Kerouac Vs Simone

Já estava de saco cheio daquilo tudo – família reunida, todo mundo fingindo ser feliz, parentes que não se cumprimentam, agora se olham como se nada tivesse ocorrido (na verdade, são tios que olham as pernas das sobrinhas e primos que combinam sacanagens com seus sorrisos), uma verdadeira depressão de natal. Na minha casa sempre foi diferente, somos católicos onde a maioria sempre foi protestante ou judeu. Para nós, o natal simbolizava a desgraça que nossa sociedade havia feito consigo mesma ao matar o Escolhido. Ficávamos ouvindo o Papa rezar do Vaticano e torcendo logo pela volta do Cordeiro, não aguentávamos mais esse mundo de perversões e maldades. Não que eles não tenham um natal – judeus e protestantes, mas se os do deserto tem seu feriado próprio e criaram o papai Noel, para substituir Jesus , nós cristãos estamos divididos em dois lados: os que se sentem feliz no natal e se contemporizam com o que vão ganhar de presente e os que verdadeiramente entendem em que burrada aquele menino foi se meter. E olha que a cada ano vejo os judeus nos seduzindo com o papai Noel e os cristãos virem seu Deus encarnado sendo deixado de lado pelo homem do saco vermelho. Estamos em 1964, não é uma festa da minha família, é da família de uma amigo meu, filho de um rico industrial e cheio de tradições entupidas no rabo – nada católicas. A única coisa boa foi que contrataram Nina Simone para tocar pra gente o jingle bells. Fiquei um pouco incomodado de pensar que ela não poderia comemorar a virada para meia-noite – momento mágico, único e esperado por todos, pois nesse exato instante estaria trabalhando para os Ferrels, cantando alguma coisa natalina. Esse é um claro caso de divisão de classes, de preconceito racial: como uma negra na América vai poder adorar Cristo se não tem o que comer em casa?

Um absurdo, é melhor que trabalhem para um branco em sua festa, afinal em anos vindouros, quem sabe ela arranja uma grana extra e não precisa vir trabalhar? Afff… Estou bem puto da vida, fumando igual um forno, dando grande tragadas, querendo logo que essa hora passe. De repente percebo que se não mexer meu traseiro do lugar, vou acabar me mijando ali mesmo, na frente de todo mundo. Levanto com certa rispidez e acabo deixando um copo se fragmentar no chão lustrado da casa. Logo, um dos cem mordomos aparece e me diz para deixar com ele. Ameaço botar a mão no bolso, mas ele insiste. Neste instante, me lembro da mijada e vou correndo para o hall de entrada da casa. Lá, vejo uma enorme escadaria que se divide em duas escolhas: a da direita e a da esquerda. Pensando na aristocracia, imagino que o banheiro deva ser algo de um canhoto, ali onde tudo de bom e de ruim acontece, as fodas inesperadas e as merdas defecadas. Dou sorte, subo a da esquerda e alguém passa e me confirma a quarta porta como sendo a correta. Para o meu desespero, a porra da porta está bastante fechada, tem alguém lá dentro. “Hey, hey, por favor, estou muito apertado, será que pode…” a porta se abre e uma negra bem bonita sorri para mim, é ela, é Nina e seu cabelo.

“Oie, Jack… quanto tempo?”, não respondo, puxo o seu braço, a tiro da direção do banheiro, fecho a porta e antes que eu consiga tirar para fora, já estou meio mijado, mas pelo menos um pouco mais aliviado. Acabo que consigo despejar cerca de dois terços do que era inicialmente planejado, tudo bem, o problema agora era conseguir voltar para a festa sem que ninguém visse aquela mancha de urina perto do meu saco. Se ao menos Simone estivesse ali fora, mas imagino que ela tenha partido puta da vida.

Mais uma vez sou surpreendido e não é que a negra me espera com um cigarro. “Você não foi mal o suficiente para me fazer ir embora.” É mesmo, respondo meio tenso e meio achando aquilo interessante. “Não, seu escritorzinho deprê – disse puta da vida, eu esqueci minha bolsa na porra do banheiro, me dá licença!” E tal como eu fizera, dessa vez é ela quem me arremessa para fora do caminho e entra batendo a porta. Depois daquilo, ainda com as calças me denunciando, fui investigar alguns quartos e acabei encontrando um suéter de rico. Coloquei em volta da minha cintura e fui lá para fora. Quando cheguei no jardim, Simone já estava encantando a todos, trazendo a noite de natal para os cristãos, ricos, de direita e brancos da América.

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