Kerouac Vs Hemingway

Sou o filho maldito de uma geração perdida, cheia de riquezas plásticas e efêmeras. Enquanto todos se importavam, ela não estava nem aí. Enquanto todos queriam a paz, os fodidos sonhavam com a desordem e a guerra. Mas não sou eu o anticristo, aquele que irá devastar, destruir, ruir, dissolver. Não faria esse tipo de benfeitoria. Quero que todos sofram pela própria fé. Eu também. O sofrimento são nossas escolhas, o pavor e o descontrole que nos sufocam nossas escolhas. A ignorância também. É ela uma víbora pronta para ser esmagada pelo explorador.

Outro dia pensei em colocar o cano de uma espingarda bem na minha garganta para poder sentir o gosto do chumbo e estar próximo de Ernerst. Eu também já estou velho, porém, de frente para Cuba – e não em Cuba, mas afastado do mar. Não consigo entender se esse desespero arrebatador que carrega de nós qualquer vestígio de crença, na verdade, não seja a verdadeira alma do escritor, do artista, do poeta. Uma anima atormentada pela rudeza da existência, pelo absurdo da vida, pela incompetência do homem ocidental em não conseguir ficar calado.

Quando era menino e vivia perdido, vasculhando pensamentos e criando tormentos cotidianos, meu sonho era botar um lenço em volta do pescoço e desembarcar na árida Espanha. Meu pai prensava o jornal de Lowell e eu acompanhava a luta social espanhola de perto. Doía em mim cada baixa daqueles que buscavam, sobretudo, a liberdade e o crescimento pelas artes. Entretanto, aquela geração que estava perdida, encontrou nos conflitos externos a grande fuga do vazio existencial. Aqueles que realmente me fecundaram, que me deram o espírito, esses se deixaram envolver por orgias políticas e miseráveis, ignóbeis e sem qualquer teor de altruísmo. Eram adultos ateus, loucos pelo próprio umbigo e fervorosos/medrosos pelo silêncio da existência.

E depois de mim, quando o crepúsculo acompanhar este personagem bobo e falho, também virá alguém que irá olhar para trás e chamará a geração beat de um naco de merda perdida, que não pensavam na realidade da vida e apenas queria usufruir de seus prazeres. E estarão todos corretíssimos. Estou morrendo e morrendo velho, cansado, com pavor da vida e louco para chegar logo no inferno. A realidade da vida que evocam aí fora, não será e nunca foi a minha pulsão. Nos chamarão de vazios e era esse mesmo o nosso caminho. Éramos todos vazios e queríamos preencher todos os átomos da vida com alguma coisa que valesse a pena. Ficavam vários e vários idiotas tentando nos explicar das vantagens em se acumular, acumular, acumular. E depois, esses mesmos sujeitos nos pediam para gastar, gastar, gastar. Estavam todos induzidos, eram zumbis da cultura, queriam nossos dedos para eles. E depois dizem que nós é que estávamos fora da realidade. Até o filho da puta do Hemingway, que era um escritor, não teve cu para agüentar o tranco, era muita realidade ao mesmo tempo. De um lado o nosso dinheiro soberbo que te tenta convencer de que é racional e de que a única forma de se usar a razão é para ter dinheiro; de outro, um idealismo infantil e dois ou três que falavam a verdade e acreditavam na revolução. Seu dedo ficou duro, não deu conta.

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