Kerouac Vs Cody

Desconhecer as pessoas parece ser a mais importante das artes atualmente. É muito fácil aqueles banudões da música, cheio de notas sufocadas na calça, chegarem e te pedirem algo. Mas quando é você que reclama uma mão aberta, te escondem, fingem que você é ridículo, pasteurizado.  Eu fui pedir uma chance para um amigo que está passando por problemas de entendimento profissional e tudo o que ouvi foi “o problema é dele, só dele”. É difícil falar alguma coisa para alguém que se engana constantemente com o próprio desejo. A confusão do querer faz com que viva a metade das coisas e quando não é o dinheiro, é o pau a desculpa. Cody era assim. Se sua vida não estava péssima por conta da falta de grana o era pelo excesso de virilidade e barbárie em seus métodos.

Roxane Charlene foi a única mulher que vi fazer Cody cair por terra – literalmente a última. E olha que nem era das mais impuras, muito pelo contrário, o cara sabia que ela não era uma daquelas que convence o diabo de desfilar de cueca na avenida. Era simples, não queria impressionar e nem botar banca. Os dois haviam se conhecido na frente do bar em que o pai da garota trabalhava. Cody apareceu de repente. Quis pedir informação sobre onde poderia levar a banda para comer alguma coisa. Ela que estava na esquina fumando um cigarro, demorou um pouco pra responder, mas indicou com a cabeça o bar onde seu pai trabalhava. Cody ficou assustado com o olhar severo e amazônico da garota. Era como se repudiasse a presença de qualquer homem a sua frente. Sua boca se continha produzindo um biquinho ainda mais oportuno para as fantasias de Cody. “Mas me diz, você também não está com fome, quem sabe poderia escolher nosso cardápio, apresentar alguma coisa gostosa e quente para estarmos fortes para a estrada amanhã!?”

– Você é um viajante?

– Não, nós somos! Apontou para o ônibus parada a alguns metros na rua.

– Ann.. legal, mas não tenho fome, não te conheço e não tô muito a fim de viajar.

– Você vai vir comigo – Cody terminou a frase com o olhar de sempre, como se entrasse dentro da alma da pessoa e dali puxasse qualquer possibilidade de resistência a sua vontade.

– Nunca!

A banda passava por problemas e Cody aproveitou para ficar uns dias sossegado. Parte da banda seguiu para o oeste, na direção da Califórnia. Ele e mais alguns decidiram viver novamente uma experiência real em algum lugar. Sabia que a qualquer momento iriam voltar para levá-lo – ele era O motorista. Alguns canalhas já tinham marcado o Novo México para dali alguns meses e Cody iria aproveitar a chance para descer um pouco mais e chegar sim, ao verdadeiro México. Sua diversão, quando conseguia se livrar das obrigações em sua casa – na cidade vivia também sua mulher e seus três amados filhos, era poder voltar ao velhos lugares de sua juventude e ver como tudo tinha mudado e nada mais lhe interessava verdadeiramente. Nem sua mulher, nem o caminho de sempre, nem sua vida. Mas havia prometido ao seu próprio deus que honraria a família que não pôde ter. Ainda assim, não se esforçava muito para não se apaixonar – paixões lhe roubava dias. Numa noite, viu os cabelos curtos de Rox e lembrou da força de sua autonomia. Ficou vidrado e com muitas sensações de promessas e realizações. Repetiu como um mantra: “É ela”

Rox ia para o estabelecimento onde seu pai trabalhava todos os dias em que o boteco abria na semana – de 3ª a sábado o Fate´s ficava de porta aberta das 3 da tarde às 3 da manhã.  Ela se sentava no balcão enquanto o pai, o barman, servia aos fregueses. Os dois começaram a conversar todos os dias. Aos poucos, ela acabou cedendo aos gracejos do velho garanhão. Ainda assim, desconfiava de que tipo era aquele, por mais que seus pensamentos lhe tomassem de assalto a razão. Num certo dia, ela não apareceu, no outro também, no seguinte e no seguinte. O pai, Jonathan, tinha lá suas dúvidas se havia qualquer problema – devia ser uma fase, afinal sua filha sempre estava em casa dormindo quando chegava do bar. Deixou de acompanhar o pai para acompanhar Cody. A garota, apesar do ímpeto de balzaquiana, era na verdade, uma neófita, uma ninfeta à flor da pele e bastante inteligente. Passou a infância na biblioteca e nas rodas de meninos. Inverteu o papel, dominou e abandou quando quis. Nunca aceitou a posição que lhe conferiram na sociedade enquanto fêmea. Sua mãe morreu ainda cedo e seu pai passou a ser o único alicerce cabível, por isso a maturidade precoce. Seu espírito era desbravador e nobre, entretanto, a dúvida do que seria realmente o prazer e o tempo presente, a levou a algumas bifurcações na vida. Dores e sacodes que lhe conferiram reconhecer a cretinice estampada na cara dos homens.

E assim, ela pensou, repensou, sentiu e resolveu partir, desgarrar de seu velho e amoroso pai. Pegou carona no ego de meu amigo e seguiu viagem em sua companhia pela América. A banda já voltara de Los Angeles e agora, estava carregada de ácidos e todo o tipo de subjetividade. Foram no caminho para o Novo México. Cody teve seu salário reduzido a metade por levar mais um na excursão. Em sua busca por ascender, Cody acabou descuidando da própria mente da garota. Ela se sentiu seduzida pelos músicos endiabrados e safados que estavam na parte de trás. Sua vontade era de abraçar a todos como se fossem uma só coisa. O barato já estava acontecendo e a visita ao Novo México não era um sucesso. Haviam avisado que a polícia queria saber o que tinham no ônibus. A cada bandeirinha, Cody cuspia no chão. Quando percebeu que a menina estava nas mãos de boa parte do grupo, freou bruscamente o veículo e vários saíram batendo pelos bancos e instrumentos. Pegou a garota pelas mãos e saiu com ela do ônibus. Não conseguia pensar no presente, mas sim em como situar as coleções de imagens que apareciam em sua cabeça e vibravam em sua vista. Desceram e saíram no deserto. Ao lado, na esquerda, uma linha de trem e mais deserto. Ele levou a garota até o início dos trilhos. Pegou um dos dedos de Rox e passou em seus lábios. Molhou o anelar e desceu com a mão até a cintura da jovem. Ela segurou e ergueu a mão de Cody antes dele chegar lá. “Não precisa”. Não estavam em um quarto confortável nem ela sentiu necessidade dele. As ondas iam e voltavam neste tipo de insanidade sexual, motora e robótica. Rox já estava de saco cheio disso tudo.

Conseguiram se descolar do grupo e encontraram um casal de velhos amigos perto de El Paso. Eles moravam em uma instância no México. Esqueceram completamente a barbárie que poderiam ter vivido se continuassem em trânsito com os músicos e se esbaldaram no LSD e na juventude do amor. Ela tinha 19, ele 41.

“Vinte anos de vida em alta velocidade: não resta mais muito e meus filhos estão todos fodidos. Não faça o que eu fiz”, foi o Cody disse a Rox em uma das noites de brandura – de repente, Cody, o falador, calou-se e se expremeu. O homem em seu final acumula em suas decisões a persistência do silêncio. Seu corpo não reflete seu olhar que é fraco ao seu andar. Cody deixou a garota e seguiu pelos trilhos. Um ano depois, sem a menina e de volta ao México, visitou um casamento, provocou a ira do noivo e foi embora novamente pelos trilhos. Na chuva e na angústia, andou por muito tempo. No outro dia, acharam seu bagaço, estava em uma conta absurda, balbuciava – quando conseguia, o número “64.928”. Morreu no dia seguinte, faltando quatro dias para seu aniversário.

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