Kerouac Vs Nietzsche

Quando aprendi a andar, já tinha dado alguns passos nas letras. Nasci falando e escrevendo, mesmo que grunhidos e rabiscos. Meu pai era dono de uma gráfica e por isso, sempre havia papéis em minha casa. Mas neste mês de intensa mudança e verão, não consigo organizar qualquer pensamento minimamente digno de vir à existência. Ora ligo o rádio, depois pego no jornal de ontem, depois abro um livro de literatura, fico culpado e folheio quase com interesse os livros que tenho que ler para a faculdade. Hoje, não posso sair pelo mundo das estrelas incandescentes, tenho minha responsabilidade em casa e fora dela, não há motivos para vagar. Sinceramente, aquela paixão por encontrar a verdade lá fora, em meio a experiências, essa paixão tá calada aqui dentro, assim como minha escrita. E esse silêncio é por demais aterrorizador. Ele me dá medo do daqui para frente. Fui e dei um passo decisivo, mas meu orgulho foi sábio o suficiente para recuar, dar uma pisada atrás e recuar. Consegui sim, reaver algumas relíquias que já esvaiam do cofre de minha alma, mas ainda me sinto desconectado e fragmentado. Com tudo isso, somente queria me conectar com a unidade, com o sentido único e indelével do meu destino, mesmo não sabendo qual o caminho exatamente seguir.

Tenho certa atração por hotéis-formigueiros. Colecionava insetos pequenos e os colocava em vidros. Observava a vida em comunidade e sabia a psique de cada um que habitava as tocas e buracos. De uns tempos para cá, acabei me sentindo como o grilo marrom e velho que visitou minha cidade particular. Encontrei o pequeno ser no terreiro de casa, preso a uma roupa no varal e desconfiado de que sua vida selvagem estava chegando ao fim. Meu irmão tinha medo de encostar em insetos, eu não. Sou fascinado por eles. Suas cores variam do mais sem graça ao verde, vermelho puro, azul royal, cores que só vi em instrumentos e automóveis. Passei as duas mãos sobre a roupa pendurada à corda, cada uma vindo de uma direção e aprisionei meu futuro hóspede com certa elegância, dando espaço para que respirasse, apesar do breu. Coloquei o grilo dentro de meu aquarius insecta e me esqueci da vida vendo todas aquelas formas nem tanto hominídeas se mexendo para lá e para cá.

O lugar era tampado, mas tinha alguns furos para a troca de ar. Colocava também vegetais e larvas para que a população pudesse viver dignamente. Em uma manhã, animado com a variedade de espécies, quis encontrar no mato algum tipo de predador. Daqueles que iriam mexer completamente com o ecossistema e acabaria criando muita confusão. Shiva quando vem, traz a morte, mas traz a transformação! Primeiro pensei em uma lagartixa, depois em algo como um escorpião, por isso rumaria ao mato para encontrá-lo. Estávamos no verão e nessa época eles se aventuram mais. Antes de ir, claro, fui avisar aos cidadãos sobre o novo hóspede. Imaginei algo como se eu tivesse o papel de Deus falando a Moisés, mesmo que esse fosse um besouro de asas azuis. “Insecta maior, quero que avise aos outros que em breve sofrerão uma ameaça, um tipo de situação que nunca permiti que existisse, mas que preciso anunciar e fazer acontecer”. Senti que o pobre e precário ser não questionou minhas sentenças, mas com a compaixão católica no peito, dei a ele o direito de entender o porquê daquela transformação: “Durante muitos dias fiquei angustiado com minha criação. Sei que não fui eu exatamente que os coloquei na natureza, mas também tenho consciência de que pude facilitar as coisas para todos vocês, dando-lhes uma propriedade, uma sociedade e claro, alimentos e diversão! A liberdade não é exagerada, mas todos sabem que o perigo ronda a vida de todo inseto. A qualquer momento um predador pode interromper o sopro em seus corpos, fora a falta de comida e os riscos para consegui-la. Fiquei bastante admirado com a forma como se adaptaram às circunstâncias. Formigas e joaninhas foram os extremos. Enquanto as primeiras conseguiram se organizar, a dupla de joaninhas acabou se deprimindo ao ponto de recusar alimento. Hoje, rasteja e o resto da comunidade não espera a hora de comer o seu exoesqueleto. Imagino que algum parasita já pense em vender suas asas no mercado negro”. Os ganchos do besouro  batiam contra o vidro e pediam para continuar minha explicação. Não neguei ao iminente condenado qualquer palavra de sinceridade. “Amigo, estamos todos fadados à extinção. Essa é uma verdade incontestável. Até Deus, o criador do seu criador, foi morto no século passado. Não há escapatória, a morte é o destino da vida. Por isso, as joaninhas não se alimentam. Sabem da verdade e esperam aliviadas a hora que não tenham mais que sustentar a condição de prisioneiras. São fortes, mas não o suficiente para se verem livres dessa história. Vou colocar o predador mor em seu cativeiro por que sei que assim, todos vocês ficarão mais atentos ao sentido real da vida que possuem e daquela que eu, em minha benevolência, ofereci a todos vocês”.

Dei as costas e fui para o quintal. No caminho, quando já deixavam a garagem, onde viviam meus inquilinos condenados, percebi sobre o carro um ser pequeno, feio e saltitante. Não sei como e, claro, nem por que, o grilo conseguira escapar de nossa cidade. Tentei relembrar todos os passos de sua captura até a redoma e, pelo menos mentalmente, nada falhara. Dei dois passos para trás e com a ira de um pai traído, arranquei de meu pé esquerdo o calçado e com um golpe certeiro, mandei o insetinho para a próxima encarnação. Com todo o cuidado, retirei seus vestígios esmagados de cima do carro e uma ideia magnífica surgiu: oferecerei ao povo de minha terra o último banquete antes de seu destino. Voltei rapidamente ao aquário e com receio para que não houvesse novas e trágicas fugas, coloquei a carcaça sem vida em uma das áreas comuns do viveiro. “Vamos, meus filhos, se deliciem com a carne de um de seus membros e fartos, esperem o dia do demiurgo. Ele está próximo”. Sem qualquer tipo de sadismo, rumei novamente para minha expedição em busca de um inimigo feroz e traiçoeiro para meu mundo. Peguei uma caixa de fósforos, útil se os novos prisioneiros se rebelarem, e uma redinha que minha mãe havia cosido para mim. Não foi difícil capturar o carrasco. Sem qualquer drama ou narrativa especial, coloquei o primeiro escorpião que achei em minha rede. Pelo jeito, já estava sanguinolento o suficiente e sabia que iria aterrorizar nossa vila. Quando cheguei à cidade dos insetos condenados, não hesitei em largar o arauto da morte na parte mais propícia ao caminho de um aniquilador. Coloquei o escorpião na via principal para logo espalhar o medo pela comunidade. Enquanto matava os primeiros que aparecessem, os outros levavam a terrível notícia aos cantos do cativeiro, deixando os demais nervosos e apavorados. Entretanto, para meu espanto, o mesmo grilo que havia sido morto, pulava em um canto de minha criação. “Caralho, como isso é possível, que porra é essa!” Retirei a tampa que fazia a segurança em minha cidade e com toda a inocência de quem tem ódio no coração, arrastei minha mão pela terra em busca de eliminar novamente aquela impossibilidade. Porém, como se não tivesse lido Dostoievski o suficiente, meu mais novo hóspede, sem pestanejar, deferiu certeiro seu ferrão contra meu pulso. E com um golpe de agonia, retirei meu braço chocando-o com a lateral do aquário que, além de cortá-lo, se partiu lançando areia sobre meu corpo semi-aterrorizado, semi-ferido pelo aracnídeo. Derrotado pela esperteza, fui coberto por todos os rebelados. Alguns ainda me cortaram a pele, mas a maioria procurou o ar de sua antiga realidade. E, claro, tiveram aqueles que permaneceram em meio aos destroços. De súbito, tentei recapturá-los, mas a dor insuportável e a vergonha me impediram até de, em um desdém, matá-los a pisadas. Fiquei triste e deprimido pela minha própria inépcia em ser Deus. Ainda no banho fui obrigado a me livrar de alguns insetos que se meteram onde não deviam. Encharcado de dor, fui ver um médico que me receitou remédios e me recomendou ficar fora da vida selvagem por um tempo. Nada mais digno do que para um ser racional e cheio de dentes na boca! E no fim, o grilo feio e marrom ainda era obrigado a continuar pulando, mesmo que isso fosse contra a racionalidade de sua sociedade, mesmo que essa a todo momento, tentasse sufocá-lo e se livrar dele.

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