Kerouac Vs Burroughs

Querido Bill,

Nos últimos tempos venho evitando qualquer contato que me remeta a você. Não estou nem um pouco possesso e ainda há amor nas minhas veias congeladas. O que me afasta é a consciência de que tudo que vem acontecendo simplesmente não tem uma resposta. Somos como arqueiros que miram o infinito da noite, mas não podem alçar voo junto com suas setas. Estamos presos Bill, estamos fincados nesse maldito planeta que insiste em ficar quente e gelado, claro e escuro, amável e odioso. Sei que sua fuga desesperada da realidade é ultramente sincera e objetiva. Sei que tudo aquilo que pode viver conosco ainda resta em seu coração e sei também que – desculpe os termos – os miolos de Joan, na verdade, foram o alimento  e a chave de sua libertação (espero que ninguém veja isso, os puritanos me queimariam em praça pública).

Allen tentou me contar sobre aventuras perigosas na América do Sul. Há algum tempo você não manda cartas e sabe como é esse judeuzinho, quanto menos esperar, quando estiver nas mãos de índia peruana – ou de um índio, ele irá aparecer e te tratar como uma criança e parecer com a sua mãe. Ele é sempre assim, realmente nasceu muiiiiiiiiito errado. Deus tinha que ter lhe dado mais tetas e arrancado o paw da forma. Por falar em genitoras, outro dia vi sua tia Susan e me lembrei do quanto aprontamos na sua casa de inverno em Indianápolis. Sua mãe foi muito benevolente com o que viu e, principalmente, ouviu. Não entendi como quis nos receber novamente. O caso é que na época éramos como galinhos e eu adorava me exibir, principalmente, para as coroas. Hoje já estou mais sossegado, embora queira logo arrumar alguém que trepe comigo pelo menos duas vezes em seguida.

Estou enviando este papel para uma caixa-postal de Bogotá. Espero que você possa recebê-la em vida. De qualquer forma, irei enviar uma outra correspondência daqui sete dias se você não me responder ou responder ao Allen. Estamos preocupados pois sabemos o quanto o macaquinho adora ficar balançando no seu ombro. Não posso discutir a respeito do seu espanhol, mas sua cara de branquelo do norte vai despertar muitas cobiças e ambições por parte dos nativos. Se lembra da cidade do México? Haviam os que nos tratavam muito bem, os que nos ignoravam e aqueles que estavam a ponto de enfiar o punhal em nossas goelas por simplesmente virmos de cima. Já que você está com a chave virada, cuidado com os mariatis e as crianças. Por estas bandas ai, eles são deveras católicos e não entendem certas coisas que por aqui ficariam em silêncio. Vá com calma velho Bill, vá com calma. O mundo ainda não se curvou ao beat, mas nossas almas já encontraram a redenção da verdade.

Me mande notícias suas, estou acabando aquele livro que nunca acabo – hehehe. Mas agora é sério, um editor bacana de São Francisco parece ter se interessado por algumas outras coisas minhas e até pode ser que outros textos saiam antes que ele. Isso me deixa um pouco nervoso, sei que os outros não irão bater na alma americana do mesmo modo. Não sei exatamente o que fazer para que esses malditos editores parem de ser tão caretas e cretinos. Tenho pensado bastante na hipótese que Diego Ravenno me deu – é claro que ambos estávamos alucinados: publicar primeiro na Europa e depois voltar para o mercado americano. Tenho medo, o velho continente ainda está impregnado de medo e horror. Talvez na Itália as coisas possam andar, eles são mais loucos e passionais, uma chance de não se intoxicarem com a merda que explano por palavras. Bom,,, penando bem, lá tem o Papa e isso já faz metade das chances irem para o espaço. Uma pena, mas é assim!

Ah, não sei se A. contou para você, mas o rapaz prepara a apresentação de um poema revolucionário. Lembra daquilo que ele sempre tinha na cabeça e repetia infinitamente, como se fosse um “tantra” – hahaha, você é demais Bill, tem muita sacanagem na caraminhola. É mantra cara, repetição em série de palavras sagradas que faz a mente impura dormir e desperta o espírito adormecido na carne. Chega de budismos, o fato é que Allen juntou pedaços de coisas e criou uma só unidade. Em certa noite, apareceu e tentou me convencer de ouvi-lo. Propus que fizéssemos isso na presença de outras pessoas, pois seria incapaz de escutar aquilo tudo sozinho. Meu senso de humor com uma caneta na mão é incrível, diferente de quando estou escrevendo à máquina. Paciência!

Com carinho,

J A C K

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