Kerouac Vs Dionísio

Sempre achei engraçado que alguns homens se considerassem Deus. Naquela maldita noite eu tinha uma garrafa de vinho barato na minha mão esquerda e os peitos deliciosos de uma negra na direita. Sentia que em minhas veias pulsava o espírito de Dionísio, o deus duplamente fecundado: uma parte no ventre de sua mãe humana, Semele e outra, nas coxas de seu pai, Zeus. – o deus do céu e da terra E eu sou isso: uma mistura da merda humana com a sabedoria celestial, um enteal puro e errante e ultramente pobre de espírito – não tenho muito critério em escolher dias bons e dias fodidos, por isso, posso falar do sublime num instante e ser completamente baixo a seguir.
Tinha sido um evento daqueles, mulheres, bebidas, drogas e tudo mais. Qualquer versão de sanidade da parte de alguém soaria como pura hipocrisia. Entretanto, havia uns bons sete meses que eu não me metia nem com mulheres, nem com álcool. Entretanto, naquele dia não teve jeito de escapar. Cai de cara na bebida e na sacanagem, incondicionalmente. Foda-se minha tentativa de iluminação, deixei meu satori para Paris.
Hal veio com um papo de que na Grécia, Dionísio aparecia em qualquer um que de repente apresentasse, ao mesmo tempo, sabedoria e concupiscência. A maioria dos homens, como qualquer bicho, apenas pensa em trepar. Um ser assim, divino, além do sexo, sabe que tá ali para salvar a humanidade.
Como em um ritual haitiano, o santo baixava e todo mundo sabia que ali estava o deus do vinho e da putaria. E o pior, todas as mulheres íam direto querer saber se a pulsão do escolhido era divina ou não. Não que isso tivesse acontecido comigo apenas naquele dia, mas já havia em alguns outros episódios – mas é claro que na América nenhuma ou quase nenhuma fêmea iria vir pra mim só por que tava pelado e de pinto endurecido. Era preciso sempre um papo formal, cheio de promessas e regado a uma indireta do tipo “sim, depois que gozar, apresento as alianças”, affff.
No meu retiro espiritual consegui até me afastar da sagrada erva. Porém, naquele dia, alguma coisa – provavelmente Dionísio – soprou no meu ouvido e disse que seria como nos velhos tempos. Hal, como sempre, tinha um gigantesco pronto para a ocasião. Como todo mundo já estava entretido com outras coisas, acabou que eu tive que carburar tudo aquilo solitariamente e depois de mais de meio ano sem qualquer contato.
E não é que a iluminação me veio. Percebi claramente todas as mazelas humanas e vi que o amor pelo próximo era a grande solução. Dizia chapado: “Foda-se a América! Tirem seus filhos da Coréia, essa luta é para os besouros, não para os homens iluminados”. E naquela noite devo ter enchido o saco de metade das pessoas que estavam ali e outra metade se afastou antes que eu pudesse fazer qualquer coisa. Falei sobre o Cristo, sobre como amava minha mãe, sobre como subir as montanhas ligava o espírito e de como era feliz de poder morar na terra da liberdade. Entretanto, depois de todo aquele papo de igreja , Dionísio se irritou com a minha conduta e insistiu para que eu caísse no mundo dos homens novamente. Queria mesmo ver se eu era macho e me fez querer ir em frente. Olhei para aquela garota negra, linda, desolada, perdida e drogada. A vi como uma espécie de virgem Maria do pós-guerra, uma grande oportunidade para uma nova humanidade.
– Oi, disse.
– E ai?!
– Então… antes que acabasse a frase, minha braguilha já estava aberta e meu pinto à meia bomba para fora. Acho que era disso que a lenda de Dionísio dizia: sexo fácil e rápido, só era preciso interpretar o deus.
Todavia não era isso. Eu ainda nem tinha bebido novamente. Ela, Rose, olhou para mim e disse:
– Te observei a noite inteira. Não pense que isso aconteceu por que sou uma puta. Vi o que você disse, acredito em você. Nunca ouvi qualquer branco que pudesse entender tão bem o sofrimento de minha alma. Quis te recompensar com a verdade que havia dito. Quer um gole?
Sete meses tinham se passado desde a última golada. Agora, já nem sei quanto tempo tem desde que isso ocorreu, a única coisa que eu me recordo é que desde então, não houve sequer um dia em que o álcool não desceu minha boca. E a maldita ainda me disse que isso era por que meu signo era de peixes e que nessa casa astrológica, os nativos tinham uma dupla identidade: ao mesmo tempo em que se sentiam como deuses, desejavam em seus vícios, como os homens.

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