco de educação da parte dele. Apesar da chegada do amigo, o homem furioso ainda continuava a movimentar loucamente sua bíblia e a gritar para espantar os demônios. Se ele fosse um padre católico já tinha me jogado água benta na certa. “Meu nome é Marty, pastor King, prazer.” Pelo jeito você sabe quem eu sou, mas tudo bem, meu nome é Jack, demônio K. Ele riu. O outro havia parado de dar seu show histérico e agora chorava no ombro de uma “irmã” que veio em seu socorro. Senhor King, eu não sei o que eu fiz, mas lhe digo que estou muito longe do inferno, pelo menos daquele que fica nas profundezas, por que, neste, o da vida real e absurda, eu sou o seu mensageiro, ah isso eu sou, mas tenho certeza de que trouxe muito mais coisas beatíficas do que desordem e loucuras. “Tudo bem, K, disse King, os caminhos para a vida eterna são vários, cada um produz a própria senda, não há como lhe culpar de nada, realmente, ele estava muito emocionado.”

Eu gostei daquele sujeito. Ele me explicou com o seu sotaque sulista, algumas coisas, digamos … sobre a sociologia espiritual, disse que era preciso unir a América em torno do espírito de liberdade e da Verdade, mas que todos deviam ter direito a isso e todos deveriam trabalhar por isso, incessantemente. Não apenas os brancos, cristãos, adultos, mas negros, crianças, mulheres, velhos e mesmo os homossexuais e alcoólatras, “somos todos irmãos, fazemos parte da mesma família. A cor da pele e a origem são meros detalhes que temos que lidar nesta vida, eles não dizem a verdade”. Entendo, afirmei com a cabeça, isso me lembrou muito alguns ensinamentos orientais, acho que talvez seja isso mesmo, quando eu tentei dizer alguma coisa para esse bando de estrumes que são a maioria das pessoas que não querem pensar, disse com os meus escritos, que não importa a viagem ou quem é o viajante, o que importa é o caminho e se há alguém em trânsito. Qualquer roupa que eu vista é apenas pano, um pano diferente para cada dia, um corpo diferente para cada vida. É tudo transitório mesmo! Dessa vez fui eu mesmo quem se exaltou. Não sei se ele concordou com o que eu disse, acho que não iria acreditar em reencarnação, destino, mas pelo menos respeitou minhas palavras e se despediu, foi em auxilio ao amigo. Homens como esse que fazem a América. Porém a hipocrisia e a pequenez ocidental nunca irão deixar sua voz ser ouvida. Duvido que haverá dia sobre essa terra em que um negro terá força e suavidade para falar aos nossos ouvidos e nós, de bom grado, prestaremos atenção ao seu discurso.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s