Kerouac Vs Kahlo

Fui visitar Old Bull mais uma vez. Ele ainda morava nos arredores de México D.F. Na verdade, vivia em uma cidadezinha colada à capital chamada Coyoacán – um pouco menos urbana que o restante do distrito federal mexicano. Quando cheguei à rua do velho safado, percebi um clima bastante fúnebre. Algo havia acontecido que deixara uma angústia visível nas pessoas. O rosto de cada um que cruzava o meu caminho me deixava ainda mais curioso para saber o que tinha acabado com a alegria daquela gente. Nunca presenciara a vizinhança de Old Bull tão silenciosa. Crianças sempre rolavam la pelota, as mulheres cantavam felizes em seus tanques de roupa e os homens apostavam nos botecos. Todavia, dessa vez nenhum movimento sequer, apenas o barulho ensurdecedor do triste e solitário vento a bailar com as folhas ao chão. De repente me lembrei que talvez aquele dia pudesse ser algum dia santo. Os mexicanos daquele bairro eram católicos fervorosos ao estilo deles, sem muita dor e deixariam de chorar silenciosamente a morte do Cristo ou de algum outro mártir, aproveitando a situação para saudar algo. Quem sabe eu não havia me esquecido de alguma data cristã e por isso aquela ausência de vida. Na hora me veio à cabeça a imagem de mi madre, la santa de Guadalupe. Para sanar qualquer dúvida, fiz o sinal da cruz e continuei a cortar o vazio das vielas simples e empoeiradas do México.

Toquei a companhia uma única vez apenas, mas fiquei mais de dez minutos para ver a cara velha e inchada de Old Bull Gaines. Durante este tempo, tirei meu espírito para um diálogo franco sobre a morte. Esqueci de qualquer referência ao presente e não me reconheci sequer como um ser humano, perecível e infeliz. Imaginei o jardim celestial como um esforço da mente para continuar insistindo na idéia de existir. Já estava quase alcançando a iluminação quando um rosto bastante conhecido me trouxe de volta do transe. Seus olhos estavam bastante vermelhos, era como se ele estivesse chorando copiosamente a horas. Quando Gaines me viu, pareceu ter ficado ainda mais emocionado e abriu os braços pedindo algum tipo de afeto para a sua dor. Abraçou meu tronco com tanta força que realmente comecei a me preocupar, achei até que algum parente pudesse ter sucumbido e estava sendo velado ali mesmo, naquela sala podre e cheia de seringas usadas. Se não fosse isso, seria alguma coisa parecida.

– O que foi que aconteceu seu velho tarado? Pare de se comportar como uma freira.

Old bull feito uma criança, soluçava sem conseguir pronunciar qualquer palavra sã. Ao seu lado, El Índio, íntimo e fornecedor de heroína, também apareceu com as vistas lubrificadas:

– Jack, Jack, no hable assim con el Toro. Ele está muito, muito triste… ella morrio! E voltava os dois a chorar como bebês e se abraçavam e me davam as mãos.

Já estava ficando irritado com todo aquele dramalhão de rádio. Ambos viram a minha confusão e logo me pediram para entrar na casa. Estava louco por uma explicação e quase voltando para Nova Iorque de tão puto. Gaines se recuperou e com a voz ainda embargada pode me explicar toda aquela cena. A delegaciónde Coyoacán estava completamente arrasada pela misteriosa morte de sua mais majestosa dama. A doña da Casa Azul, Frida Kahlo estava morta e ninguém podia fazer nada. Old Bull já havia me dito uma vez que quando se mudou para o México, na verdade, procurava estar perto de Kahlo. Ele acompanhara suas exposições há muitos anos e ficou completamente apaixonado pela artista. Não duvido de isso ser o real, afinal ele sempre tinha impulsos loucos e compulsivos, não me surpreenderia que tivesse algum plano para seduzi-la.

Na última vez em que eu o tinha visitado, ele me contara de suas tentativas de aproximação com la mujer mas caliente del Mexico. Quando conseguiu me mostrar quem era a mulher que havia feito ele viajar 5 mil quilômetros, fiquei completamente pasmo com o quanto feia era aquela figura. Entretanto, quando pude me aproximar e ouvir sua voz, talvez possa ter entendido por que ele tinha se apaixonado por tão estranha estética. Era forte e decidida. Quando a encontramos, dava uma aula de pintura em um dos pátios da escola. Mancava muito de uma das pernas e seus cabelos estavam querendo se tornar grisalhos. Seu corpo se contorcia de forma antinatural, ainda assim sua sensualidade podia ser sentida de longe. Mesmo com um olhar masculino, a postura de seu corpo denotava um fogo irresistível.

Segurava sempre um cigarro entre os dedos e seus olhos permaneciam baixos como se estivesse antes olhando para dentro de si do que para qualquer coisa nesse mundo. Para completar, usava vários adereços que faziam aquela mulher se destacar como nenhuma outra. Vestia uma saia lindíssima, com temas hispânicos. Na cabeça, flores e apetrechos. Nas mãos, um abanico flamenco para espantar o calor. Realmente, ela compunha uma verdadeira história em seu próprio corpo. E não foi diferente sua vida artística.

Quando retornei à Nova Iorque naquele mesmo mês, pude ver algumas de suas obras e também, por que não, me senti apaixonado por aquela mulher, filha de um alemão com uma mexicana. Um achado da natureza que construiu sua obra em cima da própria angústia, dos próprios atropelos de seu corpo. Ainda hoje me recordo das últimas palavras deixadas por Frida em seu diário: “Espero que minha partida seja feliz, e espero nunca mais retornar- Frida”.

Agora, não sei se choravam por sua morte ou pela forma como se foi. Talvez ela não possa ser mais uma santa, talvez, apenas uma mulher. E tomara Deus que não a coloque de volta neste mundo.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s