Kerouac Vs Watts

Estávamos de mudança. Deus havia nos permitido encontrar um novo caminho para a nossa vida. Meu pai, combalido e num estágio avançado da doença, conseguiu um empréstimo com um parente e esperávamos o caminhão Ford de Ned Sander parar na frente da nossa casa. Íamos saindo de Lowell, deixando para trás cerca de mais de duzentos anos de história. Entretanto, a pobreza corrói o espírito e transforma o corpo em um lar de desespero. O homem falido deixa os hábitos e a sujeira ocupa suas feições. A barba cresce, os olhos passam a procurar o vazio, a coluna arria. Era outubro e o outono abriu meu coração, jorrando lágrimas de palavras sobre a tábua da vida.

Enquanto ouvia discretamente a chuva cair e o silêncio ocupar a paisagem, percebi que a porra do Sander estava atrasado. Meu pai tinha feito a barba, penteado o cabelo e usava o seu melhor traje. Queria sair dos limites da cidade de forma digna, sem que se sentisse um “derrotado pelas coisas”. Mas que merda! Pensei em gritar: Pai, cadê aquele animal? Mas logo vi que essa raiva não era para o homem que se esquecera do compromisso. Percebi que o ódio era da mudança, da urgência da vida e da dependência moral e econômica dos cidadãos da América. Seria uma agressão ao meu velho e sacrificado pai, não um desabafo contra o outro, mas um tiro no meu próprio peito.

Numa das caixas, um livro me chamou a atenção. Era mais um das coleções loucas de minha mãe, uma católica que vertia para um lado mais esotérico e místico da crença. Ela sempre apresentou uma sabedoria unificada a superstições, uma mistura que também me cativou. O título da edição eu não me recordo, lembro-me da capa, bem bonita, uma santa talhada, uma verdadeira obra prima da iconografia cristã. Ele devia ser muito velho, deve ter pertencido a algum parente distante. Ao me aproximar para pegar o livro, um outro título, por baixo desse, estava ainda embrulhado. Mãe que livro é esse, perguntei. Ganhei da Beth, Jean, acho que sobre um estudo de orientalismo, não me recordo o autor, disse ao mesmo tempo em que soltou um suspiro de impaciência, seguido de um olhar para a tristeza de meu pai. Desviei minhas vistas da desgraça e logo me interessei pelo conteúdo daquele objeto. Quem sabe ele não tiraria minha atenção daquele momento e me levaria para o jardim secreto?

Rapidamente tirei o papel pardo que o cobria. Era um livro chamado “O espírito do Zen”, de Alan Watts. Nunca tinha ouvido falar do nome, mas já conhecia um pouco do assunto.  Allen me apresentou algumas lições dadas pelos patriarcas e me explicara sobre a diferença entre o budismo mahayana e o hyrayna, o grande e o pequeno veículo. Explicação essa que tinha ido mesmo para o meu espírito, para o meu inconsciente. Só me lembrava do nome sagrado Sunyata, o nosso estado atual em que estamos todos separados, vazios. Então, abri ao esmo as páginas, encontrei de cara alguns versos para Pu Tai, o Deus da fortuna, que diziam sobre vacas que pastavam em nossos domínios:

Nunca deixem que te afastem/ Do chicote e da corda/Pois, caso contrário, ela fugirá para um mundo profano/ Quando ela for adequadamente domada,/Crescerá pura e dócil/ E mesmo sem cordas, e sem nada que a prenda/ Seguir-te-à espontaneamente

Muito antes de acreditar ser um poema que incentive a violência contra o pobre rebanho, tive a intuição de que a vaca representava uma espécie de recompensa, de alimento. Para alcançá-lo é preciso que dominemos nossos instintos e continuemos com o esforço de educar nossas ações. Quando estivéssemos maduros, aquilo que nos é primário e necessário estaria em nós sem que percebêssemos. Todavia, não estaríamos presos a eles, não necessitaríamos contar os níqueis na carteira, nem lembraríamos de que existem bolsos, pois não pensaríamos neste acordo rasteiro chamado dinheiro.

Ned demorou mais alguns minutos para chegar fazendo barulho e jorrando fumaça sobre nós. Nos mudamos para Nova York, Ozone Park, um bairro operário, cinza, triste, mas pelo menos podíamos nos esconder do frio. Apesar de tudo, da morte de meu pai, das grandes noites de insônia, do longo caminho aos bons lugares da grande maça, foi naquele pequeno apartamento que tive as minhas verdadeiras experiências búdicas. Foi ali em meio ao silencia e à angústia que a força do cristo se uniu ao contemplar de Gautama. Percebi que os dois eram um só e que eu e todos nós também somos eles. Escrevi ali os meus livros e iniciei a minha retomada dali mesmo. Minhas viagens foram feitas a partir dali, assim como minhas amizades, loucuras e amores. E foi naquela vizinhança que Buda se virou pra mim e me cumprimentou. Olha, meu nome é Alan, sou pesquisador e fiquei muito interessado na maneira como escreve. Era alguém ao interfone. Onde conseguiu meu endereço, perguntei. Como disse, sou um pesquisador. Leciono em faculdades, conheço os beats. Tudo bem, pode entrar.

Ele devia ser um pouco mais velho do que eu, uns oito anos, já devia estar quase com quarenta, barba farta, cabelos pretos, mas se encaminhando para o grisalho. Entretanto, não se vestia como um americano ou inglês. Pensei até que se tratava de alguém da Austrália, cheio de cordões, sua blusa e calça, largas. Gostei de cara do sujeito.

– J. estudo o budismo há muito tempo e sempre vi dois tipos de textos. O considerado sagrado, protegido pelos patriarcas, contendo explicações doutrinárias, questões de lógicas morais e muitos, digamos, enigmas para o homem que não está acostumado a cultura do Oriente – tomou um trago de água e olhou para dentro da própria mente.

– Sei, prossiga…

– O outro tipo são pessoas como eu, que pegaram esses ensinamentos e escreveram racionalmente, tentando interpretar e racionalizar em cima das propostas do budismo e muito também sobre a sua história e contexto social. A questão é que eu nunca havia visto alguém escrever sobre o estado de iluminação dentro da própria literatura, sem necessariamente escrever: estou escrevendo a partir de pensamentos budistas. O tom que demonstra com seus personagens é impressionante búdico. Eles estão todos sobrecarregados de passagens, de idas e vindas sobre o vazio. A vida não é colocada como um fim, mas um meio, uma passagem para que se conquiste a liberdade.

Abro um sorriso, feliz por ter sido reconhecido, mas ainda mais alegre pois realmente senti algo naquele homem. Além disso, estava, justamente naqueles dias, acabando de dar os últimos retoques em meu terceiro título, “Vagabundos Iluminados” (Dharma Bums). Eram lembranças e vivências de um tempo em que considerava a iluminação como a minha principal causa, uma época em que o Zen e o Tao regulavam meus costumes.

– Sabe senhor Watts, eu tive um companheiro de viagem que me ajudou muito. Ele me mostrou sua coleção inteira de haikais e me deu lições básicas de mandarim. Entretanto ele foi para o Japão. Tenho algumas páginas do livro que conto um pouco do tempo em que escalávamos montanhas para sentir a vida em sua extrema transformação,  senhor gostaria de fazer uma leitura?

– Não, acho que vou esperar que publiquem. Vim mesmo para olhar sua fortuna.

E na simplicidade de um grande iluminado, pediu licença, agradeceu o papo e a oferta e me desejou paz e equilíbrio.

Alguns anos depois, esse meu amigo que estava para o Japão não aprovou muito do que escrevi. Sua busca por iluminação passava por um silêncio radical sobre a própria experiência. Até entendo esse isolamento, porém, não teria como ter contado sobre as minhas transformações se ele não estivesse por perto. Seu vigor e sua sabedoria foram fundamentais para o processo. Fiquei isolado da humanidade por três meses pela força que ele me passou e agradeço a Deus por ter vivido a angústia do vazio.

Saiba mais sobre Allan Watts e o Zen

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