Kerouac Vs América

Noites insólitas, noites corrosivas, noites e mais noites de perdição. Meu mau hábito de amar a madrugada levou metade da minha vida à ruína. A outra, quem pegou foi o diabo. A queda não é tão dolorosa quando a gente consegue cair de pé. O mal nem sempre pisa sobre nossa cabeça, mas nos serve um banquete antes do fim. Estou em Frisco e é o outono de 1964.  Nosso presidente havia sido assassinado há menos de um ano e muito gente andava perdendo a cabeça por pensar diferente. Eu já não suportava tantas pessoas me dizendo o quanto eu as havia libertado, o quanto tinha dado problemas para seus pais, o quanto o mundo agora fazia sentido. Era tudo bobagem, uma mentira. O que aconteceu comigo tinha ocorrido há mais de uma década e meia. A vida de Sal Paradise não era a mesma de nenhum destes merdinhas alienados pela TV e pelo Rock And Roll. Estavam queimando os livros pelo tubo de imagem, estavam massacrando o verdadeiro sonido dos deuses, fazendo as pessoas pularem como uma periquito em chapa quente. Elas repetem refrões e estampam sorrisos. Participam de programas onde os aplausos não são dados por excelência, mas por que uma placa acende, pedindo para que batam palmas com largos sorrisos de uma felicidade muito mais artificial do que qualquer droga tomada em grande quantidade na veia. A minha geração se tornou um barril de bêbados, a seguinte, uma grande e inexplicável bacia vazia. Sinto-me um idiota ultrapassado e que deveria ter se entregado ao modelo de vida da América, pegando mesmo no pesado, deixando de lado qualquer forma de expressão poética. Ser lírico é ser atormentado pela vida.

Assim, atormentado por qualquer possibilidade real de inteligência verdadeira na sociedade americana, deixei meu instinto guiar a maioria das decisões. Geralmente escolhia pelo álcool e sempre tive uma queda pelas más escolhas. Meu caráter nunca se colocou em dúvida, mas a minha prisão sempre me deixou livre para errar, principalmente, com quem eu mais achava estar gostando. Não acredito plenamente que essa vida seja a real, por isso sei que qualquer ação pode e deve ser perdoada. Ter pensamento e ter que mijar são duas coisas realmente paradoxais e que não podem corresponder a uma sequência de atividades corretas. É por isso que as pessoas se confundem tanto e acabam entrando por moradas insalúbres e conflitos que não correspondem a qualquer sentido, a não ser estar em conflito. Não tenho uma visão realmente pessimista da vida ou das pessoas. O que passa é que ao me expressar, não consigo simplesmente falar da beleza da natureza ou do coração humano. Há um demônio que sobe em meus dedos e me aplica em saberes que me apontam a crítica pelo mundo e a decadência do homem como as palavras corretas para escorrerem pelas minhas mãos. Mas a crítica ao mundo não se faz à natureza, mas sim a nós, imbecis pensantes que utilizam nossa cultura para ceifar a sabedoria espontânea oferecida pela deusa. Não tenho dúvida de que a mesma natureza, a mesma que nos acolheu em seu paraíso irá nos cobrar um preço bastante alto quando perceber que os frutos nasceram podres. E não adiantará muito haver milhões de bons samaritanos. Seremos todos engolidos e tragados às profundezas. O universo irá nos esmagar da mesma forma que fazemos com formigas e outros insetos menores. E olha que não era para ser assim, não precisava. O grau de ações desnecessárias é um montante maior que qualquer cofre no banco, uma lástima. E o pior é que se justificam as más ações em função, justamente, do aumento da plata nos cofres dos bancos de gente rica e que não precisa tanto de acumular. Quando fiz minhas viagens via aqui o paraíso perdido em que as almas infelizes poderiam recompor seus dramas. Entretanto, vertido em um mar de hipocrisia e indecisão, entendi que não, realmente, não! A América é um laboratório do diabo. Aqui se aprende desde cedo a hipocrisia, o preconceito, a ganância e a inveja. Nossos esportes olímpicos mais prestativos ao ouro é a derrocada do espírito e a destruição pública do outro. Como dizem na caixinha que brilha, seremos os melhores, mas não adianta nada estar no topo quando sentamos em nós mesmos! Não enxergar é como não existir.

Aguardo o ocaso da América com as mãos ocupadas. De um lado o tabaco dos índios para queimar a angústia do peito, de outro, as pedras de gelo e o whisky dos colonizadores para elevar meus pensamentos além desse nível de gravidade.

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